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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A ENTREVISTA DE ARMÍNIO FRAGA 29 de outubro de 2009 Não posso
deixar passar sem um comentário a excelente entrevista
concedida pelo economista Armínio Fraga ao jornal
Valor Econômico, publicada na edição de hoje. O economista é um homem brilhante,
que realizou grande carreira na iniciativa privada, vindo a tornar-se um
notável homem público. Suas opiniões precisam ser observadas e levadas em
conta. Não são palavras jogadas ao vento, mas sim, resultado da observação de
alguém qualificado e que dispõe de informações privilegiadas. Pergunta:
Coloca-se o Estado máximo como
contraponto ao Estado mínimo. Quem defende a opção de um Estado mínimo? Resposta:Não
sei. Nem o Roberto Campos no auge do seu liberalismo defendia isso. Aliás,
ele próprio foi o pai do BNDES. Nunca ouvi falar em alguém que defenda o
Estado mínimo. Essa é uma tentativa de delimitar o debate a partir de uma
premissa falsa, o que é muito grave. A
declaração de Armínio Fraga, salvo as exceções de
regra, reflete a mais pura verdade. No Brasil, ninguém relevante no meio
político e empresarial abraça a bandeira do Estado Mínimo, nem mesmo como
liberalismo de salão. É certo que, nos tempos recentes, algumas coisas novas
em defesa da idéias liberais, em matéria de Economia, estão sendo feitas,
como o Instituto Millenium e os já tradicionais
Institutos Liberais do Rio de Janeiro e de Porto Alegre (este agora chamado
Instituto Liberdade). As pessoas que formam esses institutos são intelectuais
abnegados e alguns empresários que estão longe do poder de Estado. São
pequenos demais para formar a opinião pública. Armínio apenas constatou o aspecto mais óbvio da nossa tragédia como
Nação, o fato de que nossa juventude é adestrada desde o berço para abraçar
as idéias estatistas e coletivistas. O regime
político brasileiro é, para sermos rigorosos em termos teóricos, fascista.
Tem a forma corporativa que os teóricos do fascismo imaginaram. “Tudo para o Estado, nada fora do Estado,
nada contra o Estado”, é máxima que vigora em nossa sociedade e a fala do
Armínio expressa essa realidade, que não é de hoje.
A novidade é que o governo Lula acelerou o processo, fazendo a inclusão (palavra torpe) dos pobres
excluídos do butim estatal, a troco dos votos, para se perpetuar no poder.
Foi no governo Lula também que os fundos de pensão estatais passaram de fato
ao controle dos sindicalistas laborais, dando tônico mais forte ao caráter
corporativista do regime político nacional. O exemplo
clamoroso disso é o caso muito comentado nos últimos dias, o da empresa Vale
do Rio Doce, sobre o que expressou-se Armínio Fraga: “A
Vale é uma empresa que tem tido muito sucesso, gerou muito valor para o país
ao longo dos anos - antes e depois da privatização - e sempre foi conduzida
pensando grande. Ninguém pode acusar a Vale de pensar pequeno. É uma empresa
que tem mecanismos de governança bem definidos, onde há espaços para se
definir estratégias, para se discutir investimentos. Uma politização desse
processo, confesso, me surpreendeu e incomoda. Vejo com maior preocupação
ainda quando profissionais de altíssimo gabarito são perseguidos porque, em
algum momento, fizeram parte de outro governo, aliás em funções de natureza
técnica e com altíssima exposição. São pessoas cujo patriotismo, para usar
uma palavra importante, está acima de qualquer suspeita”. Ora, é próprio dos regimes fascistas a politização do processo
econômico, por isso entendo que não há surpresa alguma aqui. Quem tem o poder
vai exercê-lo na plenitude. O fato é que as corporações sindicais laborais
estão no centro do processo político e estão presentes em todas as
agremiações políticas, além de terem o controle de praticamente todo o aparelho
de Estado. Armínio falou em “surpresa” como um
eufemismo para manifestar o seu mal-estar. No fascismo, assim como no
comunismo e no nazismo, acaba-se completamente a separação entre o que é
econômico e o que é político. Ao desaparecer a fronteira a senda fica aberta
no rumo do totalitarismo ou, como tenho chamado, do Estado Total. Quando
comentou a política cambial Armínio Fraga colocou o
dedo em outra ferida, que tem sido a chaga do Brasil desde sempre: “Há, também, a defesa de uma ação mais ‘firm’ na intervenção, no fundo uma espécie de
‘tabelamento’ do câmbio, que requer uma discussão mais ampla. Não é só fazer.
Isso exige pensar numa outra perna importante do tripé, a política fiscal. Um
modelo que pode dar certo para a China, país que poupa 40% do PIB e tem juro
real negativo, pode não necessariamente dar certo aqui”. E acrescentou: “Teríamos um custo fiscal extremamente
elevado e, ao contrário de uma carta branca para gastar mais, isso recomenda
o oposto: mais cautela. Se esse é realmente o objetivo, o que hoje é
essencial, que é uma política de responsabilidade fiscal e disciplina, passa
a ser mais do que essencial. Passa a ser vital. Senão, a conta não fecha”. Disso
sabemos todos, mas um regime de governo fascista/esquerdista não quer ouvir
falar em disciplina fiscal permanente. Essa gente acha que a lei da escassez
pode ser driblada. O fato é que os desequilíbrios fiscais acabam por se
tornar o duplo problema de balanço de pagamentos e de inflação. É nesse rumo
agora que navega a política de Lula e é nesse rumo que navegará seu provável
sucessor, José Serra. Este sempre foi um intervencionista fanático em matéria
cambial. Noto também que Armínio não opinou sobre a
abusiva carga tributária em vigor, aspecto da mesma tragédia. O dinheiro arrecadado
nunca chega para os crescentes gastos públicos. Pergunta:
“Na campanha de 2006, Lula colou no
candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, a pecha de privatista da qual ele não
conseguiu se desvencilhar, como se isso fosse uma falha imperdoável. Me parece que a sociedade brasileira gosta da presença do
Estado”. Resposta: “Li recentemente um artigo extraordinário de um professor de Chicago,
Luigi Zingales, chamado ‘Capitalism
After the Crises’,
publicado na ‘National Affairs’,
que no fundo diz o seguinte: existe uma defesa do Estado porque tipicamente
os interessados conseguem identificar onde vai estar a sua boquinha, e a
esmagadora maioria da população sente pouco ou vai sentindo aos poucos o
custo disso, mas não consegue se mobilizar. Essa é a marca de um Estado que a
literatura chamava de corporativo, patrimonialista, populista, que,
infelizmente acaba desembocando num Estado hiperdimensionado,
pouco eficiente, injusto e corrupto”. Bem
lembrado o caso de Geraldo Alckmin, que podia ter ganhado aquela eleição se
tivesse respondido imperativamente, a favor do livre mercado, sem titubeios.
Talvez tenha faltado aqui a Armínio ser mais
incisivo na resposta, como faltou incisão a Alckmin: esse modelo fascista
caminha para o totalitarismo político e para a destruição do Estado e da economia.
Não é brincadeira o que está em curso. Armínio foi
contido na resposta, no que lamento, porque a situação é alarmante. Ela
precisa ser revertida e só o será se pessoas como ele falarem de maneira
clara e categórica dos riscos e perigos a que a Nação está exposta. Os riscos
são de todos, deles ninguém escapa, nem o mais humilde, nem o mais rico.
Vimos o que decisões desastradas no âmbito estatal, no caso a empresa Vale do
Rio Doce, pode fazer com o Grupo Gerdau, que sofrerá competição direta do
produtor estatal, afetando participações do mercado de aço e preços do
mercado internacional do produto. Caminha-se inexoravelmente para a
estatização de tudo. Quando há
aceleração do processo histórico, em tempos fascistas e coletivistas, os
grandes grupos empresariais são os primeiros a serem engolidos. Estamos assistindo
a essa aceleração neste preciso momento. São tempos de grandes perigos e é
deles que Armínio fala em sua entrevista. |
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