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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A QUEDA DA SELIC 13 de junho de 2009 Esperei para ver os comentários
dos economistas e editorialisas dos grandes jornais analisando a recente
decisão do COPOM de reduzir em um ponto percentual a taxa básica de juros
para remuneração dos títulos públicos. Teve de tudo e o mais freqüente foi
sublinhar que estamos próximos do limite mínimo para a redução da taxa,
baseado na nota publicada pelo órgão. Menos uma análise, mais uma torcida
para manter os juros altos. Um dos artigos mais
consistentes e interessantes que li foi o de autoria do economista Luiz
Carlos Mendonça de Barros ("Sinais
de mudança na ação do BC"), publicado na Folha de São Paulo. O
economista não perdeu de vista os determinantes estruturais para a redução da
taxa, sejam aqueles de ordem puramente econômica, sejam os de ordem política.
Convém recordar que o autor sublinha que o Banco Central resistiu à pressão
do mercado para um corte menor na taxa, que o mercado sempre escolhe uma
atitude conservadora, ou seja, altista, para a taxa básica de juros.. Aqui vai o único reparo que
faço ao artigo. Na verdade, o tal mercado aqui citado não é o mercado em
geral, mas os operadores do mercado financeiro, basicamente os banqueiros.
Veja, caro leitor, que esse conservadorismo não é algo à toa, nascido de uma
emanação teórica desenhada para proteger os interesses gerais da Nação. Cada
ponto percentual (ou fração) de redução na taxa Selic é perda instantânea de
receita do sistema bancário e dos rentistas detentores dos títulos da dívida pública.
Podemos dizer que é um conservadorismo de resultados o dos banqueiros e seus
acólitos na mídia, se quisermos ser cínicos. O que vimos nas últimas
décadas foi a apropriação da política monetária pelo lobby dos banqueiros e
rentistas, que simplesmente colocou o orçamento público a serviço do
pagamento dos juros da dívida pública, praticando os maiores do planeta até
hoje, mesmo depois dos sucessivos cortes. A definição do nível da taxa de
juros tem ganhadores e perdedores, não é algo neutro. Ganham os rentistas e
os intermediários negociantes de títulos públicos; perdem os pagadores de
impostos. Os rentistas são isoladamente os grandes parasitas do orçamento
público, ao lado dos funcionários públicos e dos aposentados. Estamos diante
de um fenômeno essencial da economia política. O último relatório do Banco
Central (mês de abril), dá conta de que a dívida pública já soma algo da
ordem de R$ 1,4 trilhões. É só fazer conta: um ponto percentual de redução
impõe uma perda bilionária aos detentores da dívida pública. Os pagadores de
impostos e as futuras gerações agradecem a gentileza involuntária dos membros
do COPOM. Dizem que o principal objetivo da política monetária é o controle
da inflação. Pelo histórico dos juros altos, deveríamos ter deflação nos
últimos anos. O fato cristalino é que o segundo objetivo (não necessariamente
em ordem hierárquica) é manter a rentabilidade dos rentistas. Aqui vemos a
maior de todas as contradições: o interesse particularista dos portadores da
dívida pública contra os interesses gerais dos pagadores de impostos. O economista Luiz Carlos
Mendonça de Barros está certo quando afirmou: “Volto a dizer que, nessas novas condições do mercado de câmbio, será
necessário que os juros reais no Brasil convirjam para os de
outros países emergentes sob o risco de uma valorização adicional de nossa
moeda. O Banco Central não deve, como quer o mercado, continuar trabalhando
com um prêmio de cerca de 2% ao ano na taxa Selic por conta de riscos que não
existem mais”. O tempo dos lucros
abusivos no mercado financeiro está chegando ao fim e dificilmente teremos um
repique altista na taxa de juros. Vale lembrar que essa redução
mudará substancialmente as instituições do mercado financeiro, inclusive a da
caderneta de poupança, como sublinhei em artigo. A inundação de liquidez que
o Tesouro dos Estados Unidos tem feito eliminou de vez a razão fundamental da
incerteza econômica do Brasil, que era a dificuldade de financiar os
pagamentos internacionais. A crise cambial desapareceu do horizonte. Não
apenas o Brasil acumulou reservas, como também o dinheiro sobra no mundo, a
taxa de juros ridiculamente baratas. O má fé conservadora do Banco
Central era insustentável. Sou daqueles que imaginam que a taxa atual venha a
ser reduzida ainda mais, a despeito da vontade do tal “mercado”. É aguardar para ver. |
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