NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

A PAIXÃO, DE GIBSON

22/03/2004

 

Vi o filme. É belíssimo, indescritível. É como se o diretor tivesse transportado as pinturas renascentistas da Via Sacra para as telas e as tivesse animado. Incomparável.  Emoção do princípio ao fim. Comovi-me às lágrimas, como, de resto, todos os que eu vi no cinema.

 

A idéia de falar o filme em aramaico não poderia ter sido melhor. Acrescentou poesia. Ouvir Jesus falar “Adonai”, Abba, Elohim não poderia ser mais tocante. As falas em latim deram também mais realismo às cenas. Os atores, ainda que desconhecidos em sua maioria, são ótimos. Jim Caviesel encarna o Cristo que está na minha cabeça: forte, rijo, destemido, terno, dono de si, senhor da situação ainda quando experimenta o extremo sofrimento e a mais nefanda humilhação. Gibson não poderia ter escolhido um ator melhor para o papel.

 

Gibson como que se fez um quinto evangelista. Narra com precisão o texto bíblico. Como disse o papa: “É, como foi”. Sem tirar nem pôr. Portanto, não tem cabimento falar que há anti-semitismo na obra. Definitivamente, a acusação não procede. Rejeitar o filme é rejeitar os Evangelhos.

 

Cristo veio viver um drama, fez-se o personagem das profecias. Sabia desde o início o que lhe aguardava. Sobre ele abateu-se toda a covardia, a vileza, a violência, a traição, a indignidade do homem natural. Não foram os judeus que O  mataram, foi toda a humanidade. “Eis o Cordeiro de Deus, eis que tira os pecados do mundo”. Jamais vi cenas de tortura tão cruéis, uma surra tão dura, um ultraje tão completo de um ser. Morrer na cruz, ao final, foi um alívio para o Servo Sofredor. A passagem citada do Livro de Isaias foi muito bem posta pelo diretor: “Verdadeiramente, ele tomou sobre as nossas enfermidades e as nossas dores e levou sobre si; e nós o reputamos por aflito, ferido de Deus e oprimido” (Isaias, 53.4). Ao que acrescento o versículo 7: “Ele foi oprimido, mas não abriu a boca; como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como uma ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca”.

 

A Mãe. Como Maria está lindamente retratada. É também a imagem que dela tenho, uma mulher digna, bela, Mãe bendita, extremosa nos cuidados. Correm lágrimas dos seus olhos, mas percebe-se a paciência e a aceitação do destino do Filho querido. Não há desespero na Mãe, mas conformidade: Bendita entre as mulheres, Maria é a Mãe santíssima de todos nós.

 

A imagem inaugural, com Cristo orando no Horto, é comovente. A tentação do andrógino é uma inovação digna da arte de Mel Gibson. Penso que o Demônio não poderia ser retratado de forma mais apropriada. E a cena final, o instante da ressurreição, é todo o sentido da fé cristã. “Eu venci a morte”.

 

Não posso deixar de sublinhar outra mensagem implícita na Paixão. Cristo viveu um drama previamente escrito pelos profetas, para fazer cumprir o plano de Salvação de Deus. A sua morte também sublinha um fato: é o Estado o executor, a mão que flagela, a mão que crava o corpo à cruz. Sempre me ocorreu que, naquele tempo como hoje, não seria difícil matar alguém a mando. Mas era preciso que toda a cena fosse pública, a mobilização do poder de Estado contra o indivíduo Jesus ficasse caracterizada. A Verdade diante da mentira. O Estado sempre foi o instrumento do Mal, sempre foi o grande assassino. O Filho do Homem teria que padecer sob o seu látego.

 

Como se vê, é a velha história, tantas vezes dita, tantas vezes repetida e tão emocionante. No filme o relato é feito com muita arte. Voltarei para ver de novo.