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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A QUESTÃO DO MAL NATURAL 19/01/2011 Quando acontecimentos
catastróficos se sucedem ao observador sempre fica a pergunta: por quê? Não há dúvidas de que o
Brasil e particularmente o Rio de Janeiro têm sido vítimas de males naturais
que não são banais. Centenas de mortos em poucos dias é
algo para nos remeter às questões teológicas centrais que tratam do mal. E do
mal moral também: não faz muito tempo vimos que as forças da ordem agiram no
Rio de Janeiro e centenas de homens armados de fuzis e outras armas típicas
de guerras saíram à luz e à vista das câmaras de TV, mal vestidos e mal
calçados, em desabalada carreira. São praticantes do mal cotidiano em larga
escala. Pudemos ver os subterrâneos do mal moral
transbordarem, fazendo fronteira direta com o mal político, pois ao Estado caberia
coibir sua ação. Digo isso
a propósito do artigo publicado na Folha de São Paulo de ontem por João
Pereira Coutinho (“A doença do crime”),
no qual o talentoso jovem lusitano nos lembra a famosa frase de Voltaire, por
ocasião do terremoto de Lisboa, em 1755: “Como
pode Deus permitir a morte de centenas, milhares de inocentes?” A partir
desse mote Voltaire e seus contemporâneos iluministas iniciaram ampla
campanha para desacreditar a Igreja Católica e sua doutrina sobre o mal, fundada na obra de Santo Agostinho. Desde então se
tem buscado explicação “natural” para todos os males e qualquer referência a
Deus e à Providência tem sido ridicularizada pelos ateus e agnósticos como
mera superstição. Voltaire
na verdade praticou um grande sofisma na sua exclamação e só tolos e
desinformados poderiam embarcar na sua retórica. A frase referida é um primor
de enganação. Veja-se que ela afirma uma antropologia que foi rejeitada pelo
mundo cristão desde a origem, sobretudo depois de Santo Agostinho. Memorável
o discurso do santo quando da Queda de Roma, no qual ele demonstrou que nada
havia a lamentar e menos ainda a blasfemar contra Deus por causa daquele
episódio. Veja-se que ao tempo os ainda fortes pagãos quiseram atribuir a tragédia romana ao abandono de seus deuses. Nesse texto
esplêndido Agostinho mostrou que a cidade são as pessoas, não sua
arquitetura, e que o homem, nascido na égide do pecado original, não pode
alegar inocência diante de Deus. Se Alarico saqueou
Roma esta fez por merecer e mais disse: que se houvesse um único justo em
Roma tal fato não teria acontecido. Reforçando
a tese de que todos nós somos culpados diante de Deus Agostinho afirma que,
se até Daniel, o profeta, pediu perdão pelos seus pecados, que diremos nós,
pecadores contumazes. Em última análise, o mal age para castigar os ímpios e
para pôr os justos à prova e quando ele sobrevém atinge a todos
indistintamente. O raciocínio sobre Roma vale para o terremoto de Lisboa e
para as Grandes Guerras. E para as tragédias cariocas também. Agostinho
estava convencido de que nada na história acontecia sem o conhecimento e sem
a aprovação de Deus. O mal, nessa perspectiva, deriva
da perversidade do homem, que abusa da dádiva do livre arbítrio. E também
carrega consigo a mancha do pecado original. Esta tese é a verdadeira
antropologia cristã e quer me parecer que é a expressão da verdade enquanto
tal. O que Voltaire fez foi supor, como de resto
todos os Iluministas, que o homem nasce “bom” e a sociedade é que o desencaminha.
Vão além dessa tese, ao dizer que o homem pode ser aperfeiçoado moralmente,
desde que direcionado para isso pela via do Estado. Daí a fé de que o sistema
jurídico estatal pode criar o homem perfeito neste mundo. Desde então o
esforço nessa direção tem sido total. Não deixa de ser irônico que o Jardim
da Infância na estrutura escolar – o Kindengarten –
tenha sido uma criação nazista mundialmente copiada, no suposto de que,
tirando a criança da família biológica ainda cedo e entregando-a ao Estado,
se estaria construindo um mundo melhor. Não demorou para
que os criadores dessa monstruosidade inaugurarem os fornos crematórios. Enfim, o mal natural é um dado da existência que só prova a
fragilidade do homem e a única coisa sábia a fazer é aceitar os ensinamentos
da tradição. |
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