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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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AS PALAVRAS DO PAPA 07 de julho de 2009 Li com
tristeza a nova encíclica do Papa Bento XVI (Caritas in Veritate) por dois
motivos principais. Primeiro, porque eu esperava uma palavra nova sobre os tremendos acontecimentos dos nossos tempos,
e não falo apenas da crise econômica tão saliente que vivemos. E, segundo,
pelas concessões que o Santo Padre fez às teses mais caras do esquerdismo
mundial. Nunca esperei ver a assinatura do Cardeal Ratzinger
em um documento que desse tanta ênfase ao politicamente correto e ao
economicamente errado. Certo, o
Papa é o Vigário de Cristo, não o ministro da Economia nomeado por Deus na terra.
Por isso mesmo um documento de valor teológico não deveria se esparramar de
forma descuidada pela temática econômica, sociológica e política como está
feito. Já no endereçamento aparece a palavra “desenvolvimento”, que me levou
a pensar que o Papa trataria do caráter espiritual do termo. O texto usou a
palavra, isso sim, na expressão consagrada pela literatura econômica desenvolvimentista
que grassou mundo a partir de meados do século passado. Esses autores foram verdadeiros
engenheiros sociais que quiseram fazer do Estado a
alavanca para incrementar o crescimento econômico artificial. Associado a
esse desenvolvimentismo vemos, no texto, o uso de propostas como a reforma agrária, algo não apenas
anacrônico em termos econômicos, visto que a economia agrícola é aquela que
mais se tem beneficiado de economias de escala e de novas e sofisticadas tecnologias,
para o bem de toda a humanidade. Bem sabemos que no Brasil essa proposta está
associada a uma visão revolucionária, que tem como fim último destruir a ordem
como está, pondo no seu lugar alguma forma de socialismo. Onde se prega a
reforma agrária prega-se a violência da revolução social. Para meu
grande espanto foi usado no texto a expressão “justiça social”, esse pleonasmo que está na boca de todos os partidos
de esquerda do mundo. Não creio que Sua Santidade ignore isso. Por que o fez?
Não faço idéia. Sei que a burocracia da Igreja, especialmente aquela
fortalecida pelo Concílio Vaticano II, inoculou no texto esse vírus trágico
da verborragia dos militantes políticos que fazem do Foro Social Mundial sua
caixa de ressonância. Eu queria
ouvir uma palavra sobre a crise econômica mundial, uma análise justa e
factual do que se passa. E a crise mundial é, sobretudo, a crise nos EUA. Por
exemplo, a bancarrota da General Motors Corporation, fato de majoritária importância. Qual a
grande lição a se tirar daqui? Que uma empresa capitalista não pode ficar sem
um dono controlador ou mesmo uma família de controladores. A família é ela
mesma a célula principal da economia, é o elemento estruturador da ordem. A
GM naufragou porque seus novos donos são os sindicalistas que lhe impuseram
condições de remuneração e benefícios incompatíveis com a economia de
mercado, mostrando o quão nefastos podem vir a ser os
sindicatos de trabalhadores, que desconectam os direitos das obrigações e
ignoram que o consumidor não está disposto a pagar privilégios de ninguém,
nem mesmo de sindicalistas. Essa lição deveria ter alertado o Papa que, no
entanto, faz o seu oposto no texto, dando endosso incondicional da Igreja
para que os sindicatos ampliem e prevaleçam na sua lógica tradicional. A
primeira grande lição da crise é que a economia deve ser vista pelo ângulo
dos consumidores, e não dos produtores, sejam os acionistas, os executivos ou
os empregados e seus representantes sindicalistas. Da mesma
forma, essa crise mostrou que as organizações do chamado Terceiro Setor são
uma fraude, uma enganação que só servem mesmo para a difusão de valores
contrários à fé cristã. Não há caminho econômico alternativo ao capitalismo,
ao império da propriedade privada e das relações do livre mercado. Essa crise
chegou para colocar um ponto final na aventura dos
engenheiros sociais que quiseram criar uma sociedade artificialmente ”justa”,
à custa da prática da injustiça com aqueles que produzem valor. Justiça
particularizada é a injustiça ela mesma. Mas o que
verdadeiramente me deixou insatisfeito foi a exortação
a uma temível forma de governo mundial patrocinada pela ONU. Nas suas
palavras: “Perante o crescimento
incessante da interdependência mundial, sente-se imenso — mesmo no meio de
uma recessão igualmente mundial — a urgência de uma reforma quer da Organização das Nações Unidas quer
da arquitectura económica e
financeira internacional, para que seja possível uma real
concretização do conceito de família de nações”. De igual modo sente-se a
urgência de encontrar formas inovadoras para actuar
o princípio da responsabilidade de
proteger e para atribuir também às nações mais pobres uma voz eficaz
nas decisões comuns. Isto revela-se necessário
precisamente no âmbito de um ordenamento político, jurídico e económico que incremente e guie a colaboração
internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos. Para o
governo da economia mundial, para sanar as economias
atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e em consequência maiores desequilíbrios, para realizar um
oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para
garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos
migratórios urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial, delineada já pelo meu
predecessor, o Beato João XXIII.” Penso que
o Papa aqui caiu em uma armadilha política sem retorno. Engajou a Igreja de
Cristo em um projeto suicida. Uma forma de governo mundial, qualquer que seja
ela, só existirá em prejuízo da pessoa humana, apartando os poderes públicos
dos indivíduos em carne e osso. A grande falácia é que a crise poderia ser
superada por uma forma de governo assim. Ao contrário. A crise aconteceu
precisamente porque os governos nacionais se agigantaram na ânsia fáustica e blasfema de abolir o risco existencial, contra
a vontade expressa de Deus. Nenhum governo tem esse poder, menos ainda uma
governo mundial, e o Homem precisa ganhar o pão de cada dia com o suor de seu
próprio rosto. Os governos atuais, nos quatros cantos da terra, nada mais
fazem do que pilhar seus povos em grande escala, conforme podemos medir pelo
tamanho da carga tributária que tem sido cobrada, gerando privilégios nauseantes
para os detentores do poder político e seus associados, em prejuízo dos
pagadores de impostos. Não há aqui qualquer caridade, qualquer coisa que
remeta a Deus. Há mesmo é o reino da injustiça. A
experiência da União Européia, tão próxima ao Vaticano, ensina-nos o
significado de um governo central que se sobrepõe a outros. Criou-se uma
burocracia cara e parasita sobreposta às burocracias nacionais, pouco
acrescentando de bem-estar na vida das pessoas, mas obrigando a uma
significativa elevação de custos. Uma experiência dessas, levada à escala
mundial, será o primeiro passo para a instalação de uma ditadura mundial, um
colosso que só pode emergir em prejuízo dos valores cristãos, da própria
liberdade que é da essência do cristianismo. Estamos aqui diante da
realização inusitada da Terceira Tentação de Cristo. Ora, o próprio Cristo a
rejeitou e sabia por que o fazia: o monstro Estatal tem sido, desde sempre o
instrumento para a ação nefasta dos inimigos do Povo de Deus. |
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