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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A HORA DO HERÓI 30/04/2012 Para um
grande escritor é preciso haver um grande crítico. Quando saiu publicado o Sagarana, Antonio Cândido, em julho de 1946, publicou no
então Diário de São Paulo: "[No conto "A hora e a vez de Augusto Matraga" o autor] entra em região quase épica de humanidade e cria um dos grandes tipos
da nossa literatura, dentro do conto que será, daqui por diante, contado entre os dez ou doze mais perfeitos da língua". Não foi
pouca coisa para um autor estreante. No último
parágrafo o grande crítico não se conteve e escreveu que "Guimarães Rosa vai reto para a linha dos nossos grandes
escritores". O que tanto
encanta no Augusto Matraga? Ele mantém a estrutura
das peças trágicas do século V da Magna Grécia, mantém a ideia de destino
(melhor chamado aqui de Divina Providência, pois o autor é católico), trata
do conflito entre dois tipos de leis não escritas que precisam ser cumpridas
e exalta o valor da redenção, pela prática do bem, e do heroísmo. Guimarães
Rosa reescreveu em termos cristãos a tragédia clássica. Augusto Matraga é um homem arrogante e poderoso, que sofre uma
sucessão de desgraças: perde seus capangas de confiança, perde a esposa e a
filha "se perde", empobrece e, por fim, toma uma surra memorável,
que finda quando é ferrado em brasa, como uma rês. Na hora derradeira a
Providência age e ele escapa vivo, pobre, machucado e maltrapilho. Dois
anjos, na forma de um casal de velhos negros, o resgatam e, desde então,
Augusto Matraga tenta expiar seus pecados todos os
dias, mediante trabalho duro e altruísta e muitas orações. Vai para uma
espécie de exílio em terras distantes, escondendo-se de tudo e de todos. Ele
se converteu ao bem e se tornou um bom católico. Certo dia
aparecem por lá Joãozinho Bem Bem e seu bando,
cangaceiros provados, uma versão pagã de força física e militar. O contato
entre Joãozinho Bem Bem e Augusto Matraga revela uma afinidade imediata. O primeiro diz:
"Nossos anjos da guarda se
combinam". Ficam amigos, Augusto Matraga
torna-se seu anfitrião e, antes de partir, o cangaceiro chefe convida-o para
fazer parte do bando. Augusto Matraga recusa e
profere as palavras do título, que todo
homem tem a sua hora e suas vez, mas a sua ainda não chegara. O tempo passa
e Augusto Matraga se sente novamente recuperado e
forte e a passagem das aves migratórias é tida por ele como um sinal, o de que
precisava procurar o seu destino. Monta num jumento e vai pelo mundo, guiado
pelo próprio animal (equivalente a uma força inconsciente). Numa aldeia
encontra Joãozinho Bem Bem, que estava ali para
vingar um dos cangaceiros, assassinado pelas costas. Como o assassino fugiu,
a lei não escrita era que um homem da família do assassino deveria ser
sacrificado, para pagar. O desfecho trágico e surpreendente acontece. O bando
invade a igreja, onde o pai do assassino tenta proteger os dois filho
menores, um dos quais seria o sacrificado, e a figura máscula do padre se
sobressai na defesa da família. Em vão. O bando é forte e grande e o chefe é
impiedoso e determinado. A chegada de
Augusto Matraga dá uma pausa e Joãozinho Bem Bem reitera o convite para que ingresse no bando,
oferecendo-lhe o cavalo e as armas do
cangaceiro morto. "Sou um pobre pecador, seu Joãozinho Bem Bem", respondeu Augusto Matraga.
"Que-o-quê! Essa mania de rezar é que está lhe
perdendo... O senhor não é padre e nem frade, p'ra
isso; é algum?... Cantoria de igreja, dando em cabeça fraca, desgoverna
qualquer valente... Bobajada!..." A ética
antagônica dos dois homem é explicitada. Augusto Matraga toma a espingarda e então se dá conta do drama
que se desenrola na igreja. Havia chegado a sua hora. Imediatamente ele diz
ao chefe para parar, que aquilo não podia ser feito e o desafia. Luta sozinho
contra o bando, mata vários, inclusive o chefe e é morto. O herói se fez pelo
bem. Salvou as vítimas inocentes de uma ética torta, justiceira, maligna. Foi
o sacrifício de um herói cristão no combate justo. |
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