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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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AS SIMPLIFICAÇÕES DE UMBERTO ECO 07/10/2001 A Folha de São Paulo de
hoje (07/10/2001) traz um ensaio do escritor italiano Umberto Eco. É um texto
sofisticado e muito bem escrito e tem o grande mérito de não cair na
esparrela marxista de tentar ver os acontecimentos históricos e os fatos do 11 de setembro sob o ângulo da luta de classes. Ele
afirma: "Passemos agora ao confronto de civilizações, por que é essa
a questão". Um intelectual aparentemente honesto, embora seu texto seja
portador do mesmo veneno que outros escritores menos talentosos e menos
cultivados destilaram igualmente: o relativismo cultural e moral. Não é fácil fazer a
exegese de um texto tão bem feito, tendo que explicitar o que há de errado
com a sua forma engajada de fazer a defesa dos atacantes do Ocidente. É o que
eu vou tentar fazer aqui. Eco toma como mote e ponto
de partida do seu ensaio a fala de Berlusconi, que afirmou a superioridade da
cultura ocidental e cristã em relação à dos muçulmanos agressores e, como um
intelectual engajado, compara-o a Bin Laden, "que talvez seja mais rico que o nosso
primeiro-ministro". É claro que Eco vê na riqueza individual uma
espécie de defeito congênito. Por isso que ele se preocupa "com os
jovens porque a cabeça dos velhos não se muda mais". Implicitamente, é
preciso torná-los semelhante aos Ecos espalhados pelos
mundo. Aqui, com mais elegância e
arte, ele bate na mesma tecla em que bateram todos os ícones esquerdistas
mundiais: que Bin Laden é
rico, é reacionários e que, portanto, é equivalente aos seus iguais do
Ocidente. Lá, como cá, tem seus fundamentalistas radicais. O que está errado
com essa analogia? O fato de esconder que o Ocidente há muito renunciou à
guerra de conquista, à evangelização dos povos não cristãos, que prega o
ecumenismo e o Papa, possivelmente o maior símbolo da cristandade perante o
mundo não cristão, tem pedido perdão e desculpas pelo passado de
"erros" dos cristãos. Eco está errado também por não se lembrar que
os muçulmanos simplesmente consideram um profanação
que algum infiel pise no solo sagrado da Arábia Saudita, que não reconhecem o
direito à existência dos diferentes, que o seu objetivo é construir um Estado
teocrático mundial baseado no Corão, enquadrando
todas as populações do planeta no obscurantismo em que estão mergulhados. Dito de outra forma: o
Ocidente cristão é tolerante com os diferentes, aceita-os,
cultiva-os, recebe-os de braços abertos na sua terra, generosamente tenta lhe
passar os seus conhecimentos e pratica a ajuda humanitária, indo as vezes à
guerra contra cristãos que não respeitam esses valores, como no caso da
Iugoslávia, defendendo os muçulmanos vítimas de genocídio. Alguns indivíduos
ocidentais, movidos pela mais generosa das misericórdias, vão àqueles rincões
distantes de populações muçulmanas para ajudar e acabam freqüentemente sendo
mal tratados e até mortos pela ousadia de ir lá. Então não é possível
comparar ambas as atitudes, que são diametralmente opostas. O Ocidente está
no século XXI, os muçulmanos pararam no século VII. Quando Eco afirma que
"As guerras de religiões que ensangüentaram o mundo por séculos
nasceram de adesões passionais a contraposições simplistas, como nós e os
outros, bons e maus, negros e brancos" esqueceu-se de dizer que esse
é um capítulo superado no Ocidente, mas é a alma viva do Islã, que se alimenta do ódio ao Ocidente, da mítica idade do ouro que
teria havida no passado em que a fé islâmica dominava o mundo, na certeza
escatológica de que o domínio político do mundo e a imposição, a ferro
e fogo, dos preceitos do Islã, será a instalação do paraíso na terra. E não
passa de mera figura de retórica tentar justificar as ações dos radicais
islâmicos com os fatos históricos do passado, é a relativização da gravidade
dos fatos e a ocultação da sua hedionda imoralidade. De uma vez por todas é
preciso ter em conta que não é possível desfocá-los
(os fatos históricos) do seu tempo e muito menos transportá-los para o
momento atual. Do ponto de vista histórico, os fatos são o que são e não faz
sentido enquadrá-los em um tribunal de inquisição. Nisso o Papa está
redondamente errado. Não haveria do que pedir desculpas. Todos os agentes
históricos possivelmente culpados estão mortos. De forma correta Eco
afirma que "A verdadeira lição que se deve tirar da antropologia
cultural é que, para dizer que uma cultura é superior a outra, é preciso
fixar parâmetros. Uma coisa é dizer o que é uma cultura, outra é dizer com
base, em que parâmetros a julgamos". Só que
a sua argumentação parte para campos passíveis de equalizar
o Ocidente com o mundo muçulmano, fugindo dos pontos realmente fundamentais,
que tornam o Ocidente positivamente superior. Ora, ir buscar na história os
grandes feitos científicos e filosóficos do árabes
de nada serve para explicar o atual atraso científico, filosófico e
tecnológico dos mesmos. É um argumento mal intencionado, mentiroso. E aqui
não se trata de discutir questões teológicas relativamente às questões ditas
sagradas, mas como essas questões influem sobre o indivíduo, sua liberdade, sua
criatividade, sua afirmação diante do mundo. "Os parâmetros de
julgamento são outra coisa, depende de nossas
raízes, de nossas preferências, de nossos hábitos, de nossas paixões, de um
sistema de valores nosso". Exato. Então porque Humberto Eco não
tocou na questão feminina, no sistema de Justiça, nas liberdades individuais,
na separação entre o poder político e o poder religioso, no princípio da sacralidade da vida individual e dos limites em que o
Estado deve atuar, respeitando a privacidade do cidadão? É isso o que
verdadeiramente separa hoje ambas as culturas e o que torna o Ocidente muito
superior ao mundo Islâmico e nisso qualquer pessoa sensata tem que concordar
com Berlusconi. Se uma corrente migratória, por hipótese, se estabelecesse de
um país europeu para o Oriente Médio nem seria recebida e mesmo nem seria
estabelecida: os indivíduos seriam mortos em pouco tempo. O que dizer de uma
Europa e uma América que não apenas recebem os muçulmanos, mas respeitam
exaltadamente as diferenças e aceitam o cultivo de suas tradições, mesmo
sabendo que eles consideram o mundo judaico-cristão o Grande Satã? Eco usa de expediente retóricos insidiosos para relativizar
e igualar ambos os pólos, especialmente quando afirma: "Bin Laden e Saddam
Hussein são inimigos ferozes da civilização, tivemos senhores que se chamavam
Hitler ou Stálin". Ora, esses dois últimos são a
degeneração do Ocidente, a sua própria negação, enquanto os dois
primeiros apenas são a encarnação na forma de poder político do que pensam as
massas islâmicas. É inaceitável colocar Hitler e Stálin como exemplos do ser
ocidental. Eles são o seu oposto. "É muita confusão
sob o céu", afirma Eco, pois "parece que a defesa dos valores
do Ocidente se tornou uma bandeira da direita, enquanto a esquerda é, como sempre,
simpatizante islâmica". Eis o ponto. A direita e as pessoas sensatas
imediatamente perceberam a gravidade e a grandiosidade histórica dos
acontecidos do 11 de setembro. Os esquerdistas
continuaram a bater na mesma tecla, a de que o inimigo da civilização e deles
próprios são as forças da ordem. Preocupados em tomar o poder político de assalto e enraivecidos por Bush ter vencido o
seu candidato, perderam o timing e a capacidade analítica. Eco percebe
isso e tenta chamar os seus companheiros ideológicos para a razão. Os
esquerdistas não se aperceberam que as querelas políticas paroquiais perderam
relevo diante de uma ameaça real à nossa forma de ser. Não falo aqui apenas
da ameaça física daqueles infelizes que casualmente estavam onde fizeram cair
os aviões e onde poderão estar quando explodir o próximo artefato de morte.
Falo da perda, ainda que temporária, das liberdades civis, falo do
alargamento das distâncias, falo do muro invisível que foi
instantaneamente construído entre nós e os outros e também entre nós mesmos. "A defesa dos
valores da ciência, do desenvolvimento tecnológico e da cultura ocidental
moderna em geral foi sempre uma característica das alas laicas e
progressistas" (ele quer dizer esquerdistas). "Contrário foi
sempre o pensamento reacionário (no sentido mais nobre do termo – pelo menos
começando com a negação da Revolução Francesa – que se opôs à ideologia laica
do progresso afirmado que se deveria voltar aos valores da Tradição".
Isso é uma inverdade. Ora, Eco deveria dizer que sem a Tradição os valores
superiores do Ocidente jamais teriam germinado e a sociedade aberta que
construímos não existiria. Sem cristianismo não haveria capitalismo, e sem
este não existiriam as liberdades individuais e a exaltação do indivíduo que
conseguimos, a duras penas, construir. A liberdade consiste precisamente
nisso, na liberdade individual, diante do Estado, da Igreja e de qualquer
poder que se opõe à afirmação individual. Eco esqueceu de dizer também que os
intelectuais de esquerda perderam o bonde em 11 de setembro porque
continuaram a ver fantasmas em lugar de fatos, a falar mal do capitalismo e
da globalização, quando na verdade deveriam enxergar que o perigo estava
chegando no lombo dos camelos. O autor finaliza o texto
com uma inversão total do que escreveu. O tempo todo ele mostra como os
engajados quebraram a cara e perderam o timing.
No final, todavia, afirma: "Os mais sérios pensadores da Tradição...
sempre se voltaram, mais do que para ritos e mitos
dos povos primitivos ou para a lição budista, para o próprio islã, como fonte
ainda atual de espiritualidade alternativa. Sempre estiveram ali a nos
lembrar que não somos superiores, mas, sim, diminuídos pela ideologia do
progresso, e que devemos ir procurar a verdade entre os místicos sufis ou entre os devixes
dançantes". Ora, a Tradição consiste precisamente na defesa da
Tradição, contra as concorrentes alternativas. Quem tem cultivado o exótico
são precisamente os esquerdistas, que fizeram de elementos religiosos
estranhos e exóticos instrumentos de propaganda para destruir a moral vigente
e enfraquecer as forças da ordem. Essa afirmação é absolutamente falsa, como
também é falsa a conclusão que ele tirou: "Nesse sentido, na
direita está se abrindo uma curiosa rachadura" Deus meu, rachada e desorientada
está a esquerda em todo o mundo. É patético ver, por
exemplo, Tony Blair como mensageiro da guerra,
sabendo que ele tem como eleitores precisamente as hordas esquerdistas do
lema paz e amor e todos os simpatizantes orientalistas, que acreditam
que as grandes verdades reveladas estão nas civilizações atrasadas. A
rachadura é na esquerda, que poderá inclusive encolher formidavelmente, até
porque os tempos não serão tolerantes nem com a dubiedade, nem com a tibieza
e nem com a mentira. É o tempo de afirmação da Verdade indelével e ela toda
está contida em nosso Livro. |
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