|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
A DOR DOS FLAGELADOS DA CHEIA 15/01/2011 “Ô, Zeca, tu tá morando ond'é,Zeca?... Zeca Pagodinho Escrevo porque
vi agora uma foto de capa da Folha de São Paulo de hoje. A senhora Monica
Cardoso, num flagrante pungente, chora de forma dolorida e desesperançada e
no seu chorar expressa a dor de todas as perdas e o desamparo dos desvalidos
que, como ela, perderam tudo. Teve que sair de sua
casa para sobreviver. A sua dor foi o preço que pagou para sobrevivência.
Centenas de outras pessoas não tiveram a escolha e pereceram. O
fotógrafo que fez o flagrante é um artista e transformou em realidade o dizer
de que uma imagem fala mais do que mil palavras. No mesmo jornal tem a
notícia de que o governo do Estado do Rio de Janeiro tinha estudos que
alertavam para os perigos da região serrana, em situações de cheia. Portanto,
a incúria dos governantes está mais do que demonstrada. O estudo referido tem
dois anos. Nada foi feito pelos que tinham a responsabilidade de fazer alguma
coisa, de velar pela vida dos que estavam expostos e ignoravam os perigos.
Vidas interrompidas e projetos de existência foram frustrados, como o da
sofrida Monica Cardoso. São crimes infames pelos quais as autoridades
constituídas deveriam responder em juízo. Bem sei que nada será feito e tudo
será oficialmente creditado a catástrofes naturais. Sei muito
bem da dor da perda da casa de Monica Cardoso. Quando menino nossa casa
sofreu um desastre – uma viga do quarto do meu pai rompeu-se e por muito
pouco não nos matou a todos, meu pai, minha mãe, meus três irmãos e eu. Ali
eu descobri, menino de tudo ainda, o sentido da casa
– do lar – na existência das pessoas. Levamos meses para recuperar o que
perdemos, na verdade anos, ajudados por parentes dadivosos e por amigos. No
dia do evento eu soube o que é o desamparo supremo: o mesmo que vi no rosto
de Monica Cardoso vi no rosto sofrido da minha mãe. A casa era tudo que
tínhamos e nela estava tudo que tínhamos. Ao menos me
consola o fato de que nosso infortúnio não tinha como ser evitado. Mas Monica
Cardoso, não: todos sabemos que os ineptos
governantes tiveram todo tempo para agir e nada fizeram de forma preventiva.
São homicidas. Mais que homicidas, ceifadores do
futuro dos sobreviventes. Uma dor como essa é irreparável e ficará marcada de
forma indelével, para sempre, no coração dos que a sofreram. Minha
tarefa é dizer isso, que sua dor, Monica Cardoso, era evitável. Que esses
criminosos que nos governam nada fizeram para prevenir o desastre. Que eles
são culpados, mesmo que a Justiça sequer venha a se pronunciar. São culpados
diante do tribunal de nossas consciências e culpados diante de Deus e sua
culpa é imperdoável e imprescritível. Se eu pudesse eu
gostaria de ajudá-la, mas nem a conheço. Gostaria de ajudá-la como ajudaram a
mim e a minha família em nosso infortúnio. Mas nem sei onde você fica e onde vai
morar. Então lhe dedico a minha oração. Acredite, não é pouco nesses tempos
sombrios de ateísmo. E lhe dedico este artigo, o meu desabafo acusador, de
dedo em riste, diante dos grandes criminosos que são os nossos governantes. Que Deus
a proteja e guarde! |
|