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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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BRASÍLIA CINQUENTENÁRIA 29/042012 "O diabo na rua, no meio do redemoinho" Guimarães Rosa O
cinquentenário de Brasília, em 2010, é um marco importante da nossa história e merece uma reflexão. A
nova capital foi projeto antigo, desde os tempos de Colônia. Com a
Proclamação da República a ideia virou obsessão. Foi realizada por um
governante saído de Minas Gerais, o mais central dos estados brasileiros,
algo carregado de grande simbolismo. Jucelino
Kubitschek de Oliveira encarnou o homem fáustico à
brasileira, o construtor de cidades, o colonizador do sertão. O Brasil,
enquanto Nação, foi produto de duas crenças que são a própria face da
modernidade europeia: o mito faustico, do Estado
construtor e colonizador, tão belamente cantado por Goethe; e o mito fundado
por Rousseau em torno da igualdade e da representação democrática por voto
universal. Se no inicio o Brasil era apenas objeto da ânsia fáustica dos europeus, desde a Independência a ideia do
Brasil "grande", desenvolvido e afirmativo no concerto das nações
jamais saiu do campo de visão de sua elite governante. Essa elite
internalizou ela própria o mito do Fausto e Brasília é a máxima expressão da
realização desse mito. A cidade, que é o coração da "Fortaleza
Brasil", nascida contra a Europa, contra a Igreja Católica e contra a
potência dominante, Estados Unidos da América. Esse sentimento
ficou muito bem expresso pelo presidente João Batista Figueiredo, quando da
Guerra das Malvinas. O Brasil ainda tolerou um conflito bélico com potência
europeia no Atlântico Sul, mas fez chegar ao Presidente Reagan (e, por
tabela, ao governo britânico) que não toleraria desembarque de tropas
alienígenas na América do Sul e que interviria militarmente para impedir.
Importante o fato porque delimitou que a América do Sul é dos sul-americanos
e aqui a voz imperante é a brasileira, contra a Europa, os EUA e qualquer
potência de fora do continente. Da mesma
forma, os fatos recentes da diplomacia nacional demonstram que esse élan fáustico
está mais ativo do que nunca. A busca
quase impertinente por um assento no Conselho de Segurança da ONU chega a ser
folclórica. O tom arrogante da participação do ministro Guido Mantega, na última reunião geral do FMI, mostrou que a
nação adolescente quer ser adulta. O recente surto protecionista, a pretexto
de proteger a indústria, é o mais um movimento nessa direção. No âmbito
interno, o século XX foi o momento do triunfo das ideias de Rousseau. A
Revolução de 30 deu o pontapé inicial para a construção da democracia de
massas e o longo governo de Getúlio Vargas caminhou para isso. É bem verdade
que ele deu combate ao comunismo, a máxima materialização do delírio de
Rousseau, mas por circunstâncias táticas. O comunismo, naquele momento, fazia
guerra ao Ocidente, desde a Rússia, sendo uma forma de imperialismo
interventor. Pari passu,
tivemos a aceleração do processo de industrialização, muito bem sucedida. O
cinquentenário de Brasília ocorreu quando forças políticas de esquerda
governam, com apoio de toda a sociedade. O projeto fáustico,
vê-se, não é de uma facção isolada, mas é bandeira de toda a elite dirigente.
Ele une toda a gente. Importante
notar que a transferência de poder das elites tradicionais para as novas
elites forjadas pelo voto universal foi suave. Não tivemos aqui guerra civil.
Se houve guerrilha, não era por conta dessa ideia, que é aceita por todos, mas
porque as elites esquerdistas estavam alinhadas com uma forma agressiva de
imperialismo, inaceitável dentro do projeto político de grande nação. A
esquerda percebeu isso e forjou o Foro de São Paulo, liderado e administrado
pelo PT, partido ora governante. Ao
dar esse passo, legitimou-se para assumir o poder. O grande
cantor desse processo foi sem dúvida Guimarães Rosa, autor do épico Grande
Sertão, Veredas. A obra é a expressão artística acabada desse processo
histórico, tendo sido publicada no ano do início das obras da nova capital. O
autor nela contemplou toda a tradição literária e filosófica ocidental. Deu
voz ao amálgama de raças que forma a gente brasileira. Fez do português sertanejo língua literária, o
desejo expresso pelas elites intelectuais pelo menos desde 1922. Romper com
Portugal, sobretudo na língua, era meta antiga. Mas Guimarães Rosa limitou-se
ao registro dessa ruptura, foi buscar no fundo das Gerais a realidade do
Brasil profundo, que deixou de ser litoral, provisório, para ser o agente permanente
da afirmação do poder nacional. Guimarães
Rosa tinha como projeto escrever a continuação do seu épico. Seria o Grande
Sertão: Cidades. Uma obra que ainda precisa ser escrita, para fechar o ciclo
de ouro do mito fáustico no Brasil, no campo
literário. |
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