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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A SABATINA DE SARNEY 27/08/2008 A edição
de hoje a Folha de São Paulo traz o relato da sabatina feita com o
ex-presidente José Sarney. Notável, não pelo homem, vez que Sarney encarna o
que há de mais desprezível na política brasileira, mas pelas idéias expostas.
Sarney tem o dom de verbalizar muito bem o que pensa sobre as coisas da
política e não tem o menor pejo de expô-las na dimensão da sua real
mediocridade. Sarney é
uma espécie de último elo entre os políticos da velha estirpe, pré-1964, e a
nova geração de revolucionários que chegaram à Esplanada dos Ministérios. Tem
todos os vícios da antiga elite política e todos os da nova: o oportunismo, o
cinismo, a visão paroquial do poder, o descompromisso com os interesses
gerais da nação, a incapacidade de colocar sua figura política, em gesto de
grandeza, contra a maré montante do comunismo. Nunca foi oposição, exceto no
momento em que pôde ser o pivô do impeachment de Fernando Collor. Tão sem fibra é o homem do Maranhão que não
tem palavra para confrontar José Serra, político que colocou sua filha, então
candidata à Presidência da República, em situação vexaminosa. Isso nem é
sabedoria política e nem é habilidade. É pura covardia, uma covardia que lhe
tem servido para escalar o poder e até chegar à Presidência da República.
Covardia de resultados, diria alguém mais cínico. É a covardia transformada
no seu oposto, numa virtude, aos olhos dos desatentos e dos alpinistas
sociais. É um exemplo acabado da inversão dos valores que estamos a ver em
nosso país. Se há um
sujeito histórico sobre o qual pesa a responsabilidade pelos desatinos da
nação brasileira, esse é José Sarney. Nunca soube dizer não, jamais quis ser
de oposição, não tem código de conduta exceto dizer amém aos poderosos do
dia. É capaz de se compor até com o capeta, desde que seus interesses miúdos
sejam preservados. Em suma, é um homem desprovido de princípios. As novas
lideranças revolucionárias encabeçadas pelo PT – assim como toda a cúpula da
social-democracia representada pelo PSDB – dedicam-lhe o maior desprezo, mas
o usam quando lhes convém. Fez assim FHC, faz assim Lula. Em nome da suposta
“governabilidade” Sarney sempre se dispôs à mais
abjeta subserviência para manter as suas áreas de influência no plano
Federal. Um caso notável de um corpo desprovido de alma. Na
sabatina da Folha, como não poderia deixar de ser, Sarney derrama elogios à
figura do presidente Lula. Afirmou: “-Chegamos
no fim do século com um operário no poder. Isso é
uma coisa importantíssima". Importantíssima por quê? Só se for por
servir de cobaia de laboratório para cientistas políticos. Isso mesmo, Lula,
como figura histórica, tem a importância de uma cobaia, pois Lula encarna
tudo que de nocivo a nossa história produziu em matéria política. É ele
sinônimo do abaixamento do nível civilizacional em que estamos metidos,
descenso que está a destruir não apenas os valores, mas o próprio Estado.
Exemplos? A desordem nas despesas públicas, exorbitância na tributação,
desastre na segurança pública, no sucateamento das Forças Armadas, nas
besteiras em matéria de política internacional. Nosso ridículo papel nas
negociações de Doha e o nosso mambembe papel no MERCOSUL, este um legado
deprimente de Sarney, são exemplos acabados da destruição de nosso papel como
nação. Tudo se conecta, podemos dizer com Platão. A coisa
importantíssima não é Lula ter, alguma vez na vida, sido operário, mas sim, é
que um homem tremendamente desqualificado tenha chegado a primeiro mandatário
da nação. Uma catástrofe de proporções inimagináveis se Sarney não tivesse
virado presidente. É Sarney o ancestral de Lula, mais do que o elo histórico
com o antigo. Em gratidão o PT deveria mandar lhe fazer um busto e colocá-lo
com honra à porta de seu diretório central. É seu maior cabo eleitoral. Sarney,
todavia, tem razão ao dizer que Lula "tem base profunda, raiz mais profunda". Certamente essa
profundidade não tem forma positiva, é a profundidade dos buracos, se quiser
dos túmulos. Essa profundidade não é solidez, nem ligação com a tradição e
nem muito menos com as coisas da filosofia política, que Lula é
intelectualmente mais raso que uma ameba. Lula é profundo no sentido de que é
o homem-massa que brotou das profundezas das multidões, não como um líder,
mas como um igual que tem o mandato de fazer os
caprichos bestiais das massas. A história mostra o perigo dessa profundidade
infernal, abissal, devoradora. Se Sarney soubesse o que disse passaria
correndo a fazer parte da oposição a Lula. Mas não sabe, não tem noção de
perigo e não é um estadista. É a covardia encarnada. É apenas um político
fisiológico como outro qualquer, com a diferença de que levou a fisiologia ao
paroxismo. É essa sua fórmula de sucesso. Escrevendo
sobre Mirabeau, político da época da Revolução Francesa, Ortega y Gasset lembrou-nos uma frase de Joseph Chénier, que queria retirar os restos mortais de Mirabeau
do Panteão dos Grandes Homens da França. Sua frase: “Considerando que não há grande homem sem virtude”. Há alguma
virtude em Lula? Em Sarney? Nenhuma. Não esperemos que morram para serem
removidos do panteão de nossos grandes homens, pois senão será tarde demais. |
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