NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

A CRISE BANCÁRIA

04 de novembro 2008

 

Quero aqui comentar dois formidáveis episódios da vida bancária brasileira, longe de serem banais. O primeiro é a crise das operações de crédito com cláusula de correção cambial, tomadas por pequenos empresários, que estourou como um pequeno sub-prime no Brasil. O outro, claro, é a união entre o Itaú e o Unibanco, a notícia surpreendente dos últimos dias.

 

Certo, quem está na chuva é para se queimar, como diria o nosso saudoso corintiano Vicente Mateus. Deve, paga. Assinou o contrato, tem que ajoelhar e rezar. O episódio envolvendo os contratos de empréstimos com cláusula de risco cambial permite uma ampla reflexão, não apenas ética como também mercadológica. Bancos não são casa de caridade mas, como em qualquer atividade, precisam olhar direito o que fazem. A ratio de maximização de lucros e de oportunidades de mercado não é incompatível com a ética.

 

Rememoremos. As baixíssimas taxas de juros internacionais, casadas com as elevadíssimas taxas internas, geraram a oportunidade de intermediação para o sistema bancário brasileiro, a um custo atraente para os tomadores, desde que o câmbio se valorizasse ou se mantivesse estável. Este fato deu enormes lucros aos tomadores, pois a valorização do real praticamente bancava o custo da operação por largo período. Pense você, caro leitor: com títulos do Tesouro remunerando a 13,75% a.a., isso equivale a uma rentabilidade sem risco, a cada milhão de dólares, de US$ 130.759,00 ao ano, sem qualquer esforço ou trabalho exceto assinar o contrato e assumir o risco cambial. Negócio da China, como se diria antigamente, fazendo a alegria dos grandes empresários que entraram nessa antes que o ciclo de valorização cambial começasse a ocorrer.

 

Essa linha de crédito fazia muito sentido para as empresas exportadoras, que geram seus próprios dólares e assim podem bancar seu próprio risco cambial. Na prática estão isentas do risco cambial, desde que suas operações de exportações permaneçam normais. Empresas como o Grupo Votorantim, que não dependem de crédito porque historicamente são superavitários de caixa, realizaram enormes lucros no período. Portanto, as perdas recentes do ajuste cambial para elas foram mais do que compensadas pelos lucros passados e ainda são dedutíveis do Imposto de Renda. O risco foi apenas do pagador de impostos do Brasil, que carrega o ônus da dívida pública.

 

O problema aconteceu quando os bancos comercializaram o produto para pequenas empresas não exportadoras ou as empresas exportadoras tiveram mais vontade de comer do que fome, ou seja, tomaram mais recursos do que o recomendável pelo seu volume  de exportações. Especularam. Penso ter havido um problema ético aqui, pois crédito com cláusula de variação cambial é nitroglicerina, sempre. Quem viveu o apogeu das antigas Operações 63 sabe o que houve: falência de setores inteiros por causa das maxidesvalorizações sucessivas. O mecanismo do produto oferecido pelos bancos tem a mesma estrutura daquela antiga Operação, ou seja, o risco cambial é do tomador.

 

Os grandes bancos simplesmente não deveriam ter ofertado esse produto para tomadores descasados do hedge cambial. Ao fazê-lo, induziram seus clientes ao péssimo negócio que se viu. Não adianta dizer que o cliente tem a opção de não fazer. Quem sabe da relação dos bancos com os pequenos tomadores não se engana: o tomador aceita o que o gerente bancário lhe traz. Os banqueiros criaram o problema ao fazerem o varejo desse produto tóxico. Nem o Brasil, nem os banqueiros e nem os tomadores precisavam disso. Foi o jogo do perde-perde: os tomadores tomaram o prejuízo e os banqueiros agora têm um problema de crédito a resolver. E um problema de imagem junto à opinião pública. Por sorte a coisa não ganhou a proporção das antigas Operações 63, até onde se sabe.

 

Entendo que houve aqui um erro mercadológico (na verdade, técnico: oferecer o produto para o tomador incapaz) e ético, ao induzir a clientela a um risco desnecessário e além de sua capacidade. E preciso cobrar da direção desses bancos um posicionamento sobre o assunto. Está claro aqui que não se discute a relação contratual, mas a relação comercial. Esta tem que ter ética, confiança pressupõe responsabilidade bilateral. Os banqueiros sabiam que mexiam com explosivos, tanto que jamais assumem risco cambial algum, no que fazem muito bem. Por que o fabricante de piscinas da esquina deveria ser induzido a assumir esse risco tolo? Há que se meditar sobre o assunto.

 

A união do Itaú com o Unibanco é um sinal dos tempos. Talvez seja até mesmo uma necessidade, em face da competição global. O que se vê é a transformação de nossos empresários em metacapitalistas, capitalistas que cada vez mais se parecem com o Estado e dele dependem. Os bancos brasileiros fazem da intermediação da divida pública e dos negócios com o Estado, inclusive no serviço de recebimento dos impostos, a sua principal fonte de receita. São como que um cartório, um tentáculo privatizado do Estado. É como se voltassem as corporações da época do Mercantilismo.

 

Isso lhes dá muito poder e dinheiro e quase nenhuma competição. Mas gera uma fragilidade estratégica, de longo prazo: quanto mais concentrado ficar o setor, mais a classe política se perguntará para que servem bancos assim. Se são como o Estado e vivem do Estado poderiam perfeitamente ser absorvidos pelo Estado a qualquer momento.

 

A diferença fundamental entre o Estado e uma mega corporação privada é que o Estado tem armas. E leis, inexoráveis leis que podem tudo, inclusive estatizar. É esse o grande perigo da verticalização excessiva do setor no longo prazo. Qualquer sobressalto na normalidade política poderá ser o fim da linha.