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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A CRISE FINANCEIRA 23/09/2008 “Se a canoa não
virar, eu chego lá.” Emilinha Borba Se
o negócio era tão bom, porque não foi tentado antes? A velha pergunta que os caipiras do interior se faziam cabe
como uma luva para se tentar entender a maneira como o governo Bush está
tentando enfrentar a crise que se instalou nos últimos dias. A solução
aventada é uma só: estatização das perdas. Ora, se era assim tão fácil,
porque a ciência econômica e a ciência política não reconhecem como legítima
e necessária uma ação assim? Certo, o marxismo e o keynesianismo
é que propõem essas ações, mas as pessoas sensatas, no poder, ignoram-nas
enquanto podem. São os falsos ramos da ciência. Nos momentos de crise é que
esses facilitários são considerados e implementados,
em total perda da razão. A história
econômica desde o século XX tem sido esse duelo entre a racionalidade e a
suposta facilidade proposta pela estatização. A cada crise – incluindo aquela
de 1929, paradigma da crise atual – o que temos visto é o paulatino
agigantamento do Estado, pelo lado da receita, da despesa e da regulação da
vida prática. É como se nos momentos de crise a ciência perdesse relevância,
entrando em seu lugar o sonho gnóstico de que é possível a salvação nesse
mundo. Numa palavra, é como se fosse dado ao homem, usando o instrumento do
Estado, a capacidade de eliminar os riscos e os perigos da existência. O
Estado e sua enorme burocracia propõem-se a reinventar a realidade,
supostamente produzindo uma saída pela esquerda, de forma indolor. O máximo
que têm conseguido é adiar os ajustes. Há décadas
a mágica da expansão econômica impulsionada pela inflação foi apresentada
como algo normal e desejável. Os preços dos imóveis e dos ativos em geral
foram inflando, até contaminar as commodities (o preço estratosférico do
petróleo é apenas o rebento mais visível do processo). Chegado o momento do
ajuste, vez que a expansão inflacionária tem limites claros, vem a burocracia estatal propor mais do mesmo: mais inflação
em troca do adiamento e mesmo a superção indolor da
crise. É claro que não vai dar certo, não pode dar certo. Se o negócio era
tão bom, porque não foi tentado antes?
Porque é irracional e imoral a ação de salvamento. Simples assim. O problema
é que as sociedades de massas atuais estão viciadas em chamar o Estado como
se fosse uma panacéia, sempre que a situação fica crítica. O novo Baal está sempre disponível e sua burocracia fica
permanentemente produzindo fórmulas teóricas de auto-justificação,
supostamente científicas, para fazer seu próprio agigantamento. Foi assim que
adentramos ao século XXI, com as economias cobrando algo em torno de 40% do
PIB em impostos, exceto a norte-americana, que usa mais do que ninguém da
válvula do endividamento público e da emissão inflacionária para a cobertura
do déficit estatal gigantesco. A presente crise é aguda porque está impondo o
reconhecimento de que a realidade do gasto público nos EUA é muito grave e
que o atual nível de déficit é insustentável. Uma das
conseqüências inevitável da crise será a elevação dos impostos. É possível
que nos próximos anos a taxa de tributação dos EUA seja alinhada com aquela
verificada na União Européia. Obviamente
que a crise tem conseqüências reais, além daquelas verificadas na esfera
econômica. A fragilidade estratégica é uma delas. Hoje a saúde financeira dos
EUA depende da boa vontade de inimigos como a China e a Rússia, detentores de
grandes superávits em dólares. Esses países podem ser cooperativos, mas agora
depende deles o que vai acontecer. Se finanças podem ser usadas como arma de
guerra, nunca a conjuntura foi tão propícia para um conflito assim. O
Ocidente nunca se encontrou em fragilidade tão grande. Na prática,
o que se verifica é a interdependência. Uma eventual derrocada da economia
doméstica dos EUA é literalmente a derrocada do mundo. Todos perderiam. A
pergunta é: valeria a pena acabar com o reinado
estratégico dos EUA, mesmo ao preço de alguns anos de grave crise? Talvez
valha, tudo é uma questão da análise de quem sairá vencedor dessa suposta
guerra. O fato real é que algo assim tornou-se possível e bem próximo de
todos. Ninguém escaparia da catástrofe de uma derrocada econômica, com todas
as implicações e conseqüências previsíveis, inclusive no plano militar. Em
conclusão, pode-se dizer que a saída irracional das limitações da realidade
econômica – inflação e mais estatização – são simples torniquetes para
estancar hemorragias grandes. Não resolvem o problema. Torniquetes não servem
para curar a sangria de um membro amputado. É aguardar os próximos
movimentos, que os R$ 700 bilhões do Bush ainda ficaram no plano das
intenções. Tempos de grandes perigos. |
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