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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A NOVA
LIDERANÇA (*) 04/02/2008 Não
há dúvidas de que, nos tempos antigos, a aristocracia guerreira era o
segmento social que detinha o poder e conduzia as gentes, tanto na guerra
como no cotidiano. A guerra naqueles tempos era uma realidade presente e
nenhuma geração escapava aos seus grilhões. Guerrear sempre era a rotina e
toda a gente era envolvida no seu imperativo. A aristocracia guerreira
existia para garantir a vida e a liberdade de seu povo. Podemos dizer que nos
tempos medievos essa excelência na condução dos povos, pelos menos na Europa,
ficou por conta da classe sacerdotal. Eram eles os guias, os professores, quem
de fato liderava as coisas do espírito assim como as terrenas, sobrepondo-se
inclusive à aristocracia guerreira, onde mais das vezes seus quadros
superiores eram recrutados. Nos tempos de hoje esses líderes persistem na figura do Executivo, o administrador que é a
figura-chave dos nossos tempos. O administrador herdou boa parte das
responsabilidades: lidera, ensina, sabe fazer e precisa ser o tomador das
grandes decisões na esfera privada. Esse
novo administrador tem, todavia, um desafio colocado para si mesmo: se ele
carrega na bagagem todo o conhecimento técnico do “como fazer” em cada um dos
campos de suas atividades profissionais, mais das vezes fica perdido nos
descaminhos da especialização, inevitável dos tempos de hoje, e assim carece de uma visão de conjunto do contexto social,
político e histórico em que está atuando. Ser parte de um corpo dirigente
impõe responsabilidades éticas e pedagógicas, agora como antes. Lideres têm
que ser exemplo. Tomar decisões envolve não apenas elementos técnicos, sempre
importantes, mas envolve sobretudo o sentido civilizacional. O destino de toda a gente fica traçado
pelas inúmeras decisões que os executivos anônimos tomam no seu dia a dia. Formar
líderes sempre foi o desafio em todos os tempos. Como educar os condutores de
homens, eles mesmos educadores por imperativo profissional? Nosso sistema
educacional não está projetado para suprir essa suprema tarefa. Buscar essa
verdadeira “educação superior” impõe um processo de auto-conhecimento
que mais das vezes é buscado de forma intuitiva e aleatória. Isso explica
porque uma vasta subliteratura de auto-ajuda está sempre como best seller no
ranking do mercado editorial. Os executivos, percebendo a demanda prática do
dia a dia, vão em busca de respostas para seus dilemas, procurando justamente
a água preciosa onde a fonte está mais seca. Livros
de auto-ajuda são uma indigência quase cômica em
comparação com o que é a sofisticada demanda de seus leitores. Os
executivos, sobretudo aqueles que já galgaram os níveis superiores das
organizações empresariais, precisam mesmo é completar sua formação clássica,
justamente o tipo de formação que não ensina “como fazer” as coisas, nem engana seu público com as supostas
fórmulas mágicas de psicólogos motivacionais. Educação clássica é a leitura dos
grandes gênios da humanidade e aqui me refiro especificamente aos ocidentais,
gente como Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, a Bíblia (menos
como interesse religioso e mais como fonte de informação sobre o ser
ocidental). Enfim, um homem (ou mulher) maduro que ocupa posições de alta
responsabilidade se defronta justamente com a necessidade de dialogar com os
grandes cérebros, aqueles que nos legaram o requinte da civilização. Foram
eles que se debruçaram sobre os meandros da alma humana. Essa
educação clássica é necessariamente uma educação literária, a mais
sofisticada. Deve incluir os novos clássicos, como Dante, Goethe,
Shakespeare, Kant, Nietzsche e tutti quanti. Incluir poetas como Fernando Pessoa, Walt
Whitman e Yeats. Do Brasil tem que ler (reler, mais
das vezes, usando os olhos da maturidade) Guimarães Rosa e Machado de Assis. Educação
clássica é a formação dos integrantes do corpo dirigente que deve conduzir as
sociedades democráticas. Com efeito, o sistema de recrutamento e seleção dos
executivos pelo mercado de trabalho é ele mesmo o mais meritocrático
dos modelos. Ninguém chega a postos de comando ao acaso, tem que ter tido
formação, experiência, competência, determinação, liderança. Em algum
momento, todavia, tudo isso se torna insuficiente e o executivo deve se
voltar para esse diálogo com os maiores pensadores de todos os tempos. Não é
possível entender o Estado, a política e os grandes movimentos de massa, que
condicionam em tudo a vida empresarial, se essa formação não for lograda,
ainda que minimamente. Sublinho
aqui o belo trecho do filósofo espanhol José Ortega y Gasset:
“O homem faz ciência como faz paciência
como faz a sua fazenda, – por isso se chama assim, – faz
versos, faz política, negócios, viagens e, muito mais que tudo, o homem faz
ilusão de si mesmo”. Usando a deixa do grande Ortega, penso que é preciso
eliminar as ilusões, compreender verdadeiramente o ser humano na sua
totalidade para que o executivo se torne estratégico,
o grande tomador de decisões que consegue enxergar onde ninguém vê e consegue
se mover no cenário mais adverso. Outros podem errar,
fazer ilusões de si mesmos, mas os maiores líderes não têm esse direito. Seu
erro costuma custar caro: perda de investimentos, empregos, participação no
mercado, mais das vezes a sobrevivência da própria empresa fica em jogo se
ele errar. Para não se iludir precisa ensimesmar-se e buscar o tesouro
cultural do Ocidente. Em
resumo, os executivos precisam abandonar a literatura rasteira de auto-ajuda
e absorver o verdadeiro conhecimento que está contido nos grandes autores
universais. E hoje essa tarefa deixou de ser tão difícil, pois não é
imprescindível o domínio de línguas mortas e mesmo de línguas estrangeiras
exóticas. Tudo que não estiver em português estará certamente em inglês,
idioma corrente entre os executivos. Então o acesso está fácil, mais das
vezes por simples download
de arquivos magnéticos. Os textos e as informações estão ao alcance da mão. O
que é necessário é a disposições de entabular o diálogo com esses gigantes.
No começo parecerá difícil. Depois das primeiras leituras cada um descobrirá
a maneira e o método de navegar em meio ao mar de preciosidades que irá
descobrir. E o fim dessa viagem intelectual não acaba antes da vida
biológica. Ao fim e ao cabo o que queremos mesmo são as respostas para as
grandes questões da existência. (*) Publicado na edição de
hoje do jornal Valor Econômico, sob o título “Como se dá a formação de uma
elite empresarial”. |
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