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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A
RESPONSABILIDADE DA LIDERANÇA 01/07/2008 A leitura da obra de Ortega y Gasset nos leva à irremediável conclusão de que a crise
da modernidade é uma crise moral, que deriva da quebra da hierarquia natural
entre as minorias que ele chamava de egrégias
e as massas. Essas minorias sempre são seletas precisamente porque deram de si mais do que os outros, os homens-massa:
trabalharam mais, estudaram mais, disciplinaram-se mais, tiveram mais coragem
física e espiritual. Isso é que fez delas, sempre, a minoria governante. Ser
egrégio é uma conquista pessoal que não pode ser dada em herança. No campo de
batalha, assim como nos gabinetes de estudo, nos ambientes de trabalho e nos
retiros espirituais é que foram e são forjadas essas minorias compostas de
notáveis. Nos momentos de crise e de
reconstrução as massas, desamparadas e feridas de morte pela própria
estupidez, nem discutiam de quem deveria ser o comando da sociedade. Mas
quando do apogeu civilizacional – e foi assim em
Roma no fim do Império, como penso que estamos agora à escala mundial – as
massas entenderam de ser governo e de colocar sob sua lógica tacanha os
negócios de Estado. Foi o caminho da perdição. Da mesma forma, Ortega
enxergou isso na Espanha, a quem alcunhou de “invertebrada” por não mais dispor dessas minorias seletas, e viu
isso também em toda a Europa no período que precedeu Hitler, a Guerra Civil
Espanhola e s Segunda Guerra Mundial. Foi como um profeta! O domínio das
massas é o domínio do ódio e dos vícios mais abomináveis e, claro, da
violência da ação direta. Não faz muito tempo que tudo
isso se passou, se enxergarmos o arco da História. Mas tudo se repete: de
novo as massas estão a rebelar-se, querem ser governo, querem mandar. A América do Sul tem sido um
laboratório deslumbrante e tenebroso para o observador desse fenômeno sociológico.
Quem será Lula senão o homem-massa no poder, com o mandato expedito de
atender aos apetites da turba? Para dar-lhe pão e circo, como em Roma em
agonia? E Evo Morales? E Hugo Chávez?
E o casal que governa a Argentina? E tutti
quanti? A massa – o homem-massa – é estúpida e cega, cheia de apetites insaciáveis e
completamente desconectada do princípio de realidade. É um ogro que não hesita em devorar-se a si mesmo. Rebela-se
por primeiro contra a lei da escassez; depois contra as normas de
civilização, o tudo pode; por fim,
contra a hierarquia natural e acaba por fazer de seus próprios pares os
governantes, seja pelo voto, seja pelo golpe de Estado, como na Rússia revolucionária,
em Cuba, na China e em toda parte. A massa entende que
civilização é como um fruto da natureza, pode colhê-lo sem precisar
extenuar-se como o fizeram os que a construíram. Não querem mais trabalho e
nem disciplina e nem voz de comando. Não aceitam mais liderança, movem-se qual vermes na carniça do que sobrou da civilização,
até que a carcaça desapareça e os gordos devoradores de ontem feneçam de
inanição amanhã por não saber mais os meios de reconstruir o que foi perdido.
O Senhorito
Satisfeito, aquele sujeito asqueroso que pensa que pode tudo. E, mais ainda, pode
comportar-se como um garoto mimado, que pede qualquer coisa e espera que tudo
lhe seja dado de graça, sem lhe custar qualquer esforço. O interessante é que esse
processo social de degeneração tem dois pólos: a própria expansão das massas
e o encolhimento da minoria seleta, que em algum momento começa a perder terreno.
Os homens notáveis deixam de sê-lo. Pouco a pouco ou acovardam-se diante do
alarido da multidão ou eles próprios tornam-se multidão. Esse acovardamento é
o ferir de morte a civilização. Vemos hoje por toda parte o tal politicamente correto. Não tenha
dúvida, meu caro leitor: onde você perceber que o politicamente correto
prevaleceu ali tem um pedaço necrosado do tecido social. E se as leis todas
já foram tomadas por essa lógica mesquinha, então a barbárie está instalada. Um típico tornar-se multidão
se dá com os especialistas, os cientistas notáveis, os que têm grande conhecimento
em um campo limitado. Um exemplo que recém citei foi o do médico Adib Jatene que, de cardiologista insuperável, quis virar
economista e tributarista. Legou-nos a horrenda CPMF, da qual até hoje ainda
faz dela propaganda, numa manifestação obstinada de cegueira. Quando fala
desse tema percebe-se que não mais está ali o notável cirurgião, mas o
funcionário público que foi durante toda vida, com uma agigantada psicologia
de barnabé. O exemplar acabado do Senhorito Satisfeito. Para fazer frente à maré
montante das massas é preciso erguer essa muralha composta pelos seletos. E
aqui não vai nenhuma estratificação por classes: há homens seletos em todas
as classes, homens que sabem o valor da herança da civilização e a defendem
com unhas e dentes. Mesmo os simples sabem que a tradição judaico-cristã é o
que há de mais valioso e convém protegê-la, por ser o único dique contra a
barbárie. Mesmo eles, os simples, sabem que uma boa educação – não essa
educação para a militância que foi inventada pelo homem-massa – é essencial
para se construir uma sociedade hígida, um tipo de ser que pode receber
adequadamente a qualificação de pessoa,
não um mero indivíduo, um tijolo da multidão. A grande responsabilidade está
com essa elite egrégia, que precisa ser multiplicada em número e se organizar
para enquadrar as massas em rebelião. Isso pode ser feito em toda parte, mas
precisa começar na família e no ambiente de trabalho. Santificar a vida
cotidiana será talvez a fonte mais elementar de energia e o caminho mais
curto para desbaratar as massas desembestadas. Santificá-la é vivê-la
conforme a tradição, à vida cotidiana. Essa simples mudança atitudinal poria os homens-massa no seu lugar. Esse gesto
mínimo, todavia, é o mais difícil. É preciso que cada um, de
posse de consciência e razão, repita a pergunta repreensiva e admoestadora e
categórica do rei de Espanha, Juan Carlos, ao indigente Hugo Chávez, mudo diante da autoridade do nobre homem: “Por que não te calas”? É isso que
devemos perguntar a todos os inimigos da civilização. Uma pergunta desta é
que faz de um homem um líder, um ser egrégio. |
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