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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A FONTE DA ORDEM 18 de fevereiro
de 2010 O magnífico artigo de Olavo de Carvalho (Liberdade e ordem),
publicado originalmente no jornal Diário do Comércio, de São Paulo, colocou
questões substantivas para debate. Um olhar na história da filosofia política
no Ocidente nos últimos cinco séculos vai mostrar que algo de muito errado na
esfera política andou acontecendo. Não apenas pelas múltiplas rebeliões e
morticínios, mas sobretudo pelo duelo de idéias que
ocorreu e continua a ocorrer. Novas idéias erradas substituíram as antigas
idéias certas. Desde a Revolução Francesa podemos dizer que as forças da
ordem, o Estado, tornaram-se o inimigo de morte de seus próprios cidadãos,
pois o Estado foi tomado por uma elite jacobina empenhada em modelar com seus
preconceitos a alma humana. O Estado-predador, o grande Leviatã, o devorador
de homens teve no século XX um apogeu, que poderá ser superado no século em
curso se a humanidade não construir defesas contra sua capacidade de
destruição. O duelo entre liberais e conservadores está na agenda porque duas
visões da história e da filosofia política aqui se enfrentam para representar
a verdade da alma. Onde estará a verdade? Olavo bem apontou uma das
fragilidades teóricas exponenciais dos liberais, que elegeram, desde Hobbes,
a liberdade como princípio. Com Locke será eleita a propriedade. O que se viu
é que as boas intenções dos liberais naufragaram no decurso histórico. O
século XX foi o coveiro do liberalismo clássico não apenas no âmbito da
condução dos negócios do Estado, mas também no plano teórico. As idéias de
Locke hoje não passam de reminiscências nas cabeças de uns pouco intelectuais
que estão situados bem longe do poder, sem chance de voltar a exercê-lo. Mesmo
a liberdade econômica é hoje bandeira de economistas influentes que têm em Bentham seu inspirador, e não em Locke, como é exemplo a
Escola de Chicago e seu consequencialismo ético. A fraqueza teórica dos liberais, mostrada pelo artigo do Olavo, é
a causa do seu fracasso histórico na política. Devo dizer que lamento esse
fracasso, porque há muito de verdade na filosofia política liberal,
especialmente no que concerne à condução das questões econômicas e no cultivo
da liberdade como valor em si. São duas descobertas que engrandeceram o viver
humano. Mas o ponto central está em como é constituída a ordem, o fator
cronológico e lógico que precede a criação do campo da liberdade política.
Olavo escreveu que “...essa
liberdade é apenas a margem de manobra deixada ao cidadão dentro da rede de
relações determinada por uma ordem jurídica estabelecida. O princípio aí fundante é, pois, o de ‘ordem’, não o de “liberdade”. Isso
basta para demonstrar que a ‘liberdade’ não é jamais um princípio, mas apenas
a decorrência mais ou menos acidental da aplicação de um princípio totalmente
diverso”. Essa lição é a mesma que nos deu Michel Villey
no seu grande livro FORMAÇÃO DO PENSAMENTO JURÍDICO MODERNO: “Mas o que é o direito, senão, sobretudo, o
pensamento vivo de uma elite organizadora sobre o que deve constituir a ordem?”A questão nos remete diretamente ao problema do direito e
do direito natural. Não sem razão Leo Strauss escreveu a obra-prima DIREITO
NATURAL E HISTÓRIA exatamente para mostrar o erro teórico liberal desde o
nascedouro, desde as primeiras linhas da obra de Hobbes. Para ele, o único
antídoto contra os males do totalitarismo é o retorno ao direito natural
clássico. A ordem fundante teria que vir de pessoas
munidas dos princípios de Platão e de Aristóteles, precisamente por sua
superioridade teórica e sua consonância com a verdade da alma. E quais são esses princípios? Quais as fontes da ordem? A lei
natural, acessível ao homem pela verdade revelada e pelo esforço filosófico. Voegelin, ele mesmo autor de uma obra que investigou
precisamente esse ponto (ORDEM E HISTÓRIA), escreveu no livro A NOVA CIÊNCIA
DA POLÍTICA: “A abertura da alma foi um
acontecimento crucial na história da humanidade porque, com a diferenciação da
alma como o sensorium da transcendência, tornaram-se visíveis os padrões
críticos e teóricos para a interpretação da existência humana na sociedade, bem como
a fonte de sua autoridade. Quando a alma se abriu para a realidade
transcendente, encontrou uma fonte de ordem superior à da ordem estabelecida da
sociedade, assim como uma verdade em oposição crítica à verdade que a
sociedade atingira através do simbolismo de sua própria auto-interpretação.
Além do mais, a idéia de um Deus universal como medida da alma aberta teve, como corolário
lógico, a idéia de uma comunidade universal da humanidade, além da sociedade
civil, através da participação de todos os homens na medida comum, entendida quer
como o nous aristotélico, quer como o logos estóico ou cristão. O impacto de tais
descobertas pode muito bem toldar o fato de que a nova clareza com respeito à
estrutura da realidade não alterava essa estrutura”. Os três autores citados tinham os olhos voltados para as
devastadoras experiências totalitárias da primeira metade do século XX.
Sabiam que elas podem se repetir, com virulência ainda mais espetacular, em face
dos meios de morte à disposição dos Estados. Se uma elite capaz de construir
uma ordem justa e segura não estiver no comando dos botões do apocalipse a
coisa pode engrossar. Estamos vendo o desenrolar da crise econômica mundial,
o esforço do Irã para ter artefatos atômicos, a emergência da China como
potência global, ela mesma formada por uma pseudo elite
jacobina, completamente hermética à verdade da alma. Se os melhores não
estiverem no poder, certamente lá estarão os piores, fato do qual nosso país
hoje pode dar um exemplo antológico ao mundo. A discussão proposta pelo Olavo de Carvalho de forma nenhuma pode ser desconsiderada, assim como a lição nela contida. É desse duelo teórico que depende a continuidade da civilização. |
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