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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ENTREVISTA DE FHC 24 de julho de 2009 Saiu último número da revista DICTA&CONTRADICTA e, como sempre, ela traz excelente e
variado conteúdo. A revista tornou-se leitura obrigatória no cenário cultural
brasileiro. Desta vez o grande presente que ela tem para o leitor é uma longa
entrevista dada por Fernando Henrique Cardoso ao editor da revista, Guilherme
Malzoni Rabello, que quero aqui comentar. A
entrevista pode ser dividida em três temas distintos: um teórico, um político
e um terceiro, pessoal. Guilherme foi muito feliz nos
dois encontros que teve com FHC para realizar a entrevista. Eu, que tenho
acompanhado tudo que FHC escreve e declara nos últimos anos, nunca o vi tão humano, tão desprovido da casca de maioral da República. A
entrevista traz nuances insuspeitas da sua personalidade para quem conhece o
ex-presidente apenas de longe. Eu quero aqui sublinhar alguns trechos,
especialmente aqueles que, se eu pudesse, exploraria mais se tivesse a oportunidade de falar diretamente com o
entrevistado. Depois deste painel fascinante composto pelo Guilherme, eu
fiquei com um pequeno questionário adicional. Mas o importante é sublinhar o
valor histórico do documento, um serviço feito pela revista aos brasileiros. No tema da questão teórica,
que é tocado logo no preâmbulo, vemos o FHC sociólogo discorrer com
loquacidade sobre Max Weber, Marx e outros teóricos da sociologia. Gostei muito
da sua crítica aos atuais métodos de pesquisa em ciências sociais. Nas suas
palavras: “Hoje, acho que a
predominância da visão positivista é maior ainda, através da sociologia dita
empírica. A ciência dita empírica. A ciência política na literatura atual,
nas revistas especializadas, é quase ilegível, porque se postula um homo politicus, tal como a economia postula um homo oeconomicus. Mas, na verdade, isso não funciona: está-se
vendo a toda hora que há o imprevisível, o acaso, enfim, que as coisas não
são dessa forma – como também não o são na economia,
como acabamos de ver nesta crise, pelo desencontro que há entre as previsões
e a realidade”. Certamente há aqui um
vislumbre de realidade forte, sublinhado pela experiência espetacular que FHC
carrega na própria biografia, seja no âmbito teorético,
seja no âmbito de agente político que tudo viveu. Um depoimento valioso, que
ele completa: “A confusão que não se pode fazer é imaginar que a ciência seja igual à
verdade, ou então que ela seja todo o conhecimento possível, que
esgote a realidade. Weber tem plena noção de que a realidade é inescapável, e
não tinha a pretensão de apresentar a explicação. Portanto, acho que certa
humildade é necessária para o sujeito não cair numa visão vulgar, patética,
de que o dado explicaria tudo por si mesmo”. Certamente essa é uma
conclusão de um grande professor. Mais à frente, vemos o teórico
substituído pelo ator político: “O
político tem de ter a ética de responsabilidade: precisa saber que será
responsável pelas conseqüências dos seus atos, mesmo que não sejam
intencionadas. Esse é o grande drama do político: assumir responsabilidade
por aquilo que não se tinha como propósito. Por isso, as conseqüências dos
atos devem ser medidas”. Ainda mais à frente: “Penso que todo o líder que transcende não pode ficar só nisso;
precisa ter uma convicção, tem de acreditar em alguma coisa”. A questão que me coloco é: teve FHC essa
postura como governante? Como teórico no poder? Suas respostas dão algumas
pistas sobre essas questões. Respondendo à pergunta sobre os seus próprios valores
enquanto ator político, ele sublinha a liberdade,
a democracia e também a igualdade. “O resto é instrumental”, segundo ele mesmo. Estamos aqui diante do
credo socialista, que FHC encarnou. No seu governo a participação da carga
tributária no PIB cresceu 10 pontos percentuais. Eu teria lhe perguntado se
essa decisão política, de alavancar tão fortemente a tributação, poderia ser
classificada como instrumental para
o aumento da liberdade e da democracia. Quer me parecer precisamente o
contrário. Mais imposto é sinônimo de menos liberdade e menos democracia. Aqui está o principal ponto da
ciência política, pelo qual uma visão conservadora, que eu mesmo postulo,
precisa desmascarar os discursos de bom mocinho de gente como FHC e dos
socialistas em geral. Pregam uma coisa e praticam
outra. Obviamente que esse teratológico aumento da carga tributária serviu para fortalecer a burocracia estatal, para aumentar o feixe de
regulamentos que atravancam a vida prática, para empobrecer quem trabalha e
para criar uma casta gigantesca de parasitas, que cresce velozmente no
Brasil. FHC é o responsável direto por isso e creio que a história cobrará
dele a sua responsabilidade ética por essa desgraça que se abateu sobre a
Nação. Sem esquecer que a inércia desse processo alargou-se com o PT no
poder: FHC é o pai espiritual de Lula e o maior cabo
eleitoral dos petistas. Terá sido isso aumento da democracia? Penso que não,
é a sua própria negação, sua corrupção. As práticas políticas desde que FHC
assumiu o poder podem ser consideradas as piores desde quando o Brasil se
formou como Nação. E FHC tem total clareza disso,
embora não verbalize as conseqüências morais de duas decisões de governo.
Quando ele fala de Gramsci, por exemplo, é mais do que professoral, ele é
conclusivo. “Gramsci tinha uma idéia
específica: para ele, era o Moderno Príncipe, o Partido, quem seria o
regenerador dos valores, e ele via esse processo também como manipulação. O
partido deveria tomar conta, apropriar-se da cultura. Gramsci teve a
perspectiva de perceber, no panorama do mundo marxista, socialista, comunista
de então, que não bastava pensar em infra-estrutura e superestrutura... Por
isso Gramsci teve tanta importância”. Eu entendo que o maior agente da
revolução gramsciana que o Brasil conheceu é FHC em
pessoa. Mas quem é o Partido? É uma
pergunta que se impõe. Para ele, não é o PT: “Mais tarde o PT tentou ser gramsciano, mas
não deu o segundo passo, que poderia ser o mais revolucionário. Ou seja, não
renunciou à concepção de que o Estado é que vai mudar a sociedade... Ficaram
com o domínio (provisório) do Estado e nada significativo mudaram na
sociedade”. Vê-se que FHC acha que é o seu próprio partido o Partido
aludido por Gramsci. E aqui cabe uma reflexão. Se FHC realmente acha que o PT
é um partido leninista à moda antiga, revolucionário, porque não lutou para
que ele não chegasse ao poder? Terá percebido a contradição do que disse?
Será que o Brasil não corre o risco de ver o PT se perpetuar no poder, seja
lá por que via for? Será mesmo que o PT está provisório no comando do Estado? Eu temo que não. Esse ponto aqui
também será cobrado pela história a FHC. Durante todo o processo político ele
teve a clareza teórica e factual dos riscos que o país corria e teve os meios
para não ver a bacia derramar e nada fez. Acabou por ser ele o grande eleitor
de Lula e dos seus asseclas para o poder central. Essa não é uma simples questão
teórica, ela transcende, é existencial. Não dá para
minimizar a responsabilidade pessoal de FHC, menos ainda os desdobramentos
históricos que estão por vir. O drama é ler a entevista
e ficar sabendo que, em nenhum momento, FHC se iludiu com o processo. Acabou
sendo uma confissão de que terá sido cúmplice se os revolucionários
leninistas forem bem sucedidos no Brasil. FHC está muito certo quando
afirma: “Penso que no Brasil
simplesmente não existe um pensamento propriamente conservador. Não existe.
Nem na política há quem se defina como conservador, o que é uma coisa muito
estranha”. Ora, essa é a constatação que ele fez de que a vitória de
Gramsci por aqui foi completa. Toda a disputa política passou a se dar entre
“mais” esquerda e “menos” esquerda, uma perfeita farsa eleitoral. A liberdade
política que restou aos brasileiros é escolher entre o representante do PT e
do PSDB, partidos que empunham a bandeira do socialismo. O sociólogo,
todavia, passa ao largo de formular uma explicação teórica para o fenômeno,
embora registre sua estranheza. Ele revela uma coisa curiosa
na entrevista, de que ele próprio compõe um grupo criado por Nelson Mandela,
chamado The
Elders, uma espécie
de gerontocracia socialista operando em escala
mundial. Vale uma visita no site, é toda a agenda socialista e globalista que lá está. Realmente, esse fato é coerente
com a sua biografia. FHC finaliza com revelações
pessoais, fala da morte de Dona Ruth, de um surpreendente e insuspeito
catolicismo na sua formação, da morte, do sentido das coisas. São reflexões
existenciais profundas, que mostram um homem idoso, poderoso, diante do
inescapável da vida. Não fosse por outra coisa, e apenas por isso, a
entrevista é sensacional e de leitura obrigatória para quem observa o panorama
político e intelectual brasileiro. Remeto você, caro leitor, ao conteúdo
dessas impressões pessoais, que não cabe a mim
comentar. |
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