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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ARMADILHAS
DA LEI 22 de setembro de 2009 Não posso
deixar de comentar o artigo do Rodrigo Constantino, velho amigo de debates intermináveis
na Rede Liberal (Os guardiões da lei). Rodrigo e eu somos ambos defensores
da liberdade, cada um a seu modo, e nesse artigo
está explicitado um dos motivos do dissenso recíproco que cultivamos desde
sempre. Falta a Rodrigo uma cultura jurídica melhor e uma mais clara
compreensão da história da filosofia política. Mas o equívoco do Constantino
é também o equívoco da maioria daqueles que abraçam o argumento liberal sem
estudá-lo desde a origem. Perdeu-se a perspectiva histórica e, em isso
acontecendo, o impulso em prol da luta pelas liberdades políticas passou a
apoiar-se mais na emoção do que na razão, mais na intuição do que no saber
propriamente dito. Leo Strauss, no magnífico livro DIREITO NATURAL E HISTÓRIA, agora
traduzido em Portugal pela pena competente de Miguel Morgado
(Edições 70, Lisboa, 2009) mostra os elos da tragédia política da
modernidade, desde o nascimento. Strauss prova, com a sua dialética superior,
que não há como fazer frente à avalanche devastadora de Rousseau (vale dizer,
das idéias igualitária, totalitárias e comunistas, niilistas) que dominaram
desde a Revolução Francesa, sem que se resgate o Direito Natural, o justo por natureza; sem que se
busquem os fundamentos das reais fontes de justiça. Rodrigo
Constantino erra porque se apóia em um autor ele mesmo equivocado, Bastiat. Este autor é bem o exemplo dos filhos literários
de Locke, que não tiveram força intelectual para fazer frente ao coletivismo
inspirado em Rousseau. Esses homens assistiram,
impotentes, à marcha dos jacobinos para a tomada do poder, em todo o mundo.
Na epígrafe do texto de Constantino está o resumo de toda a confusão: “A lei é a justiça”. A afirmação é uma
enorme bobagem filosófica e jurídica, mas a isso se chegou porque desde o
Renascimento os filósofos e juristas caminharam para essa maluquice
quixotesca de identificar a lei positiva com o Direito, com o justo. Rodrigo Constantino amplia esse
erro crasso nos seus textos. Ora, as
fontes do Direito, e aqui Direito equivale a Direito Natural, são mais amplas
que a lei positiva, lição elementar. Desde Platão se investiga, por exemplo,
a Lei Natural, conceito que é também aquele que está nas Tábuas da Lei. Mas a
fonte do justo por natureza envolve
uma visão antropológica. O que é o homem? Para os clássicos, um animal
social, isto é, que naturalmente se insere na cidade. Qual a idéia que emerge
na Renascença? Que existe uma natureza humana nos termos propostos pelos
estóicos e por Cícero, filósofo que fará a simbiose entre Epicuro
e Zenon, cuja obra moldará a modernidade. Para essa nova tradição que se
formou, a fonte do Direito é a razão, logo a lei positiva é elevada à
condição de Lei Natural. Maquiavel, Hobbes e Locke destroem a idéia clássica
do justo por natureza e, ao
fazê-lo, pavimentam o caminho para que os modernos revolucionários cheguem ao
poder. Essa
proposição, depois encampada por Rousseau e seus seguidores, como Marx e
Kant, transformará erroneamente a lei positiva na exclusiva fonte do Direito.
Logo, qualquer preconceito socialista do governante do dia poderá ser
positivado e a lei vigorante, injusta, será forçosamente a fonte da
injustiça. A administração da justiça por sistemas lógico-dedutivos fará o
resto da reengenharia social. É essa a alucinação que preside nossa vida
política cotidiana. As idéias
liberais, desconectadas dos valores cristãos, não têm como reduzir o tamanho
do Estado e não têm como fazer o enfrentamento no campo político, contra os
coletivistas. A história do século XX é a história da derrota liberal nas
urnas. O argumento de Bastiat e de Constantino, por
duelar com os coletivistas no seu próprio campo, já entra derrotado, tanto no
plano das idéias como no plano político. Estamos nos aproximando do paroxismo
desse processo destrutivo com o governo Obama e a
crise mundial em curso. A tragédia virá, nos termos que vimos na primeira
metade do século XX. Rodrigo
Constantino, um ardente lutador da causa da liberdade, usa armas erradas e fracas,
insuficientes. Deveria ler Leo Strauss, deveria ir buscar na tradição os
argumentos sólidos da filosofia para fundamentar o Direito Natural. Deveria
relegar Bastiat ao segundo plano. Estou convencido
de que apenas esse conhecimento superior será capaz de despertar as massas do
torpor soporífero a que foram submetidas pela propaganda socialista,
plenamente vitoriosa no campo político. Mas esse mergulhar na tradição terá
um preço pessoal caro a ele: terá que abandonar tudo aquilo que considera
saber superior. Então verá que autores como Bastiat
não têm a resposta filosófica e política para o drama contemporâneo. Será um
processo doloroso. São as
armadilhas da lei. Compreender que a lei positiva não é fonte do justo é o
primeiro passo para acordar do sonho maligno da modernidade. O encontrar do justo por natureza é o único antídoto
contra a tragédia que se avizinha. Ler Strauss ajuda nesse despertar. Mas
para ler Strauss é preciso ter um forte preparo na história da filosofia.
Exorto meu amigo Rodrigo Constantino a trocar Bastiat
por Leo Strauss. O grande filósofo de Chicago tem muito a nos ensinar. |
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