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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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AUTOFAGIA DO DIREITO 29 de abril de
2010 “Nosso direito zomba e se afasta da justiça” Michel Villey O triunfo do
positivismo jurídico teve desdobramentos práticos imediatos, desde que
derrotou a visão aristotélica do direito natural. O momento crucial desse
processo combinou a consolidação dos Estados nacionais modernos com as obras
de Maquiavel, na ciência política, e a de Hobbes, no âmbito estrito da
filosofia política. Estamos aqui no período que medeia o século XIV e o
século XVII. É a fundação da modernidade. O que separa
os modernos dos antigos é basicamente a noção de que a justiça, e, portanto,
o direito, surge antes do homem, tem raiz transcendente. Era esse ponto que
opunha Platão a todos os sofistas. Reconhecer que o fundamento do direito
estava na lei natural e que esta está além do homem, não é por ele criada,
mas descoberta, foi o salto mais sensacional do
filósofo, só comparável à verdade revelada das Escrituras. Desde então, a
história do direito caminhou para o reconhecimento do telos
oriundo da lei natural e os governantes esforçavam-se para estar de acordo
com ela. Essa visão de mundo mudou novamente por ocasião do Renascimento. A descoberta
da lei natural é a síntese do processo civilizatório, que terá no
cristianismo o apogeu e o mecanismo para se espalhar pelo mundo. O direito
romano é filho de Aristóteles e, ainda que nos aspectos meramente formais,
ele persiste até nossos dias. Reminiscência de um tempo de inteireza da alma. Aristóteles
deu um passo além, ao mostrar que o direito comportava múltiplas e variadas
formas, sem todavia perder a sua raiz transcendente,
a lei natural. O direito é para ele uma ciência, portanto produto da
observação humana. Do mesmo jeito, as formas de governo podiam variar, mas a
filosofia tinha os meios para orientar os atores políticos na busca da
verdadeira justiça. Os períodos de caos eram justamente aqueles em que a
justiça ficava ofuscada ou negada por governantes ignorantes e aventureiros,
que precisavam ser removidos. Poder e
direito derivavam, em última análise, da autoridade divina. A demagogia
sofista de que todo poder supostamente emana do povo foi derrogada por esses
dois filósofos, ressuscitando apenas nos tempos modernos. Essa demagogia é a
crença que se instalou nos novos Estado nacionais, quando o ateísmo passou a
instruir os governantes. É longa a
história do positivismo jurídico, mas a sua essência é que ele usurpa a
autoridade da lei natural para a lei humana positiva, como se fossem uma
única e mesma coisa. A partir daí, criou-se o caminho para o totalitarismo
como forma de governo, fundado no correspondente niilismo moral. A única
ética a prevalecer agora é a ética cínica da tomada do poder e da sua
manutenção. “Os fins justificam os
meios”, escreveu Maquiavel, ecoando para os tempos vindouros. Mas Maquiavel não
era burro. Na sua filosofia ainda tinha uma elemento transcendente vinculando
a ação humana, a Fortuna, ou a Roda da Fortuna. A metáfora de que o novo
príncipe deveria dominá-la, como a uma mulher, não passou de tirada nada
espirituosa e de mau gosto do florentino. Ele sempre soube que a Roda da Fortuna
era encimada por um anjo dividido entre o bem e o mal. Esse elemento
transcendente perdeu-se na pena de seus sucessores. Já em Hobbes deixou de
existir e, no seu lugar, foi posta a ficção dos direitos naturais estóicos,
os assim chamados direitos de primeira geração. Aqui foram fundados o
comunismo e o liberalismo, irmãos siameses da modernidade, filhos da mesma
base filosófica. Hobbes sabia do
monstro que estava criando, o Leviatã, e por isso mesmo tentou,
ainda nos primórdios da loucura da modernidade, instituir os limites do
Estado, em contraponto ao indivíduo. Intuiu o que estava por vir. Locke
tomará essa idéia e formatará o liberalismo clássico, consagrando a
propriedade privada e propondo a separação enfática entre o poder econômico e
o poder político. Sim, há uma grande generosidade e mesmo uma sabedoria nessa
proposição, mas ela foi derrotada justamente porque, produto da engenharia
humana, foi por outra soterrada. O liberalismo
político morreu. Basta ver o tamanho que os Estados nacionais alcançaram
atualmente, meça-se por qualquer critério: PIB, número de funcionários, poder
de polícia. Toda a vida prática agora é contingente do poder de Estado. Não
há mais vida fora do Estado. Somos todos escravos do Leviatã. O liberalismo
econômico também morreu por falta de adeptos. No mundo inteiro os partidos
políticos competitivos, capazes de tomarem as rédeas do poder, são defensores
de variantes das ideologias coletivistas. O liberalismo não é páreo real nas
campanhas eleitorais. O liberalismo
político morreu porque perdeu a batalha com Rousseau e seus sucessores
coletivistas. Se o Estado pode tudo e se ele é produto da razão humana, nada
mais natural que se procure a perfectibilidade em vida. Afinal, a lei pode
tudo, inclusive ignorar os perigos e riscos da existência humana, a realidade
imediata do homem. Declararam-se os direitos do homem e a esquizofrenia
apossou-se de todos os sistemas jurídicos. É Rousseau triunfante que fala
nessas declarações demagógicas. A agonia da
grande crise atualmente em curso mostra a loucura dessa visão de mundo. O que
se passa na Grécia e na União Européia não traz bons presságios. O que se
passa nos EUA também. No cerne da crise a esfinge que pede para ser
decifrada: o Estado nacional e seu direito autofágico. A conseqüência é
a judicialização de tudo, agora centralizado no
Estado. A moeda passou a ser criada por lei, deixou de ser natural; empregos
agora são cada vez mais dádiva do poder de Estado,
seja diretamente, na multidão de funcionários que contrata, seja por patrocinar
o “desenvolvimento”, quer dizer, bancar, de todas as formas, a oligopolização dos setores produtivos, destruindo as
pequenas e médias empresas. Os setores produtivos agora são dependentes de
financiamentos, regulação, compras e da boa vontade do Estado. Nada acontece
fora do Estado. A desproporção de
poder entre as criaturas humanas e o Estado nunca foi tamanha. Será talvez
por isso que as prisões foram multiplicadas e a população encarcerada está
alçando cifras nunca antes vistas. A perfeição do positivismo jurídico é o Estado-prisão, sempre perfectibilista,
todo poderoso, agora totalitário na mais temível forma: dentro da legalidade,
mesmo legitimado pela estupidez das massas adestradas para o socialismo. Uma antiga
definição de Estado é a de que ele é violência organizada. Se olharmos como
as polícias foram multiplicadas e aparelhadas é que veremos como esse poder
hoje se coloca de forma esmagadora diante do indivíduo isolado. As novas
tecnologias alavancaram esse processo de expansão ao paroxismo. O grande
inimigo do homem agora é o próprio Estado do qual é súdito, que dispõe a bel
prazer de sua renda, de sua liberdade, de seus empregos, de suas vontades, de
sua riqueza. O homem deixou de
ser sujeito para ser uma simples massa de moldar nas mãos dos servos do
Estado, a vasta burocracia que se esforça, a cada dia, para transformar a
terra no inferno, prometendo o paraíso: a supressão dos riscos, desde que ele
disponha do poder total. Valha-nos Nosso
Senhor Jesus Cristo! Livre-nos da Terceira Tentação! |
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