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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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BASTIAT E A LEI (II) 05/02/2009 Em artigo anterior comentei o opúsculo de Bastiat e quero aqui continuar aquela reflexão. Entendo
que temos duas ordens de problemas a discutir. Em primeiro lugar, a
significância do que seja lei e do que seja Estado, do que seja o próprio
poder. Em segundo, entender a lei dentro da perspectiva do direito natural,
pois esta é a questão mais central não só do ponto de vista teórico, mas
também a questão factual maiúscula a explicar o nosso tempo. Por
primeiro é preciso formular a pergunta: o que é o Estado? Desde a origem o
Estado é violência organizada, coerção, e desde a origem procura praticar
alguma forma de justiça. A lei é a espada, para expressar hiperbolicamente. É
o Estado, em qualquer circunstância, o instrumento da justiça, mas ele mesmo
não é a justiça. Desde tempos antigos filósofos e governantes perseguiram a
fonte última de justiça e daí que provem a idéia do direito natural. Uma
descoberta imorredoura dos filósofos gregos e dos profetas hebraicos é que a
lei não é humana, sua fonte é transcendente, cabendo aos viventes a
descoberta da sua melhor expressão positiva. Seguindo a
trilha da obra de Michel Villey podemos dizer que a
tradição clássica entendia que a lei precedia a norma escrita. Esta só se
solidificava na busca dialética entre os fatos e a tradição. O ponto
perseguido é que a forma escrita da lei se aproximasse o máximo possível da
fonte, segundo a natureza. Por isso que a norma positiva tem que ser
necessariamente mutante, como os espécimes particulares são variáveis em
comparação com a forma permanente. A lei, por definição, é algo que antecede
qualquer expressão escrita. A tradição cristã reconhece que a lei está
escrita na alma dos homens, um dom de Deus, podendo ser discernida pela
razão. Toda a gente tem noção do certo e do errado, mesmo que pratique o erro
de caso pensado. O poder de
Estado, a par do compromisso de proteção dos indivíduos da comunidade
política contra o inimigo externo, tem também esse compromisso inescapável
com a administração de alguma forma de justiça, ainda que essa venha a ser a
vontade idiossincrática do soberano do dia. É essa função judicial que
legitima. Defesa e justiça são as funções mais essenciais do Estado e a
civilização só é possível ser construída quando essas funções estão
desenvolvias. O poder
não é coisa inventada dos príncipes e dos escolhidos por algum critério para
exercê-lo. Ele guarda relação com a opinião pública, expressa essa opinião.
Pode-se governar pela tirania por certo tempo, mas não por todo tempo. Sem
consentimento não há como um poder se manter. Por isso Ortega y Gasset, no famoso livro A Rebelião das Massas,
lembrou-nos que governar é menos uma questão de punhos de que de nádegas,
menos de fuzis do que de trono. O problema
acontece quando a fonte última do poder, as gentes,
está moralmente adoecida, como nos tempos atuais. Como em todos os momentos
revolucionários. A corrupção das gentes leva à escolha de governantes
moralmente inferiores e intelectualmente despreparados para o desafio da arte
de governar. O mister do governante não é técnico,
bem que se diga, embora possua uma dimensão técnica que freqüentemente é
executada pela tecnoburocracia. É, antes de tudo,
um mister filosófico. Tem que ter o sentido da
história. Tem que expressar o projeto existencial de toda a gente. Tem que
buscar a justiça a mais pura possível. Quando a
corrupção da alma coletiva alcança limites inferiores o processo legislativo
descola-se completamente da fonte de justiça. Como a lei é o instrumento pelo
qual o Estado toma forma, é, por assim dizer, seu esqueleto, o processo legiferante contraditório agiganta-o e transforma-se no
oposto, no instrumento de injustiça. A burocracia só faz aquilo que está
expresso em lei. O poder será sempre o do fiscal, do policial da esquina, do
vigia de trânsito, do juiz de primeira instância, do oficial de justiça.
Quando as leis descolam-se da fonte passam a imperar normas demais, incoerentes
entre si e contrárias ao senso de justiça. Dessa forma, o exercício do poder
por parte dos agentes transforma a rotina da vida em tirania cotidiana, as
prisões ficam abarrotadas e o simples existir passa a correr grande perigo. O
Estado transforma-se no Saturno devorador de homens, para lembrar a forte
imagem do quadro de Goya. A doença
coletiva atual é a mais profunda e é por causa dela que o Estado agigantou-se
como nunca em toda a história da humanidade. A tributação, a regulação e a
vigilância alcançaram graus nunca antes imaginados. As populações são agora
cativas do poder de Estado e suas patrulhas – policiais,
fiscais ou de qualquer natureza – tornaram-se como que expedição de
caça. Nesse contexto, a função de justiça já foi sacrificada há muito. Por isso
que a lei positiva passou a ser idolatrada, numa espúria autonomização
dos meios e das funções jurídicas, a começar pelo processo legislativo. Por
causa da loucura coletiva, da segunda
realidade quixotesca.
O sistema legal, a cambiar em velocidade alucinante, é a máxima expressão da
doença da alma. O positivismo jurídico como filosofia imperante entre
legisladores e juristas não é puro cinismo, embora o seja também: é sintoma
dessa psicopatologia. Nunca devemos esquecer o que Voegelin
escreveu sobre ele, que um Hitler também foi estritamente legalista. A lei
insana pede um governante insano; a lei louca pede um governante louco. Peguemos
um exemplo simples, a questão do direito de propriedade. É intuitivo que a
propriedade privada é algo sagrado, fundamento da ordem justa. A cada um o que é seu, reza o mais antigo preceito de
justiça. Qual a sacrossanta crença dos tempos modernos? Que a socialização é
o remédio para todos os males. O megasistema
tributário foi construído na suposição de que se estaria praticando justiça
social, quando na verdade o que se vê é o sistema de rapina mais escandaloso que
já se construiu em todos os tempos. Quando se prende um ladrão qualquer, e
uma pena lhe é imposta, eu me espanto, pois o que é um simples ladrão diante
do Fisco? Toda a engenharia de distribuição de renda via Estado é o sintoma
mais acabado da destruição dos valores da alma, é a paródia mais ridícula da
caridade cristã e é o exercício cotidiano da mais profunda injustiça. Essa
monstruosidade foi construída pela combinação da retórica esquerdista mal
intencionada, que vem desde a Revolução Francesa, com os apetites bestiais
das massas, que perderam as barreiras e passaram a demandar benesses estatais
além do que o Estado deveria estar autorizado a dar. Esse dois pólos agindo,
tijolo por tijolo, dia a dia, lei a lei, norma a norma, deram nisso que vemos
aí: esse horrendo mundo em que tudo está normatizado e só vive e prospera
quem estiver como sócio do Grande Saturno. De fato, vivemos a Era do Roubo
Institucional. Minha
intuição é que a crise que se instalou, na sua proporção e na sua agudeza,
nasceu dessa desordem, da desconexão entre o processo legislativo, o Estado e
o senso de justiça. Corrigir o descalabro deverá custar muito. No passado
tivemos guerras colossais. Não me atrevo a fazer prognóstico algum. |
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