NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

CAPOTE

27/11/2006

 

Fazer um filme envolvendo o tema da homossexualidade sem cair nos clichês prós e contras, na verdade escapando da armadilha de fazer dessa condição sexual o mote da narrativa terá sido o feito mais notável do diretor Bennett Miller no legendário filme “Capote”, que já nasceu clássico. Um feito não menor foi enfocar a questão da gratuidade do mal de um modo efervescente, sem sentimentalismos e melodramas. O Mal (maiúsculo) está em cada um de nós, em cada esquina, e terá sido essa descoberta que encantou Capote desde o momento em que leu a notícia do múltiplo homicídio no jornal. E o diretor, ao contar a trajetória da Truman Capote na sua pesquisa para fazer a reportagem para a revista The New Yorker, dá uma aula de arte cinematográfica.

 

Além do notável diretor temos a presença sensacional do ator Philip Seymour Hoffman, que carrega o filme nas costas. Ganhou o Oscar merecidamente pelo papel. A ênfase na voz infantil, a alegria afetada nos sofisticados encontros sociais e literários, que esconde o isolamento e a tristeza na privacidade, a grande compaixão que transmite na relação com Perry Smith, um dos autores do múltiplo homicídio, tudo isso mostra que o grande artista capta na plenitude as sutilezas psicológicas do personagem que encarna. O assassino Perry Smith é como que a Sombra (conceito junguiano) do escritor, seu duplo inferior. Duas tomadas de câmara mostrando Capote/Seymour de costas sublinham essa identificação entres os dois homens. Em um dos diálogos o próprio Capote afirma que são semelhantes, tendo ele saído pela porta de frente da casa, enquanto que Perry Smith saiu pela porta dos fundos. Uma metáfora mais do que esclarecedora.

 

O envolvimento emocional de Capote com os assassinos no processo de pesquisa é tal que ele chega a largar tudo, inclusive o amante, para tentar o que até então ninguém havia conseguido: a narrativa dos instantes finais da matança pelo autor. A confissão é chocante. Aqui a gratuidade do mal brota inteira diante do expectador como o foi aos olhos de Capote. E o mal é assim, banal e gratuito, podendo ser encontrado em qualquer esquina do mundo, até mesmo nos confins pouco habitados daquela região do Kansas.

 

Em oposição à afetada efeminação de Capote temos a presença do agente policial que investiga o caso, Alvin Dewey, vivido por Chris Cooper, um homem severo e formal, com família organizada e estereótipo do policial durão. Os dois personagens, frente a frente, formam um notável contraste.

 

Ali não havia qualquer inocência. A culpa saltava aos olhos. Fez-se justiça dentro da lei com o enforcamento dos homicidas, fielmente retratado nos instantes finais da obra. Pouco antes da execução Truman encontra pela última vez seus personagens. Ele chora. Não esconde a compaixão e a identificação com Perry Smith. E isso nada tem a ver com a sua homossexualidade: é a compaixão inteira de um homem que compreendeu a estupidez do ato homicida e a inutilidade daquela existência jogada fora, que estava por se extinguir.

 

O material coletado por Capote serviu de base para sua consagração literária, ao publicar o romance A Sangue Frio enfocando o tema, que já teve duas versões para o cinema. O custo emocional da reportagem e da narrativa foi tamanho que o autor nunca mais concluiu qualquer trabalho literário. Morreu de alcoolismo. Quem viu o filme descobre o porquê na belíssima atuação de Hoffman.