|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
ALUCINAÇÃO E
FARSA 07/08/2008 O caro leitor que me tem
acompanhado sabe que, nos últimos artigos, tenho argumentado sobre o estado
de alucinação em que se encontra a política – e por decorrência a
Administração Pública – no Brasil. Vimos que autores como Ortega y Gasset e Voegelin têm a
resposta teórica aos problemas existenciais que estamos a viver. De fato, a
situação brasileira atual não é original, ela se repete como outras inúmeras
dos últimos dois séculos. Onde alguma forma de socialismo foi implantada a
alucinação tomou o lugar da realidade, como na ex-URSS e na Alemanha de
Hitler, para ficarmos apenas nesses casos mais emblemáticos. Essencialmente podemos dizer
que no Brasil também temos que registrar a rebelião das massas, vista e
estudada por Ortega, e também a situação de alienação política, relatada por Voegelin. Uma situação sonambúlica tomou conta do nosso
país, de sorte que toda a classe dirigente move-se dentro de um “como se assim fosse”, uma irrealidade substituta do real. Um
exemplo bastante acabado dessa situação está nas análises e nas propostas
para o enfrentamento da questão educacional. É correto dizer que existe um
elemento de ligação entre a má remuneração do professorado das escolas
públicas e a qualidade de ensino? Sim, mas esta questão esconde outras, muito
mais graves e de solução muito mais difícil. Quando um líder político propõe,
de pronto, uma elevação geral dos salários dos professores sem aprofundar o
diagnóstico está na verdade produzindo uma falsa solução, que deveria vir por
último, e não por primeiro, como medida saneadora da situação do ensino
público. A primeira causa da má
qualidade do ensino está na má qualidade dos professores, algo acaciano. Os
alunos não podem ser responsabilizados pela falta, seja de vocação, seja de
treinamento e mesmo de qualificação de seus mestres. Mais das vezes vemos
faltar até mestres das cadeiras relativas às ciências exatas, de sorte que a
imprensa tem noticiado a esdrúxula situação de alunos diplomados no ensino
médio sem ter tido a devida carga horária de matemática, biologia, física e
química. A indigência intelectual de
parte considerável do professorado não pode ser negligenciada, pois o fato contribui
para a perpetuação da situação. Aliado ao regime de servidor público dos
professores tem-se a construção de uma estabilidade no emprego incompatível
com os interesses dos alunos. Tenha vocação ou não, tenha competência ou não,
o professor da rede pública continua no seu posto até a morte natural ou a
aposentadoria. Ora, sem uma porta de saída para os incompetentes a elevação
dos salários apenas irá contribuir para a perpetuação da situação indesejada.
Então a discussão precisa começar sobre aquilo que compete ao Estado fazer:
se produzir os meios para que alunos carentes possam ter boas escolas ou se administrar
uma gigantesca corporação de ofício, cheia de vícios, e um vasto patrimônio
que são as edificações mobiliadas que servem de escolas. Deve o Estado
privilegiar o que é meio ou o que é fim? Pareceria muito mais racional
privatizar esse vasto patrimônio e, na esteira, mudar o regime de
assalariamento da massa de professores, eliminando a indesejável estabilidade
no emprego que retém funcionários públicos tornados
professores. Aqui teríamos, de uma tacada só,
a maximização da eficiência econômica e a eliminação dos falsos mestres, os
pobremente vocacionados ou mal treinados para a função, e sua substituição
por gente talentosa. Em troca, o Estado proveria para as futuras escolas
privatizadas vouchers para os alunos carentes, em
princípio toda população que hoje constitui a clientela do ensino público.
Bem sabemos que aqueles que podem atualmente não matriculam seus filhos nas
escolas públicas de ensino médio e fundamental. Outra medida preliminar da
maior importância é criar uma estrutura de treinamento e reciclagem dos
professores, de modo a mudar o foco que se tem hoje. E qual é este? A
priorização da militância política em detrimento da formação para a
maturidade intelectual, que enseja a ampliação dos horizontes dos professores.
Praticamente todo o professorado hoje se tornou massa de manobra política de
sindicalistas e militantes revolucionários, transformando-se no vetor de
transmissão da doença revolucionária. O compromisso dos professores deixou de
ser a educação para ser o adestramento para uma insólita “transformação” social. São formadores
de militantes. Uma educação humanista de
profundidade é o antídoto necessário para esse nefasto viés revolucionário
que hoje o professorado carrega. O amadurecimento intelectual dos mestres
ensejaria uma imediata melhoria da relação ensino/aprendizado. A porta de
saída aberta com a mudança no regime jurídico de contratação dos professores
produziria um verdadeiro milagre educacional. O que podemos concluir é que
as idéias políticas alucinadas, de viés socialista, só podem produzir
soluções farsescas para a questão educacional. Elevar o salário dessa massa
de funcionários públicos tornados professores significa meramente o reforço do
status quo.
Qualquer observador honesto da situação educacional brasileira sabe disso. A
proposta é uma pura farsa porque ajuda a fechar a porta de saída daqueles que
carecem da verdadeira vocação pedagógica. Como está hoje ser professor é um
mero esperar de uma aposentadoria integral. O preço que se paga por isso é o
sacrifício da educação da juventude, a quem se nega um ensino adequado, de
qualidade. |
|