NIVALDO
CORDEIRO: um espectador engajado
AS DUAS REALIDADES
01/05/2008
“O pior cego é aquele
que não quer ver”.
Ditado popular brasileiro.
A obra de
Eric Voegelin, toda ela, é essencial para a
compreensão da realidade histórica e política e fornece instrumentos sem os
quais o que se passa no Brasil não pode ser compreendido. Um deles, que quero
explorar aqui, é aquele que demonstra a gênese dos movimentos gnósticos e os perigos inerentes a eles, que é a análise do
abandono da realidade como ela é e a assunção de uma segunda realidade como
substituta. Este simulacro passa a ser o referencial para a tomada de decisões
individuais e coletivas que levam fatalmente ao desastre. Indivíduos
perfeitamente estúpidos tomam as funções de estadistas e passam a reger o
Estado. E não estou falando apenas de Lula, não. A assunção da segunda realidade
como substituta do real Voegelin chamou de “gnose”. Terá
sido essa a sua imorredoura contribuição à filosofia política. Citarei abaixo
alguns trechos interessantes do livro HITLER E OS ALEMÃES, já referido em textos
anteriores, para resgatar a discussão:
"Lidamos com questões estritamente empíricas:
quando o homem, como tal, foi descoberto? E o que ele descobriu ser? Essas
descobertas aconteceram respectivamente nas sociedades helênica
e israelita. Na sociedade helênica, o homem era experienciado
pelos filósofos do período clássico como um ser que é constituído pelo noûs, pela razão. Na sociedade israelita, o homem é experienciado como o ser a quem Deus dirige a palavra, ou
seja, como um ser pneumático que está aberto à palavra de Deus. A razão e o
espírito são os dois modos de constituição do homem, os quais foram
generalizados como a idéia de homem. Não formos além desses conteúdos da idéia
de homem, ou seja, sua constituição pela razão e pelo espírito. Isso parece ser
o descobrimento definitivo. O que significa existir constituído pela razão e
pelo espírito? As experiências da razão e do espírito concordam no ponto em que
o homem experiencia a si mesmo como um ser que não
existe por si mesmo. Ele existe num mundo já dado. Este mundo em si existe em
razão de um mistério, e o nome deste mistério, da causa desse ser no mundo, do
qual o homem é um componente, é chamado de 'Deus'. Então, dependência da
existência (Dasein) na causação divina da existência
(Existenz) permanece até hoje a pergunta básica da
Filosofia”. (Página
117)
Veja,
caro leitor, que isso é aceitar a realidade como nos é dada. Por exemplo, e
quero abaixo explorar a questão com base numa declaração dada ontem pelo vice-presidente
da República, José Alencar, a lei da escassez, razão de ser da ciência
econômica, é parte integrante dessa realidade imutável que não pode ser
superada por artifícios mágicos. Todo o discurso da gnose esquerdista é uma
rebelião do Homem contra Deus, na medida em que prega a possibilidade de eliminação
dessa condição divina instituidora da realidade. “Comerás o pão com o suor do seu rosto” é um descortino do real. A
única alternativa ao trabalho é o roubo, seja diretamente, seja
institucionalmente, via tributação do Estado. Os esquerdistas, portanto, ao
prometerem algo impossível como a eliminação da lei da
escassez, mentem. Ao tentarem pôr em prática seu programa contra a
natureza e contra a realidade, perpetram as mais nefandas injustiças e criam atalhos para a construção de sofrimentos indizíveis e
agravamento da escassez além daquela normal
e superável pelo trabalho de cada um. A reengenharia da realidade contra
Deus é o inferno na terra. Continua Voegelin:
“Em ambos os modos, pela procura do divino, o
amoroso sair de nós mesmos em direção ao divino na experiência filosófica e o
encontro amoroso através da palavra na experiência pneumática, o homem
participa do divino. Os conceitos são methexis, em grego, e participatio, em latim, participação no divino. Já que o
homem participa do divino, ou seja, já que ele pode experimentá-lo, o homem é 'teomórfico', no sentido grego, ou a imagem de Deus, a imago
Dei, na esfera pneumática. A
dignidade específica do homem é baseada nisto, em sua natureza teomórfica, de forma e imagem de Deus. Este é um complexo
básico com que temos de começar, a fim de investigar a defecção desse complexo.
A defecção, em seu âmago, sempre toma a forma de uma perda e dignidade. A perda
de dignidade vem através da desdivinização do homem.
Mas já que é precisamente essa participação no divino, esse ser teomórfico, que constitui essencialmente o homem, a desdivinização é sempre seguida de uma desumanização.
Não se pode desdivinizar sem se desumanizar - com
todas as conseqüências de uma desumanização com que
ainda temos que lidar. Tal desdivinização é a
conseqüência de um fechamento deliberado de si mesmo para o divino, tanto para
o racionalmente divino como para o pneumaticamente divino, ou seja, o divino
filosófico ou revelado. Em ambos os casos, ocorre uma
perda da realidade, já que esse ser divino, esse fundamento do ser, é, na
verdade, a realidade também, e se alguém se fecha a essa realidade, esse alguém
não possui a experiência dessa parte da realidade, essa parte decisiva que
constitui o homem". (Páginas 118/119).
As
palavras-chaves são desdivinização
e desumanização.
Significam cair na condição animalesca superada na Antiguidade pela religião e
pela filosofia. A perda de contato com o divino é a perda de contato da
realidade como está dada. A revolta contra o Criador redunda na regressão civilizacional, anterior ao século IV a.C. É a tragédia da
modernidade que os homens abracem a estupidez
radical em matéria política, nos movimentos redentoristas à moda do
comunismo e do fascismo/nazismo, que acabam sempre em banho de sangue e em
sofrimentos infindos. Podemos ver aqui na América do Sul um caso em estado
avançado de putrefação pneumopatológica, que é a
Venezuela. Um país rico artificialmente empobrecido pela demência do povo
tomado pela estupidez radical, conduzido por um tirano insensato que representa
existencialmente a maioria estupidificada. O desastre econômico será sempre a
porta de entrada na desintegração irracional, cuja saída quase sempre se dá
pela guerra. Vejamos mais um trecho do livro:
“O homem continua homem em toda a realidade,
mesmo quando perde a razão e o espírito como aquelas
partes da realidade que o ajudam a ordenar-lhe a existência; ele não cessa de
ser homem. E não há nenhuma razão, como ainda se faz tão frequentemente, em
acusar Hitler de desumanidade; foi uma humanidade absoluta em forma humana,
porém a humanidade notavelmente desordenada e doente, uma humanidade pneumopatológica. Tal imagem do homem da realidade,
portanto, embora falha, não perdeu a forma de realidade; ou seja, ele ainda é
um homem, com todo direito de fazer declarações de ordem, mesmo quando a força
ordenadora de orientação para o ser divino se perdeu – mesmo assim – a menos
que ele coloque uma pseudo-ordem no lugar da ordem real. Então, a realidade e a
experiência da realidade são substitídas por uma
falsa imagem da realidade. O homem, assim, não vive mais na realidade, mas em
uma falsa imagem da realidade, que diz, no entanto, ser a realidade genuína.
Há, então, se essa condição pneumopatológica ocorreu,
duas realidades: a primeira realidade, onde o homem normalmente ordenado vive,
e a segunda realidade, em que o homem pneumopatológicamente
doente agora vive e que, portanto, entra em constante conflito com a primeira
realidade”. (Páginas 145/146).
Essa é a
questão teórica relevante que resgato para comentar a fala do vice-presidente
José Alencar. Lembrando que o vice-presidente, antes de ser político, é um
empreendedor muito bem sucedido e, pelos critérios habituais, deveria ser
alguém “realista”, imerso na realidade como ela é,
supostamente insuspeito de agir no mundo na “segunda realidade”. Por ter essa
biografia é que o tomo como exemplo acabado da pneumopatologia
que tomou conta da Nação brasileira. Em resumo, nosso problema não é apenas o
PT, o PSOL, o PC do B e todas as gangues partidárias engajadas na revolução
socialista de propósitos homicidas. Eles são apenas o elo
febril da ação gnóstica, a mais delirante. Gente como
José Alencar e integrantes da elite empresarial (como a FIESP) são talvez os agentes
mais perigosos, porque têm dinheiro e poder e legitimam os revolucionários que
conduzem a coletividade para o mergulho no abismo.
Vejamos sua
declaração, dada ontem à Rádio Eldorado e registrada na edição de hoje do Estadão: “Você não
pode achatar o consumo de quem não consome. Não temos de ter medo do
consumo, mas sim, da fome”. Aparentemente uma declaração
banal, mas devemos atentar para o que está dito. Dá a síntese da nossa
tragédia.
Vejamos a
primeira frase: “Você não pode achatar o
consumo de quem não consome”. Um aparente truísmo. Mas quem teria falado em
achatar o consumo de quem não consome? E haverá mesmo alguém que não consome?
Imagino dois tipos de pessoas que nada consomem: os mortos e os ainda não
nascidos. O vice-presidente não se referia a eles, naturalmente, mas aos
viventes. Viventes consomem, por definição. Ele não se deu conta de que falou
uma absurdidade lógica, uma irrealidade que se fez
necessária para fundamentar a segunda afirmação: “Não temos de ter medo do consumo, mas sim, da fome”. Ora, quem tem
medo do consumo? Fome, onde há fome endêmica no Brasil? Irresistível aqui
lembrar as palavras de Jesus, na Primeira Tentação: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”.
Não ouvi a
entrevista e não sei o contexto em que a frase foi proferida. Ela, todavia,
espelha a cegueira radical daqueles empenhados em supor que podem eliminar a
lei da escassez por meio de políticas estatais. Simplesmente não é possível.
Ainda ontem os jornais noticiaram que a inflação está praticamente na faixa dos
dois dígitos e que o país caminha a galope para produzir déficits em conta
corrente no balanço de pagamento. Como essa realidade
foi produzida? Por muitos erros na condução dos negócios do Estado e do país,
mas dois pontos são fundamentais para a sua explicação: 1- A frouxidão na
política salarial, que tem elevado os salários acima da produtividade e 2- A prodigalidade nos gastos públicos. A lei da escassez se
manifesta de muitas formas e uma delas é o país consumir mais do que a sua
capacidade de produzir. A absorção além da produção potencial leva a crises no balanço de pagamentos e *obrigam* o Estado a
voltar ao princípio de realidade. Não há como enganar a lei da escassez, exceto
no discurso dos populistas.
A crise
econômica vai se manifestar brevemente e aí passaremos à fase aguda do processo
revolucionário. Aí gente como José de Alencar perderá a sua serventia de
“companheiro de viagem” dos verdadeiros agentes da revolução. Não imagino Lula
promulgando leis de redução de salários para ajustar o Brasil ao mundo real. Aí
serão eleitos os culpados de sempre: os empresários, os EUA, os fantasmas de
sempre do imaginário socialista. Como os agentes revolucionários controlam o
Estado e as forças de repressão, então chegaremos ao estágio final, da
violência aberta contra os supostos inimigos dos poderosos do dia. Haverá choro
e ranger de dentes.
PS. O grau
de investimento obtido pelo país só mostra a cegueira dos analistas. Tiraram
uma fotografia do passado, não olharam o futuro.