NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

A CONDIÇÃO HUMANA

09 de dezembro de 2008

 

Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice”.

Jesus Cristo

 

 

Em artigo anterior fiz uma breve referência à tragédia de Sófocles, ÉDIPO REI, e quero aqui me alongar sobre o tema.  Ei-la:  Mesmo em obras mais antiga, pagãs, como ÉDIPO REI, de Sófocles, vemos essa ação exterior à vontade do homem nos acontecimentos capitais de sua própria existência. Freud cometeu um enorme erro de avaliação ao centrar sua exegese dessa obra no intercurso sexual incestuoso, realizado à revelia da vontade e mesmo do desejo enquanto tal. Se desposou Jocasta foi mais por razões de Estado do que motivado pela libido. Fugia do próprio mal que não queria praticar e acabou por ir encontrar-se com ele. Entendo que o essencial dessa tragédia acontece no caminho que se trifurca, um símbolo poderoso: ao homem é dada a possibilidade de escolher. E veremos já aqui na Grécia do século V a soberba de Édipo como o elemento essencial para determinar o assassinato do pai. Tivesse Édipo alguma humildade e a comitiva de Laio teria seguido seu caminho sem incidentes no ponto trifurcado. O motor da trama genial de Sófocles nada tem a ver com sexo, mas com soberba. E o intercurso incestuoso vem como castigo, não como algo desejado. É um espanto que toda uma psicologia tenha sido construída em cima de uma interpretação equívoca desta peça”.

 

Por que o caminho trifurcado representa um símbolo poderoso? Porque nos diz muita coisa: a encruzilhada que é a vida, a capacidade de livre arbítrio, a escolha, os dilemas existenciais que perseguem a humanidade sempre e sempre. Quanto mais velhos ficamos mais tentados ficamos a pensar o que poderia ter sido se tivéssemos feito outras escolhas. Caminhos opostos cruzaríamos, pessoas diferentes conheceríamos, situações outras seriam vivenciadas. Outros choros e outros risos, outra dores e outros prazeres. Mas o fato é que o caminho humano é sempre trifurcado e não posso deixar de sublinhar aqui a genialidade de Sófocles, que mesmo sem a Revelação pôde construir essa peça tão curta e sintética quanto sábia e portadora da realidade da alma. O caminho trifurcado é, nada mais nada menos, que o símbolo da cruz expresso de forma elegante e plena.

 

Édipo comete seu crime maior naquele ponto da encruzilhada da vida do qual não podemos escapar. O incesto vem como conseqüência e como castigo, não como desejo. Vem como maldição. A condição humana é essa, do erro, do crime, do pecado. Inescapável e inexorável e, tirante os santos ninguém pode dizer-se puro. Ou melhor, nem eles, que podem até carregar as dores do mundo, mas não podem sair da condição de pecadores. Como não lembrar o lamento de São Paulo quando escreve  (Rm 7,19): “Com efeito, não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero”?  Ou o relato do profeta Daniel, que confessava seus pecados a Deus? No famoso discurso quando da queda de Roma para Alarico, Santo Agostinho lembrou que, se até Daniel confessava os seus pecados, que dirão aqueles que não são profetas e nem santos?

 

É preciso ver a perspicácia de Sófocles na peça ao escrever que Édipo trilhava o caminho trifurcado e que não iria praticar o bem que queria, mas sim, o pecado do qual fugia desesperadamente, de matar o pai e casar-se com a mãe. Dois supremos pecados. Ele bem poderia ter escrito as palavras de São Paulo (Rm 7,20): “Ora, se não faço o que não quero, já não sou eu que estou agindo, e sim o pecado que habita em mim”. A realidade do mal que age na condição humana.

 

O sensacional do grego é ter levado aos seus contemporâneos essa realidade permanente da alma. Nisso consiste sua genialidade e é por isso que todas as gerações, desde então, têm-lhe rendido homenagem como escritor. Mesmo Freud, na sua leitura torta, também o fez.

 

O que há de menos substantivo no ÉDIPO REI é o incesto. Ele é previsto e repudiado com nojo, desde o início. Não se pode acusar Édipo de querer sexualmente a mãe, muito ao contrário. A marca do homem adulto e diferenciado é precisamente tentar fugir do pecado e repudiá-lo quando pode. Freud fez uma leitura invertida. Édipo retrata o homem adulto inclinado ao pecado, mas que dele tenta escapar.

 

Só um escritor genial para pôr na boca do coro o seguinte trecho: “

 

Estirpe humana,

o cômputo do teu viver é nulo.

Alguém já recebeu do demo um bem

não limitado a aparecer

e a declinar depois de aparecer?

És paradigma,

o teu demônio é paradigma, Édipo:

mortais não participam do divino”.

 

 

O relevante é a cruz, o caminho trifurcado. É aqui que reside o destino humano, “que sabe que o bem não mora em si” (Rm 7,18). Cada um deve carregar a cruz até o fim e imitar Cristo é precisamente abraçá-la com alegria.