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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A LEI E A ORDEM 01 de março de
2010 Percebo haver uma
grande dificuldade entre os liberais seguidores de Locke de se haverem com a
realidade de que a ordem precede a liberdade e propriedade. Acho que aqui
fala mais alto o anseio revolucionário típico dos iluministas, que se bateram
vitoriosos contra o Antigo Regime. Falta-lhes aceitar o óbvio, que uma ordem
sempre será dada, mesmo que pelos revolucionários. Constatar que uma ordem
está estabelecida não é, em si, nem bem e nem mal, é um fato da vida. Ordem não é
sinônimo de poder absolutista, mas eventualmente poderá constituir um deles.
Ordem é também o que suporta a sociedade aberta. Acontece o mesmo
quando se discute lei natural e alguém argumenta que uma lei positiva que a
contraria “não é lei”. Ora, é lei
sim e, enquanto tal, inexorável. Terá que ser cumprida. A grande desgraça dos
nossos tempos é que os revolucionários tomaram conta do poder e aprenderam a fazer do processo legislativo seu instrumento
de moldar o mundo e o homem. Construíram uma ordem, como uma havia na
ex-URSS, como há em Cuba e na China. E na Alemanha de Hitler havia. Mas, em
nenhuma dessas sociedades, pode-se dizer que esteve vigorante o regime de
propriedade privada e garantidas as liberdades. A ordem é dada
por quem está no poder. Para estar no poder é preciso ter a representação do
corpo social, mesmo que essa representação não se dê no formato democrático.
A ex-URSS fazia eleições como Cuba as faz, uma completa farsa. E, no entanto,
não se pode dizer que seus governos não representem adequadamente seu povo.
Nenhum governo se mantém contra o consentimento coletivo, mesmo que este seja
tácito e não prescinda do terror. Mas o terror sozinho não mantém governo
algum, haverá sempre que ter o consentimento para o mando. Se uma ordem é
contra a natureza e é ditatorial, assassina, em grande parte a
responsabilidade é do próprio povo que a mantém. Uma ordem doente espelha a
alma doente de um povo, que se recusa a lutar contra os potentados do dia,
ainda que seja a luta passiva. Os cristãos primitivos não litigavam contra
seus irmãos dentro do sistema iníquo dos romanos. Eles simplesmente
desconheciam as leis como tal em sua comunidade, fazendo-se reger pelo código
emanado das Escrituras. Deu certo. O cristianismo emergiu triunfante das
cinzas do Império Romano. Admitir que a
ordem, qualquer que seja ela, é que preside e garante o regime de propriedade
e o tipo de liberdade que se exerce é algo que parece elementar e é o tijolo
fundamental da ciência política. Vimos que na Alemanha foi preciso que uma
força militar externa atuasse para que as liberdades, como as desejamos,
retornassem. Na ex-URSS houve uma implosão de dentro para fora, pelas
próprias contradições do regime. Durou mais que Hitler, mas os regimes artificiais,
que instituem uma ordem contra a natureza, não têm como durar para sempre.
Acabam por cair de podres. A grande tragédia
é que o sistema jurídico resultante da ordem revolucionária tem força
imperativa de lei. É a própria ordem. No Brasil estamos vendo o estrago que a
tal “função social da propriedade” anda a fazer entre nós, desorganizando o
processo produtivo e instituindo a insegurança jurídica. Suportando decisões
judiciais contra a natureza, iníquas. E ainda estamos nominalmente como uma
sociedade aberta. O fato cristalino é que a ordem na sociedade brasileira
está em mudança célere, no rumo do comunismo. Todos os dias o governo Lula
faz valer novas leis e decretos nessa direção. Pergunta que não
quer calar: por que a propriedade privada, que ainda vige, não tem força para
resistir a esse assalto da nova ordem? Porque ela não dispõe dessa força.
Quem tem a força é a lei (o sistema jurídico) e as armas, que amparam a lei.
As armas estão cada vez mais ameaçadoras dos próprios cidadãos e mesmo a
liberdade, a segurança de uma sociedade estável, está em perigo. O sistema
jurídico está deformado. Essa é a dura realidade que nossos liberais lockeanos precisam enxergar. Se não o fizerem logo não
haverá mais tempo de reação. |
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