29/09/2007
Li pela primeira vez o ASSIM FALOU
ZARATUSTRA aos dezessete anos e desde então leio e releio, não apenas este
livro, mas toda a obra de Nietzsche com freqüência. Do impacto inicial, seguido
de encantamento, passei a ter uma crescente visão crítica do autor e de sua
obra. Uma parada sensacional que fiz foi ler e reler e ler novamente os
SEMINÁRIOS SOBRE ZARATUSTRA, de Jung, que serviram para me esclarecer a lógica interna do livro e mostrar que o mesmo brotou das fontes
abissais da psique, situando a obra dentro da biografia do filósofo
bigodudo e louco. Foi, de fato, uma obra de inspiração. Esta parada, todavia,
retardou-me a dar o passo subseqüente para perceber o que é ZARATUSTRA: um anti-evangelho, uma mensagem do Mal, a imitação mais
maléfica que Satanás poderia fazer do mais belo texto no Novo Testamento, o
Evangelho de João.
O alargamento dessa compreensão
correta da obra de Nietzsche passou pela leitura da magnífica obra de Thomas
Mann, DOUTOR FAUSTO, a biografia romanceada do filósofo na qual ele aparece na
encarnação de um músico que faz pacto com o Diabo para alcançar a glória da
poesia/música. Este livro é comovente e aterrador, pois mostra como um homem
pode se entregar ao Maligno voluntariamente para ter delírios de grandeza e, ao
fazê-lo, praticar a servidão ao Mal em todas as suas dimensões. O livro de Mann
é aterrador porque não tem redenção: a dramática confissão de Adrian Leverkühn ao final não serve para o perdão dos pecados. Deixa de ser
confissão para ser um mero relato das maldades praticadas. Ele então desaparece
sem receber a misericórdia divina, em oposição ao enredo de Fausto, de Goethe,
que redime seu personagem pela graça de Deus e pela intercessão da Virgem
Maria. Thomas Mann aponta corretamente a responsabilidade direta da obra de
Nietzsche sobre os acontecimentos da Alemanha no período nazista. Os pecados de
Leverkühn eram os pecados de toda a gente e a
derrocada pessoal do personagem era o espelho da derrocada de seu país. O
epílogo é a danação sem consolação alguma. E foi assim o epílogo para aquela
geração insensata, que pereceu em grande parte pelas guerras.
Desde o título o
ZARATUSTRA é uma paródia satânica do Evangelho de São João. Podemos ler na
oração sacerdotal de Jesus (uso a tradução da Bíblia de Jerusalém): “Assim falou Jesus” (Jo,
17,1). Não há qualquer originalidade na cópia, como se vê. Mas o ponto é que o
anti-evangelho de Nietzsche perpassa cada uma das falas de Cristo e vai além no seu rosário de maldades e mentiras. Quando fala
do amor ao próximo e da suposta “estultice
dos compassivos”, quando fala da castidade, do casamento, dos sacerdotes,
do Além (trasmundos), da suposta realidade do corpo
em oposição à inexistência do espírito. E, sobretudo, quando fala do Superhomem em substituição ao “homem novo” cristão. Essa paródia demoníaca só poderia acabar no
banho de sangue nazista.
Lamentavelmente a
maior parte dos jovens que lêem o ASSIM FALOU ZARATUSTRA pela primeira vez
nunca leram nada da Bíblia e muito menos o Evangelho de São João, nesses tempos
de incultura bíblica. Se o fizessem poderiam dar-se conta de que estão diante
de uma paródia difamante e se algo resta de beleza na linguagem selvagem de
Nietzsche dá-se pela enorme beleza do texto que é tomado para produzir a
paródia. Todo ZARATUSTRA é uma iniciação
com sinal trocado, um descenso, um mergulho no reino
infernal do qual tristemente Thomas Mann pôde constatar que não há ali
esperança alguma. A esperança é para o cristão, não para aqueles que abraçam
explicitamente a sua negação.
Em todos os escritos
de Nietzsche essa obsessão pela paródia e pela negação do cristianismo está
presente. Seu último livro intitulou-se ECCE HOMO, expressão relatada no
Evangelho de São João quando Pilatos apresenta Jesus,
já convencido de sua inocência, aos sacerdotes que pedem o seu sacrifício. Cristo veio falar do Bom e livrar-nos do
Maligno. Ele escreveu um livro chamado PARA ALÉM DO BEM E DO MAL, como se isso
fosse possível. E um outro chamado O ANTI-CRISTO. E
outro chamado AURORA, um novo começo. Tudo a mais rasteira das mentiras. Sem
esquecer do satânico GENEALOGIA DA MORAL, a inversão
de todos os valores do cristianismo.
Muitos acham que
Nietzsche, ao denunciar o Estado como o novo ídolo, teria algum parentesco com
as idéias de liberdade. Santa ignorância! Se o Estado pode ser um instrumento
maléfico da maior eficácia, pode ser também um elemento de ordem em benefício
do Bem. Se o Estado for administrado pelo Faraó idólatra é um mal, mas se tiver
no comando um homem de Deus, como José do Egito, é um bem. Isso Nietzsche não
poderia aceitar. O Superhomem teria que viver na
anarquia ilhada do atomismo, como se fosse um deus a vagar sobre a Terra, um
caçador de homens em oposição aos pescadores
de almas cristãos. Não há qualquer vestígio de liberdade (ou liberalismo)
em Nietzsche, mas essa obsessão doentia para negar a verdade da Revelação, a
ordem, o que de mais sagrado a humanidade pôde
aprender e acumular durante sua longa jornada desde a origem. É Nietzsche o
Negador na acepção do termo. O Maligno feito homem. Daí seu poder hipnótico
para aqueles que o lêem sem estar revestidos da couraça do Espírito. É um
veneno par a alma.