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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A
TERCEIRA REVELAÇÃO 27 de agosto de 2009 “E os homens se admiram - e oxalá ficassem só na admiração,
ao invés de também blasfemarem - quando Deus corrige o gênero humano e envia
o misericordioso flagelo do castigo, para que os homens se emendem antes do
dia do juízo. E o faz, em geral, sem escolher os que prova, pois não quer que
ninguém se perca. Atinge, pois, indistintamente, pecadores e justos; ainda
que ninguém possa considerar-se justo, pois até Daniel confessa seus próprios
pecados”. Santo Agostinho Três textos
do Ortega y Gasset nos levam a pensar qual é a idéia-chave que move o mundo nos
tempos de hoje. Não pode ser objeto desse simples comentário um resumo crítico da filosofia orteguiana, por isso quero
aqui sumarizar a sua teoria da história (HISTÓRIA COMO SISTEMA, de 1935),
publicado logo depois da conferência que fez sobre o tricentenário de Galileu
(EM TORNO A GALILEO). Completa a trilogia de interesse outra obra de 1935,
IDEAS E CREENCIAS. Nesta última temos um bom resumo: a crença que tomou conta
do Ocidente na Idade Média tinha seu centro no Deus cristão. Depois do
Renascimento, essa crença foi substituída pela fé na Razão. Nos três séculos
seguintes à condenação de Galileu o Ocidente viveu dessa certeza na Razão,
até que chegou o século XX e essa fé arrefeceu
também. No ensaio
HISTÓRIA COMO SISTEMA, podemos ler: “O lo que es
igual, la sociedad es, primariamente,
pasado, y relativamente al hombre,
tardígrada. Por lo demás, la instauración de un nuevo uso –de una nueva
«opinión pública» o «creencia
colectiva», de una nueva moral, de una nueva forma de, gobierno–, la
determinación de lo que la
sociedad en cada momento va a ser, depende de lo que ha
sido, lo, mismo que la vida personal. En la crisis política actual, las
sociedades de Occidente se encuentran con que no pueden ser sin más ni más, «liberales»,
«demócratas», «monárquicas», «feudales», ni... «faraónicas», precisa- mente
porque ya lo han sido, por sí o por saber cómo lo fueron otras. En la
«opinión pública política» actual, en ese uso hoy vigente, sigue actuando una
porción enorme de pasado y, por tanto,
es todo eso en la forma de haberlo
sido” Ortega
entendeu que aquilo o que ele via no fatídico ano de 1935 era sintoma de uma
crise das convicções mais profundas do Ocidente, o que vale dizer, do mundo
todo, vez que a cultura ocidental tomou conta do planeta. Nem Deus e nem
Razão, então o quê? O próprio Ortega adianta: “El
hombre necesita una nueva revelación. Y hay revelación siempre que el hombre se siente en contacto con una realidad distinta
de él. No importa cuál sea ésta, con tal de que nos parezca absolutamente
realidad y no mera idea nuestra sobre una realidad, presunción o imaginación
de Ella”. Longe de Ortega pensar em termos
místicos. Falava da crença coletiva que move a
sociedade, as gentes. Alhures Ortega alertara para o grande perigo que se tornou
o Estado. Passado quase um século desde que o espanhol se debruçou sobre essa
problemática, o que temos a dizer? Que aquilo que ele via como o grande
perigo, o Estado, é que se tornou como que uma Terceira Revelação para as
massas. O mundo inteiro hoje está convencido de que o Estado tem os
instrumentos para salvar a vida prática de todos, da Saúde à Educação, do
suprimento de moeda à superação das crises econômicas, do saneamento do
meio-ambiente à geração de empregos. Barack Obama elegeu-se fazendo os
norte-americanos acreditarem nisso e que ele encarnava essa crença. Estamos falando da imanentização total
da vida humana, a vitória dos que acreditam que as beatitudes do Além podem
ser antecipadas pela varinha mágica do ente estatal. É como se o risco
existencial tivesse sido extinto. O tipo de vida que se tem hoje pode ser
definido como a politização de tudo. Em contrapartida, essa hipertrofia do
Estado corresponde à emergência de uma ordem policial, a invasão de toda a
vida privada por regulamentos contraditórios, a declaração, cada vez mais
generosa, de direitos particularizados até mesmo de animais e árvores.
Vive-se uma forma aberta de ditadura policial, em toda a parte, de tal
maneira que a pessoa individual perdeu importância e relevância. Para tudo se
espera e se demanda uma ação estatal. Grita-se o tempo todo por novas leis. O problema é que o Estado não serve
para isso, eliminar o risco existencial, não foi criado para esse fim. Essa
maneira de construí-lo determina o fim da liberdade, vale dizer, o fim do
homem como tal. Sem liberdade o homem ficará reduzido a uma condição de
mônada da multidão, uma coisa e, enquanto tal, coisa descartável. O debate em
curso nos EUA sobre a estatização do sistema de Saúde mostra para onde
caminha a nova moral: eutanásia, aborto, nascimentos programados por sexo e
raça... Ora, de que vale uma mônada anônima da multidão? De nada. Então tudo
é permitido. Deus não mais existe na alma das massas. Aliás, o novo Deus
existe: é o Estado, o Baal renascido. O Estado não é mais percebido como um
perigo a ameaçar, vez que ele é agora uma realidade a devorar a humanidade. É
a própria consumação do Mal. As prisões se multiplicam, a espontaneidade
desaparece, as leis perderam qualquer conexão com a Lei Natural, nenhum elemento
transcendente tem mais relevância na edificação da vida cotidiana. É o deus
desse mundo agindo na plenitude de sua potência, em prejuízo dos indivíduos
isolados. Não há mais natureza, há apenas o Estado, suas leis, suas polícias,
sua vontade suprema. A produção coletiva não é apenas apropriada pelo Estado
na forma de impostos, ela é estatizada crescentemente, como vimos agora em todos os
países, por conta da crise. E a opinião pública, por toda parte, demanda mais
estatização, suplica por mais polícias, mais moeda estatal, mais regulação.
Nenhuma força hoje é capaz de se colocar contra esse movimento de opinião
pública, que é mundial. É o Estado o novo deus das massas. A coisificação do homem no grau a que
chegou poderá levar, em poucos anos, ao completo esquecimento dos valores que
formaram a civilização. Seu apogeu provavelmente será quando for formado um
governo mundial, com autoridade sobre todos os povos. Estamos muito perto
disso. A última encíclica papal deu mostra da amplitude que essa idéia ganhou,
a ponto de conquistar a mais alta hierarquia da Igreja Católica, que deveria
ser um bastião contra essa imanentização radical da existência. Os sistemas
jurídicos estão sendo padronizados e sincronizados,
passo lógico anterior no rumo do governo mundial. As uniões aduaneiras, como
a Européia e o MERCOSUL, são também um passo lógico, a anteceder o governo
mundial. É o Estado como o grande Saturno devorador de homens, conforme
podemos ver na teratológica tela de Goya. Não vejo nem mesmo o perigo de guerras
horrendas como as que tivemos no século XX. Estamos próximos mesmo é da
tirania policial e burocrática completa, em que a vida da pessoa será
administrada desde um centro burocrático, distante e insensível. Será a
coisificação completa da vida. O problema é que o homem não é isso, uma
coisa; tem liberdade, tem alma, tem anseio e referência de eternidade. Ortega
se enganou. Não precisamos de uma nova revelação, visto que está tudo
revelado. Precisamos é resistir à essa falsa
revelação, tão belamente descrita no filme Sangue
Negro. A suposta
Terceira Revelação é ela mesma satânica e inimiga da humanidade. Só resta o
caminho de retorno aos valores da Tradição. É preciso resistir de todas as
formas contra a tentativa de criação do governo mundial e contra a
politização da vida cotidiana. Existir é resistir. Resistir para existir. |
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