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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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A CADELA DE
HITLER 03/03/2007 “Mas livrai-nos do Mal”, assim Cristo encerrou a única oração que
nos deixou. Tal afirmação, vinda da boca do Messias, é reveladora de uma
realidade transcendente que não pôde ser ignorada nem por Ele em pessoa. Essa
questão do Mal sempre me intrigou e creio que a todos que sobre ela se
debruçaram. Sobre ela tenho dedicado minhas meditações e confesso a você, meu
caro leitor, que quanto mais penso e leio sobre o assunto mais ele me escapa,
me espanta, me fascina. Não consigo me satisfazer com
a afirmação da filosofia cristã tradicional de que o Mal seria a mera
ausência do Bem. Quer me parecer que há um elemento dinâmico e ativo por trás
de tudo, assim nas suas manifestações banais como nas grandes, a exemplo do
nazismo e do comunismo. Não quero aqui reduzir em um grama que seja as
responsabilidades individuais sobre o malfeito, mas um olhar sobre a história
é sempre revelador dessas manifestações autônomas do Maligno, que encontra na
política as melhores alavancas para sua eficácia nefanda e nos políticos seus
agentes mais dedicados. É difícil separar a ação maligna individual dessa
inspiração maior na determinação da construção das maldades. É como se os
indivíduos aceitassem voluntariamente desempenhar, na esfera político-social,
papéis previamente escritos por forças maiores e incompreensíveis, de origem
transcendente. Casam-se o papel e o ator em um amálgama que, longe de reduzir
as culpas dos agentes individuais, as agrava. A metáfora do contrato fáustico é ainda a melhor maneira de descrever a culpa
confessa e sistemática do agente criminoso. A ação é sempre consciente. Venho de ler a obra de Joachim Fest sobre Hitler, a
sua biografia mais completa. Isso depois de ler o FOLHAS
DE ERVA, talvez a obra mais maligna inspirada diretamente nas regiões
infernais que um homem possa ter escrito, só comparável ao ZARATUSTRA de
Nietzsche. É um choque espiritual de grande magnitude enfrentar essas duas
obras em seqüência e o tempo que dediquei aos capítulos finais do livro de Fest me custou muitas dores na
alma. Meu comentário sobre o tema talvez seja intempestivo, mas tenho que
fazê-lo. É minha obrigação. Preciso partilhar minhas impressões, pois
realmente aqueles acontecimentos foram grandiosos,
sob qualquer ponto de vista, ficaram indelevelmente marcados na História, e
por um momento pareceu que o triunfo do Mal seria inevitável. Talvez até
tenha sido, por outros meios e outros atores, mas esse é um assunto para uma
outra digressão. A narrativa da obra de Fest é um contínuo interrogar-se sobre a complexa
psicologia de Hitler, tentando buscar as causas racionais para seu
comportamento demente. Não obstante a honestidade e a
genialidade do livro pareceu-me que o autor falhou no principal
intento, pois que não se pode deslocar a ação daquele sujeito do espírito dos
tempos e das causas que o precederam. Um amigo judeu me sugeriu que a causa
mais antiga a determinar o surgimento de Hitler teria sido a figura de
Lutero. De fato, este reformador cristão era declarado anti-semita, mas de um
tipo bem diferente de Hitler. Lutero queria converter os judeus, Hitler
exterminá-los fisicamente, havendo aqui um abismo a separar intenções e
gestos. E o único paralelo entre ambos se esgota aqui: Hitler queria destruir
os judeus, assim como os ciganos, eslavos, chineses e toda a gente, exceto aqueles que considerava arianos, algo difícil de
determinar o que é. Nada mais longe de Lutero, cuja preocupação imediata era
salvar almas, não destruir vidas. [Mais nefasta foi a ação dos comunistas, que pretendiam e ainda pretendem
exterminar os burgueses, uma definição bem mais elástica e imprecisa. Lênin
será talvez o protótipo mais acabado do revolucionário que quis instituir uma
sociedade perfeita a partir da destruição em massa de pessoas. Claro que é um
absurdo contraditório, mas será talvez nessa absurdidade que consiste o
elemento irracional a provar a inspiração transcendente da ação desses homens
demoníacos. Milhões morreram por contas dessas idéias insensatas e continuam
ainda a morrer]. Creio que a
causa do nazismo (e a do comunismo, que têm em comum o coletivismo como
suposta solução para a superação das limitações humanas) são as idéias
Iluministas, especialmente a eleição da Razão como a instância última para a
definição da ação humana, sua ética, seu Direito Natural, em substituição à
Verdade que se descobriu com a Revelação e que vinha sendo seguida até
então. Em resumo, é a modernidade filosófica a causa da manifestação do Mal
em grande escala. O assassinato de Deus decretado por Nietzsche é a causa mais
óbvia e a gênese mais imediata do nazismo. Não se pode
compreender esses movimentos políticos de massa de caráter sanguinário
sem ter em conta seu precedente filosófico, que é o seu fator determinante.
Em suma, atribuo ao abandono de Deus – a marca da modernidade – a causa
primeira e última das grandes matanças do século XX. Só Deus pode nos livrar do
Mal, é isso que nos diz Nosso Senhor Jesus Cristo em sua bela e singela
oração. Os modernos esqueceram-se da lição e passaram a sofrer as
conseqüências. A Serpente tem estado presente desde a origem e não pode ser
desprezada. Só o conhecimento e a bondade de Deus servem de antídoto. Ao
renegá-los os modernos eliminaram o único dique capaz de segurar a avalanche
do Mal. Homens como Hitler e Lênin puderam ter o caminho livre para fazer
cumprir o seu pacto com as massas insanas, que é uma cópia exata de seu pacto
com o Diabo. E a Serpente por vezes toma a forma de outros animais, como o
Cão. Na cena final do filme GODFATHER vemos Don Corleone morrer na companhia de um cachorro. Emblemático.
A companhia que sobrou a Hitler nos seus últimos tempos foi uma cadela, que
lhe antecedeu por minutos na sua marcha para a danação eterna. Não é uma mera
coincidência. Coppola não teria imaginado uma cena
mais plástica para um epílogo nazista. O animal aqui se torna um símbolo.
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