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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A GNOSE
PETISTA 18/11/2007 Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! Mário de Andrade, poema ODE
AO BURGUÊS É possível explicar a fórmula
de sucesso da ação política do PT, a sua hegemonia? Sim, é possível, mas não
no âmbito das categorias empregadas pela ciência política convencional que se
estuda nas nossas academias. Na verdade não só a ciência
política, mas toda a pesquisa acadêmica no campo das Humanidades no Brasil
deixou há muito a seriedade científica para tornar-se ela própria um mero
instrumento da propaganda revolucionária, que objetivamente impede as pessoas
de melhor formação, as que alcançaram o ensino superior, de terem qualquer
noção do que realmente se passa no plano político. Vivemos numa
sociedade de zumbis. Um sonho dantesco domina o estado de vigília e a
esmagadora maioria sonâmbula carrega em triunfo seus ídolos. Vou tentar aqui fazer um
simples esboço para dar uma explicação sustentada dessa realidade confusa.
Não é tarefa fácil, pois bem sei que alguns dos termos que usarei aqui não
são de uso comum. Não será pedantismo da minha parte, mas uma imposição da
necessidade teórica. A teoria não é um enfeite, é a única ferramenta que
permite o descortino da realidade, que infelizmente demanda o uso correto dos
conceitos que não são de uso corrente. A começar pela expressão
“gnose” ou “gnóstico”. Um dos grandes tentos dos
agentes políticos da revolução foi convencer largas parcelas da opinião
pública de que não há ligação entre o elemento religioso e a ação política
enquanto tal. A religião supostamente se restringiria à vida privada, como se
a gnose política não fosse, ela mesma, uma forma satânica de religião. É como
se o Estado, sua representação e sua missão fosse um mundo à parte e não se
relacionasse com as coisas do Espírito. É nessa mentira fundamental que todo
o edifício político da modernidade foi erigido. Aceitar essa premissa é cair
nos braços da gnose e negar a verdade enquanto tal. O petismo é um ramo
recente desse processo, de somenos importância quando visto de uma
perspectiva global e de sua ação na história até o presente momento. Mas
quanto ele é colocado no devido contexto, veremos que toma a feição da linha
de frente do movimento revolucionário universal e suas realizações no passado
são nada diante da eminência dos grandes fatos que estão por vir. A gnose é um antigo termo
religioso que designa os desvios de doutrina que deságuam na mentira
espiritual, com implicações diretas sobre a práxis. Talvez o mais antigo e
eficaz movimento gnóstico tenha começado no mundo
pagão da Grécia e tomou forma na filosofia epicurista,
nascida para confrontar nada menos do que Sócrates, Platão e Aristóteles. Epicuro foi contemporâneo desse último e seus seguidores
ajudaram a expulsar o estigirta de Atenas,
triunfando no meio político que levou o grande Sócrates ao supremo sacrifício
em defesa da verdade da alma. Seguiu-se a decadência não apenas política, mas
filosófica de toda a Grécia, vez que o gnosticismo
é um elemento de elevado poder destrutivo. Em poucas palavras, Epicuro defendia que o sentido da vida se resume à
existência nesse mundo, simplificado no binômio busca do prazer/fuga da dor.
Essencialmente o que importa sublinhar é a negação de qualquer realidade
transcendente para os seguidores do epicurismo, tornando o homem – mais
precisamente o prazer eventualmente obtido por ele – a medida de todas as coisas.
Gigantes como Aristóteles e Platão riram dessa idiotia teórica, pois desde
Parmênides sabia-se que a explicação do universo manifesto pressupunha a
realidade do Além, as Formas ou o Deus único dos filósofos, o limite mais
amplo a que puderam chegar os maiores pensadores pagãos antes do Advento. No universo cristão a gnose
emerge com a mesma idéia central, a de que o homem pode ser aperfeiçoado nesta
vida e buscar a salvação ainda nesse mundo. Pelágio
é o ancestral mais vistoso dessa heresia, derrotada, no campo teórico,
teológico e político pelo grande Santo Agostinho. Mas a gnose acompanhou, como sombra, o Cristianismo pelos séculos
seguintes até triunfar na modernidade (entendida esta como a cultura que
moldou a civilização ocidental a partir do século XIV). Embora não seja um corpo de doutrina único
e se manifeste em diferentes teorias e movimentos religiosos e políticos, o gnosticismo moderno tem como denominador comum declarar a
imanência da salvação e reduzir a psique do homem à relação binária busca do
prazer/fuga da dor. Essa caricatura espiritual gerou a criatura bifronte dada
pelos falsos opostos liberalismo ateu e o marxismo revolucionário. Os grandes restauradores do
epicurismo na modernidade foram Locke e Rousseau,
autores que geraram as tradições paralelas do liberalismo ateu e do marxismo
revolucionário. Veja, meu caro leitor, que dessa
árvore frondosa nasceu a falsa verdade filosófica estabelecida por pelo menos
três séculos seguidos. Essa gente tomou conta dos Estados nacionais na Europa
e nas Américas e, depois, no resto do mundo. Então quando eu falo em
modernidade eu falo da linha de pensamento que seguiu seu curso a partir
desses nomes. que são familiares a toda a gente.
Basta recordar que gigantes como Kant, Hegel, Marx e Nietzsche, sem falar nos
autores do ramo britânico do liberalismo, como Smith e Ricardo, são os
caudatários diretos dessa nova suposta verdade da alma. O inimigo dessa gente é um só,
a Igreja Católica e o Cristianismo ele mesmo. Na verdade as denominações
protestantes são elas próprias uma plena manifestação do gnosticismo
usando a roupagem evangélica. Sei que muitos dos seguidores
dessas religiões ditas cristãs talvez nem tenham a noção do que se passou,
porque não é tarefa fácil encontrar livros de história e menos ainda livros
de filosofia política que relatem fielmente o que aconteceu. A
decretação de morte de Deus por Nietzsche é o coroamento da modernidade e a
síntese de tudo, o corolário da Reforma. O PT só pode ser compreendido
como legatário dessa tradição. Recordemos que ele nasceu da implosão do
Partido Comunista Brasileiro – PCB que aconteceu desde os anos sessenta e se
consumou plenamente depois da queda do Muro de Berlim. O Partidão
fragmentou-se em várias siglas, mas aquela que realmente triunfou e é seu
legítimo herdeiro é o PT. Não é à toa que as demais
denominações socialistas e comunistas que persistiram estão, todas
elas, na base de apoio do governo do PT, tendo tornado-se seus vassalos.
Inclusive o PC do B, a sigla mais belicosa e a mais antiga dissidência do
Partidão. A questão teórica a responder
é: como o PT e seus aliados esquerdistas tomaram a representação política e
se legitimaram enquanto donos do Estado? Em que consiste essa representação?
Quais são as suas idéias fundamentais e em que elas colidem com as “boas”
idéias políticas? Na verdade o imaginário
socialista e comunista começou a tomar conta das mentes no Brasil muito antes
do PT, pela ação do Movimento Comunista Internacional e pela Internacional
Socialista, sua ramificação mais branda. Inicialmente essa gente controlou os
meios de comunicação e, ato seguinte, fez-se senhora
das universidades. Esse processo iniciou-se na primeira metade do século XX,
já antes da Intentona Comunista, sendo notável que grandes escritores
brasileiros foram militantes da causa, como Mario de Andrade e Graciliano
Ramos, bem como o escritor menor e grande divulgador do comunismo, Jorge
Amado. Mas foi nos anos Setenta, com a inexplicável omissão dos governos
militares, que essa gente tomou de assalto o ensino público, em todos os
níveis. O movimento de redemocratização deu-lhe o palanque que precisavam e a
nova Constituição de 1988 já será um produto de sua loucura. Daí para Lula
chegar ao poder precisou apenas do um governo preparatório presidido por FHC,
cujo partido em essência é um aliado ideológico e um sócio no processo
político, servindo como dique contra qualquer tentativa de reação das forças
conservadoras. O PSDB é o escudo á direita do movimento comunista brasileiro.
Gente como o próprio FHC e José Serra poderiam perfeitamente estar no PT sem
necessitar de qualquer adaptação ideológica, vez que concordam em tudo e por
tudo com o essencial deste partido, divergindo apenas do tom demagógico e
populista que o PT usa sem qualquer freio. Então o PT passou a
representar a sociedade brasileira a partir do momento em que teve acesso à
formação da juventude e ao aparelho de Estado, no qual entrou como um vírus
que usa o organismo sadio como hospedeiro e de lá não mais saiu. Os eleitores
do PT de fato se reconhecem naqueles a quem elegem, pois estão enganados
desde o berço. Por isso que o PT é ilegítimo, porque é filho da mentira
calculada, da dupla linguagem que usa, uma para o
grande público, outra para sua própria elite partidária. É fruto também da
dupla moral oportunística, que apregoa as virtudes
tradicionais tão caras às gentes brasileiras e pratica efetivamente o seu
contrário no exercício do poder. Vimos às escâncaras esse fato por ocasião dos
numerosos escândalos, principalmente durante a CPI do “mensalão”. Sua representação, no nível
mais essencial, é falsa, pois que produto da mentira maquinada por décadas de
propaganda enganosa. Essa é uma das falhas essenciais da equação petista, a Matrix que não tem como evitar a própria destruição, o
próprio colapso. Três são as idéias-chaves que
sustentam o discurso petista e lhe dão a unidade: 1- A denúncia do capitalismo
como uma ordem econômica supostamente injusta e maligna que precisa ser
substituída pelo reino da justiça comunista. Essa idéia esconde o fato real
de que a economia capitalista é a forma natural de organização da sociedade
humana, forjada ao longo de milênios e que encontrou no meio cristão o
ambiente propício para a sua realização na história. Esconde também que essa
economia natural está em consonância com a verdade da alma e permite cumprir
o que está na Escrituras. A tradição cristã aceita como um dado da vida a lei
da escassez e constrói a sua ética a partir dela, afirmando que cada um deve
ganhar o pão com o suor do seu rosto. Os incapazes de sobreviver no sistema são objeto da caridade privada, característica eminente de
toda a tradição judaico-cristã. O credo petista nega tudo isso e propõe a
substituição do livre mercado pelo Estado, ente supostamente capaz de
instituir uma esdrúxula “justiça social”. A idéia do Estado Total que pode
mediar e remediar toda a vida privada, exorbitando nas leis e na sua
aplicação. Fora do Estado não há salvação para a ideologia petista, ele é
posto como a alternativa à ordem natural do capitalismo, o que foi feito pelo
comunismo desde sempre. 2- A denúncia dos
capitalistas, suposta a classe dominante, e a pregação continua da luta de
classes até o limite da histeria, como vemos nas cenas freqüentes das
catarses públicas de ódio explícito, seja dos movimentos sindicais, seja dos
movimentos sociais, como o MST. Aqui se faz a satanização
dos indivíduos por sua condição social. De novo, a pregação da igualdade
utópica, ignorando que os indivíduos têm características diferentes e
talentos diferentes, que não podem ser homogeneizados de forma alguma. Toda a
máquina de propaganda foi posta em movimento para tornar verdade
auto-evidente que alguém, se for economicamente bem sucedido na vida, pratica
atos imorais, ainda que eventualmente lícitos. Sinais de riqueza adquirida
honestamente no mercado passaram a ser tratados como uma forma de traição
social. De roubo puro e simples. O irônico é que a própria elite econômica
assumiu o complexo de culpa por ter riqueza. Ela própria se engaja nos
movimentos sociais e financia as ONGs
dos que geraram essa propaganda enganosa. A burguesia brasileira tem
financiado continuamente aqueles que serão seus algozes, seja no sentido
figurado, seja no sentido literal. É
claro que a burguesia há muito deixou de ser classe dominante, tornando-se
refém da burocracia estatal controlada pelos agentes do PT. Essa gente é chantagedada todos os dias, espoliada de suas riquezas,
paga os impostos absurdos e ainda paga as campanhas políticas e o “arrego” (vide o filme Tropa de Elite) dos esbirros partidários. Ainda assim, como vimos
no caso recente da Cisco, a burguesia ainda pode ser
perseguida judicialmente pelo crime de dar dinheiro a seus algozes, ainda que
dentro das formalidades da lei. A verdadeira classe dominante é a burocracia
partidária instalada na burocracia do Estado. 3- A pregação supostamente
libertária dos novos costumes que nega a moral natural seguida por milênios. Então causas nefandas como o abortismo,
o gaysismo, o feminismo, a visão de que os
criminosos não são criminosos (exceto sonegadores de impostos burgueses), mas
vítimas do capitalismo, a defesa de todas as aberrações comportamentais e
supostamente religiosas, ao lado da perseguição das religiões tradicionais,
especialmente da Católica, completam a confusão geral. A bandeira da
liberação das drogas é partilhada com a tolerância crescente com o consumo e
com o tráfico das mesmas. A imprensa noticiou fartamente que dinheiro de
traficantes das FARC supostamente financiou a eleição de Lula. Os indivíduos
isolados, em meio a esse ruído contra-cultural, ficam
indefesos e não têm como ter critério próprio de julgamento diante das
aberrações, restando-lhes exclusivamente a luz natural da razão e da moral
como guia. Gente fraca sucumbe imediatamente. E aquilo que sempre foi tratado
como nefando passa a ser defendido como moral superior consagrada pelo
sistema jurídico. Essas principais idéias-chaves
listadas acima resumem o credo gnóstico que deixa
implícito o que os gnósticos de todos os tempos
sempre defenderam: viva o aqui e agora, os vícios são virtudes, a salvação é
nesse mundo, não existe nada no Além, Deus é o Papai-Noel dos adultos e por
aí. É o epicurismo redivivo. Esse é o PT, o petismo, o Mal em ação. Diante dessa realidade, só me
resta fazer minhas as palavra de Voegelin em seu
monumental livro A NOVA CIÊNCIA DA POLÍTICA: “Isso significa, concretamente, que um governo tem o dever de
preservar a ordem, bem como a verdade que ele representa; quando surge um
líder gnóstico proclamando que Deus ou o progresso,
a raça ou a dialética determinou que ele se tornasse o soberano existencial,
o governo não deve trair a confiança nele depositada. Não ficam excluídos
dessa regra os governos que funcionam com base numa constituição democrática
e no respeito aos direitos individuais. Jackson, Juiz da Corte Suprema dos
Estados Unidos, ao pronunciar a opinião contrária no caso Terminiello,
afirmou que a Constituição não é um pacto de suicídio. Um governo democrático
não se deve transformar em cúmplice de sua própria derrubada, permitindo que
movimentos gnósticos cresçam prodigiosamente à
sombra de uma interpretação errônea dos direitos civis; e,
se por inadvertência um movimento desse gênero houver atingido o ponto
crítico de captura da representação existencial através da famosa ‘legalidade’
das eleições populares, um governo democrático não se deve curvar à ‘vontade
do povo’ e sim sufocar o perigo pela força e, se necessário, romper a letra
da constituição a fim de preservar seu espírito”. Esse trecho do livro resume o
espírito glorioso de 1964. |
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