|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
A IDIOTIA DE
LULA 23/05/2008 “A voz, quanto mais clara fica, mais
dissonante soa” Joseph
Brodsky Meus leitores têm acompanhado o
que tenho comentado sobre a percepção pessoal
de Lula sobre o problema do retorno
acelerado da inflação no Brasil.
Saberá também, se me acompanha a mais tempo, que em nada
esse fenômeno é surpreendente, visto que as medidas governamentais que têm
sido postas em prática, à exceção da política monetária executada pelo Banco
Central, deslocada que está do corpo central da ideologia
desenvolvimentista defendida pelos intelectuais do PT, levariam
inevitavelmente a um quadro de crise como esse. Quero sublinhar aqui que a
idiotia presidencial de forma alguma se deve à carência de formação
especificamente econômica, embora não devamos esquecer que a ignorância lulista não se restringe a esse campo econômico, mas é
generalizada: essa ignorância é uma sólida aquisição de sua intensa
biografia, dedicada às palavras de ordem, às platitudes
insossas e à propaganda política mentirosa, pura e simples. Lula nunca quis
aprender coisa alguma e orgulha-se dessa ignorância militante. Sua idiotia resulta de outra
fonte, além da recusa a aprender. Fundamentalmente da construção de um mundo de
sonhos paralelo à realidade, sobre o
qual o presidente constrói as suas decisões e também o seu discurso político.
Carência de formação não redunda necessariamente em idiotia; esta vem pela
desconexão do real, posto em seu lugar um substituto onírico, uma realidade
de faz de conta, um “como se assim
fosse”. Loucura! E quando digo Lula digo também
sobre todos aqueles que lhe cercam, que constituem a
nova corte do poder: os burocratas do partido, os apoiadores de primeira e
última hora, os empresários chapa-branca, a comunalha
instalada nas universidades, nos jornais diários, nas emissoras de TV, no
mundo artístico e editorial. A idiotia de Lula é espelho – se quisermos, é a
ponta mais saliente e pública desse enorme monumento à ignorância que é o
governo Lula – do abaixamento do nível civilizacional
do Brasil. Que é acompanhado pelo abaixamento do nível moral também. O que me
surpreende, sabedor que sou dessa estranha e
perigosa supra-realidade que baliza a tomada de decisões vitais no plano
coletivo, é que nossa sociedade ainda não mergulhou no abismo inevitável da
desintegração. Certamente o descontrole inflacionário será a porta triunfal
pela qual a crise colossal que eu espero vai se instalar. Essa percepção pessoal do
presidente é tanto mais mágica e trágica porque genuína. Lula acredita
piamente no que diz e essa sinceridade está na raiz da empatia com que a
população aceita sua percepção falsificada dos fatos. Essa falsificação é
substituta da verdadeira realidade, à vista daqueles capazes de elaborar
análises profundas. Lula encarna essa distorção da consciência coletiva e de
fato tem a representação existencial dos brasileiros, pelo menos daqueles que
caíram no canto de sereia dos revolucionários. Só um idiota poderia
representar a multidão de idiotas. Contra todas as evidências em contrário os
idiotas passaram a acreditar na abolição da lei da escassez, na eliminação do
risco existencial, na mentira de que o Estado pode garantir vida boa e
abundancia para todos que lhe fizerem genuflexão. Irresistível recordar aqui a
bela reflexão de Joseph Brodsky, em seu ensaio “O filho da civilização”, no qual
comenta a vida e a obra daquele que ele considera o maior dos poetas russos
do século XX, Ossip Mandelstam
(inserido no livro MENOS QUE UM, publicado em 1986
pela Companhia das Letras): “Quando um
homem cria um mundo próprio, transforma-se num corpo estranho contra o qual
se voltam todas as leis: a gravidade , a compressão, a rejeição, o
aniquilamento”. Obviamente que quando as leis
naturais se voltam contra um governante e seu povo
insensato estamos diante de fatos trágicos da maior gravidade
histórica. A bomba-relógio está ativada e não vejo mais como desativa-la.
Haveremos de ter um encontro macabro com o destino. Em outro ensaio, publicado no
mesmo livro, este dedicado à heróica figura de Nadezhda
Mandelstan, esposa e viúva (sublinho este fato porque importante, viuvez foi a característica das mulheres dos grandes homens russos
naquela geração, pelo menos daquelas que tiveram a sorte – ou azar – de não
perecerem junto com o marido assassinado) do grande poeta objeto do ensaio
anterior, podemos ler: “Por si mesma, a realidade não vale nada. E existe uma hierarquia
entre as percepções (e, correspondentemente, entre os sentidos); as
adquiridas através dos prismas mais refinados e sensíveis figuram no topo. O
refinamento e a sensibilidade desses prismas vêm da única fonte possível: a
cultura, a civilização, cujo instrumento principal é a linguagem. A avaliação
da realidade feita através de um
prisma como esse – cuja aquisição é uma das finalidades da espécie – é portanto a mais precisa, e provavelmente a mais justa.
(Os clamores de ‘Injustiça!’ e ‘elitismo!’ que podem saudar a frase vindo
logo das universidades devem ficar sem resposta, porque a cultura é
‘elitista’ por definição, e a aplicação de princípios democráticos na esfera
do conhecimento nos levaria a considerarmos equivalentes a idiotia e a
sabedoria.)” Bem sabemos que nosso ilustre
presidente não consegue falar direito a língua pátria e nenhuma outra, embora
fale com loquacidade e eficiência à alma do povo idiotizado. Lula é o apedeuta por antonomásia. Aqui que
mora o perigo: um cego guiando a multidão de cegos. Não me cabe fazer outra
coisa que não rezar pelos enormes sofrimentos que nos esperam, na melhor das
hipóteses. Na Rússia, terra de Brodsky
e dos Mandelstam, já temos o balanço
consolidado das tragédias que aconteceram, fruto desse descolamento da
realidade. Eles são felizes, os russos, pois seus mortos já morreram, contados às dezenas de milhões, enterrados no
altar elevado à estupidez. A matança ainda não começou por aqui, e nem a
morte por inanição, e nem pelo frio, e nem pela miséria artificialmente
fabricada pelos construtores de utopias. Não sei se é algo a comemorar ou a
lastimar. Sei que os vivos, como registram as Escrituras, poderão ficar com
inveja dos mortos de tempos em tempos. Como na Rússia. Como em toda parte
onde esses alucinados descolados do real chegaram ao poder. A idiotia de Lula é a idiotia
de toda a gente brasileira. |
|