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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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BASTIAT E A LEI (III) 11/02/2009 Fechando o
argumento em torno do livro de Bastiat restam ainda alguns comentários a fazer. Vimos que o
positivismo jurídico toma a simples razão como fonte do Direito e que isso é
não apenas errôneo, é uma falsificação. Michel Villey,
no seu livro FILOSOFIA DO DIREITO, atribui a ele o próprio assassinato da
lei, fazendo coro com o que o Bastiat chamou de perversão da lei. Essa perversão tem
dois pólos bem definidos, como veremos a seguir. De um lado
o processo legislativo. Vimos que a lei natural é anterior à norma escrita,
sendo a sua fonte. Por isso mesmo a forma escrita pode e deve ser mutante,
vez que a perfeição não pode ser atingida na vida dinâmica, exigindo que o
ordenamento jurídico seja vivo. Essa vitalidade, todavia, não pode cair no
ativismo legislativo, no mudar por mudar, no mudar por meras conveniências de
grupos e de maiorias legislativas fortuitas. O corpo legal é o esqueleto do
Estado, que por definição é conservação, estabilidade, manutenção das coisas
no tempo. Estabilidade da lei na mudança. É paradoxal. A desgraça
dos tempos modernos é a crença de que os problemas humanos podem ser
resolvidos por normas escritas, contrapartida da crença de que o Estado teria
poderes sobrenaturais para eliminar os riscos existenciais. Um sistema
jurídico mutante é a negação da estabilidade intrínseca ao Estado. É a própria
confusão jurídica. Vimos que as leis são o instrumento pelo qual o poder se
realiza na pessoa de seus agentes, desde o guarda de trânsito ao general que
eventualmente tem que fazer a guerra. Se uma norma vale hoje, deixa de valer
amanhã e torna a valer novamente no futuro fica-se diante do caos. Os agentes
do Estado perdem o norte e passam a seguir seu próprio instinto. As partes
dissociam-se do todo. Um caso típico no Brasil é a Secretaria da Receita
Federal, que se autonomizou em relação ao poder
político. O pior é
que o processo legislativo, ao desconectar-se do direito natural, criou as condições
para se erguesse um monumento à injustiça. O ideal de dar a cada um o que é seu foi substituído pela ética da
esperteza. Cada grupo político quer agora carimbar direitos e rendas para si via
sistema legislativo, em prejuízo dos pagadores de impostos. O descaramento
desse processo faz lembrar a época do fim do Antigo Regime, tão cheio de
privilégios e monopólios que deu lugar à Revolução liberal. O ativismo
legislativo é precisamente a restauração de uma sociedade estratificada legalmente,
separando o privilégio dos ganhadores do ônus dos pagadores. Será talvez o
mais desprezível ordenamento jurídico de que se tem notícia fora do mundo
totalitário do nazismo e do comunismo. O Antigo Regime limitava privilégios a
uma pequena casta. O irônico
e paradoxal é que o processo legislativo nasce nas casas congressuais que se
elegem prometendo ao povo generalizar os privilégios, como se estes pudessem
ser generalizados. Vimos agora a eleição de Barack Obama, que construiu
maioria parlamentar para o Partido Democrata valendo-se precisamente desse
expediente retórico para chegar ao centro de poder. Pior, prometendo a
manutenção do status quo da injustiça, alegando ter
a “coragem” (como se essa fosse a questão) de realizar tantos resgates quantos necessários
para que os beneficiários dos privilégios não viessem a ser prejudicados pela
crise. Não quer que a injustiça dos privilégios insensatos morra. Do outro
lado temos o processo judicial, que fez do positivismo jurídico o seu norte,
e, ao fazê-lo, o renegou. As cortes agora querem ir além da letra da lei, têm
a ânsia de legislar, talvez intuindo que o verdadeiro Direito esteja
escondido pela frieza da norma escrita, mal escrita pelas intenções iníquas.
O ativismo da magistratura é ainda mais perigoso do que o legislativo. Se a
norma é mutante ao menos tem uma forma conhecida. Se os magistrados deixam de
seguir o corpo legal aí o caos realmente está instalado. O engodo
então tem esse encadeamento, que a classe política promete a generalização
dos privilégios, quando deveria pugnar por suprimi-los; promete a igualdade
geral, quando na verdade constrói todo tipo de hierarquia artificial. Muda
tudo para nada mudar, isso ficou muito claro no bordão “Change”, de Obama.
Que mudança? Nenhuma, ele está empenhado em manter o status quo da iniqüidade. Na esfera
judicial o sistema de justiça torna o marco jurídico ainda mais instável,
pois nem a lei positiva tem valor. O julgamento passa a ser ditado pelo achismo do dia, pela opinião pública, pelos meios de
comunicação e, mais freqüentemente, pela deformação moral do magistrado. Insisto, caro leitor, que a crise atual não deriva meramente de
fatores econômicos, embora sua face econômica seja óbvia. A raiz da crise é o
completo afastamento da lei natural e está fincada na iniqüidade das leis e
de como elas são aplicadas. O agigantamento do Estado – a contrapartida do
agigantamento dos privilégios – é apenas o corolário lógico da esquizofrenia
jurídica. A conclusão de tudo isso é que está muito difícil corrigir o que
está torto sem uma monumental revolta coletiva contra a cegueira dos governantes. |
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