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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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CEGUEIRA
LIBERAL 29/12/2007 Encerramos o ano corrente com
duas grandes notícias para os brasileiros conscientes: as sonoras vaias
recebidas por Lula por ocasião dos Jogos Pan-americanos e a derrota fragorosa
da proposta do Executivo para a continuidade da CPMF. Isso mostra que os
limites do exercício do poder estão dados para o PT pela classe política e
pelo povo brasileiro. De um lado, o desastre na administração pública
provocado pela incompetência, espelhado na dramática crise vivida pelo setor
aéreo, fez com que parte considerável do eleitorado passasse a ver Lula de
forma crítica, especialmente aquele residente no Sudeste/Sul. Do outro,
formou-se uma sólida minoria no Senado Federal capaz de barrar qualquer
aventura continuísta no que se refere à sucessão
presidencial. Se nada de novo acontecer Lula terá que passar o poder a um
sucessor eleito. Não é pouca coisa. Mas, meu
caro leitor, quero aqui é comentar a entrevista concedida pelo
economista Carlos Langoni à última edição da
revista Veja. O entrevistado é ex-presidente do Banco Central e
diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas, além de
consagrado consultor econômico de grandes grupos empresariais privados. A
entrevista é emblemática não apenas
para mostrar o grau de alienação em que está metida a nossa
elite acadêmica, como também o grau de adesismo ideológico que esta mesma
elite mostra em relação ao governo Lula, sem espelhar qualquer tipo de
preocupação com o que se passa nos bastidores do governo e com os possíveis
desdobramentos que poderão acontecer no plano continental. Os aliados
revolucionários do PT estão incendiando a América do Sul, como vemos na
Venezuela e na Bolívia de forma conspícua, mas isso não é objeto de
preocupação de gente como Langoni. Vejamos a resposta que deu à
pergunta “Em que se baseia seu otimismo?”: “No sucesso da política de estabilização, que viabilizou a
expansão do crédito e fortaleceu
o mercado interno. Neste ano, a expansão do crédito privado foi de 35%. Houve
uma revolução nesse setor. Antes o crédito era escasso, pois os bancos
preferiam aplicar os recursos que captavam na compra de títulos do tesouro.
Agora são obrigados a financiar atividades
produtivas, o consumo privado e até mesmo a compra de imóveis pelo prazo de
trinta anos, como nunca se imaginara. O total do crédito na economia já
atinge mais de 30% do PIB. Tenho citado Greenspan (Alan Greenspan,
ex-presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos),
invertendo o que ele disse sobre a exuberância irracional dos mercados. O
Brasil vive uma exuberância absolutamente racional. O PIB vai fechar o ano em
torno de 5,2%, o que dá um crescimento de renda per capita da ordem de 4%. A
taxa de investimento cresce o dobro do PIB. Não é um fenômeno episódico. É a
evidência objetiva dos benefícios da estabilidade. Estamos na contagem
regressiva para chegar ao grau de investimento”. Se há um fundo de
verdade na resposta, precisa ser dito que o governo Lula usufruiu das
reformas macroeconômicas de FHC e mais ainda do longo ciclo de crescimento da
economia mundial. É possível afirmar que o quadro descrito ocorre a despeito
do governo Lula e que a economia brasileira poderia ter repetido as taxas de
crescimento dos tempo do “milagre brasileiro” se
tivéssemos tido uma administração liberal na economia. Liberal aqui significa
duas coisas: uma carga tributária abaixo de 30% do PIB e um grau de
regulamentação menor. O certo seria dizer isso e mais, que
a prodigalidade nos gastos públicos e na política salarial, especialmente no
que se refere ao salário mínimo, com forte impacto nas contas da Previdência
Social, está criando as condições para que o atual período de bonança seja
substituído por um momento de crise, mesmo que a economia mundial
continue em situação favorável. O fato é que a inflação está em momento de
alta e que o superávit na balança comercial pode se transformar rapidamente
em déficit, com imensos impactos sobre os preços e a capacidade de pagamentos
internacionais do Brasil. Nem uma palavra do economista sobre esse cenário. Vejamos outra pergunta. “A derrota do governo na votação da prorrogação da CPMF e as tentações
que daí decorrem não paralisam essa contagem
regressiva?” Langoni respondeu: “A
derrota criou uma dúvida. O mercado ficou nervoso, e, no curtíssimo prazo,
isso é um problema. Mas, ao mesmo tempo, é uma oportunidade histórica de
fazer um ajuste interno de qualidade, de enfrentar com seriedade a questão
tributária. Nos últimos anos, conseguimos um ajuste interno movido
principalmente a aumentos sistemáticos de impostos. O que aconteceu com a
CPMF é um indicador de que a carga tributária chegou a seu limite. Hoje, o
maior entrave ao crescimento são os impostos, não os juros”. Um liberal teria obrigação de ser enfático e comemorar o fim
da CPMF, imposto irracional e incompatível a com a competitividade internacional
da economia brasileira, com o próprio desenvolvimento econômico. Na verdade, Lagoni quase que lamenta o seu fim, como se isso não
fosse algo bom em si, mas no final reconhece que a tributação é algo que atrapalha.
O mercado deveria ficar nervoso com a existência da CPMF e não com a sua
eliminação. A que mercado ele se refere? Impõe-se a pergunta. Provavelmente
ao mercado por antonomásia, o financeiro, que vive da rapina da dívida
pública há décadas. Os banqueiros dependem dos impostos para receberem o seu.
O chamado mercado real comemorou o fim da CPMF, é só perguntar ao presidente
da FIESP. Mas ninguém foi presidente do Banco Central impunemente, o único
mercado que lhe importa é aquele que interessa aos banqueiros. Outra
pergunta: “Qual é o peso dos programas sociais nessa mudança”? Resposta: “Programas
sociais de transferência direta de renda, como o Bolsa Família, tiveram
enorme impacto. Mas eles não funcionariam num ambiente de inflação crescente.
Como a transferência monetária do Bolsa Família é
relativamente modesta, de 112 reais por família, ela só tem impacto sobre a
renda porque a inflação está completamente sob controle. É isso que permite
ao país beneficiar 46 milhões de pessoas e gastar apenas 0,5% do PIB. O Bolsa
Família faz parte de uma nova safra de políticas de transferência direta de
renda. Ele difere dos programas que distribuem alimentos, por exemplo. O
México tem bons programas nos mesmos moldes. Mas não acho que o Bolsa Família
tenha sido o único fator de redenção da renda”. Qualquer resposta sensata sobre os
programas dessa natureza teria que começar pela denúncia da extrema
intervenção do Estado que de fato eles caracterizam. Mas o entrevistado sai
pela tangente, respondendo ao que não lhe foi perguntado, ao dizer que num
hipotético caso de regime inflacionário os programas não teriam eficácia.
Foge do essencial que é dizer que um liberal não pode aceitar esse tipo de
ação, que não passa de compra de votos disfarçada de ação distributiva. Os chamados
programas sociais provocam não apenas distorção econômica, mas também
política. Distorcem a representação, ameaçando a liberdade. O Brasil e os
pobres brasileiros melhor estariam se essa sem-vergonhice política não
existisse. Pergunta que
complementa a resposta anterior: “Quais são os outros fatores”? Veja, meu caro
leitor, que resposta capciosa. Não interessa o fato de que existir um salário mínimo é inaceitável.
Menos ainda que este seja objeto de elevações reais sucessivas que estão
cavando o desastre econômico futuro da Nação, mas o fato de que isso foi feito “num ambiente de austeridade fiscal”. Ora, isso é racionalização
que permite ao entrevistado se esconder atrás de um biombo para não pôr o
dedo na ferida. Obviamente que a estabilidade econômica brasileira está em
risco em face dessa prodigalidade política, sendo uma questão de tempo que o
desastre aconteça, em termos de inflação e de desequilíbrio da balança
comercial. A expectativa de inflação a que ele se refere é a dos próprios
consultores como ele, mais um desejo do que um prognóstico sério em face das
incertezas com relação aos preços de energia (petróleo
sobretudo) e a taxa cambial do dólar em face das moedas relevantes do
mundo. Em 2008 tudo pode acontecer, até mesmo uma
combinação de inflação elevada nos EUA e um forte ajuste na taxa
internacional de juros. O entrevistador
não desiste: “Mas a gastança está a todo o vapor,
não?” Resposta: Um presidente da República que acabou
de criar mais uma estatal de comunicações, que acha que o Estado gasta pouco, que planeja fazer concurso para ampliar o
funcionalismo com mais alguns milhares, senão milhões de novos servidores
públicos, não é alguém que possa ser tido como alguém que “tem uma visão muito clara de que não
conseguiria atingir os objetivos sociais que procura num ambiente de inflação”.
Muito ao contrário. É o famoso me engana que eu gosto,
Langoni não quer ver a realidade como ela é. Lula e
o PT são estatizantes, mais que isso, são revolucionários e se até agora
fizeram a lógica dos mercados foi por mera conveniência política, para
acumulação de forças, e não por convicções de qualquer espécie. Essa é a
cegueira mais perigosa de nossa elite acadêmica, de não conseguir separar o
que é tático no partido governante daquilo que é estratégico. Tudo tem sido
feito para não assustar a presa, no caso o eleitor. Resta saber o que fará o
PT se ficar consolidado o cenário de ter que passar constitucionalmente o
poder para um eleito em 2010. Langoni nem coloca
para si essa problemática, pensa em termos de um partido normal que aceita a
alternância de poder, coisa que o PT jamais foi. Pergunta: “O
que se pode esperar no caso de uma mudança radical na política econômica?”
Resposta: Fiz três simulações
sobre o que ocorreria com a economia se o Brasil adotasse um modelo econômico
populista. Em um ambiente de prosperidade mundial (que não deve ser o caso em
2008), o crescimento brasileiro cairia pela metade. No caso de uma
desaceleração suave no mundo, ficaríamos estagnados. Se uma recessão forte se
instalasse lá fora, teríamos automaticamente recessão aqui dentro. Em
qualquer das três hipóteses, teríamos a volta das expectativas inflacionárias
e um salto na percepção do risco-país. Os investimentos privados seriam
automaticamente reduzidos. O aumento da inflação provocaria uma queda da
renda real e do consumo. Se resistirmos à tentação populista, a inflação continuará sob controle, os investimentos continaurão aumentando (embora em ritmo menor devido à
desaceleração da economia mundial). E nós em breve entraremos no time dos
países normais. Não é uma questão de discussão acadêmica, é empírica. O
Brasil já passou por isso. O presidente Lula não vai cair
nessa armadilha.” Ora, o Brasil tem um modelo
econômico populista, que foi mascarado até agora pela assombrosa elevação da
carga tributária nos últimos anos. O fim da CPMF mostrou que o limite de
elevação dos tributos está posto, logo o populismo da política econômica
estará agora evidente. O drama de economistas liberais é fazerem as suas
análises como se os condicionantes políticos não existissem. Atores políticos
como o PT estão se lixando para detalhes como estabilidade e crescimento,
desde que possam continuar no poder, se possível de forma totalitária, como
vemos acontecer na Venezuela e na Bolívia. As atas do Foro de São Paulo,
presidido por Lula por uma década e integrado por toda a esquerda
revolucionária da América Latina não deixam dúvidas quanto às suas más
intenções. Langoni deveria se perguntar o que faz
Marco Aurélio Garcia nesse exato momento em que escrevo, avalizando, em nome
do governo brasileiro, a propaganda política de Hugo Chávez
e das FARC com seus reféns. Caro leitor, dei-me ao
trabalho de pontuar essa entrevista para tentar mostrar porque o PT chegou ao
centro de poder e dele não vai sair tão cedo: porque os nossos liberais
perderam o senso de perigo e a capacidade de fazer análises políticas,
imaginando que a economia determina a ação política. É precisamente o
contrário. Olhemos a Venezuela e a Bolívia, e a Argentina e o Equador e o
Chile. Olhemos a ação das FARC. Não podemos nos enganar. Quem governa o
Brasil é da mesma laia desses revolucionários, querem implantar o totalitarismo
comunista por aqui. Mas nossos liberais recusam-se a enxergar o óbvio.
Narciso acha feio o que não é espelho. |
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