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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ATUALIDADE DO DOM QUIXOTE 15 de junho de
2010 Decidi
oferecer, no Instituto
Internacional de Ciências Sociais, aqui em São Paulo, um curso sobre o
livro de Miguel de Cervantes, Dom Quixote. O romance, que inaugurou o gênero,
está completando quatrocentos anos. O primeiro dos dois livros que compõem a
obra foi publicado em 1605 e o segundo em 1615. Com alguma justiça podemos
dizer que o ano em curso é aquele que deve celebrar a efeméride. Mas por que
estudar o velho livro? Não é apenas a beleza estilística, o humor, a
criatividade do autor que atraem na obra imorredoura. Cervantes deixou no
livro um feito inigualável para a filosofia política: a compreensão da
Segunda Realidade, aquela que presidirá o chamado mundo moderno. O conceito
de Segunda Realidade foi muito explorado por grandes romancistas do final do
século XIX e primeira metade do Século XX, com destaque para Robert Musil e Thomas Mann. Mesmo Dostoievsky utiliza-o na sua
narrativa para explicitar o real que se desenrolou na alma dos homens do seu
tempo. Dom Quixote está no cerne da obra de filósofos como Eric Voegelin e Leo Strauss. Ele é também o alicerce de toda a
obra filosófica de Ortega y Gasset. Na verdade,
todos os grandes romancistas, aqueles que fazem a crônica das entranhas da
humanidade, não podem deixar de recorrer à descoberta imorredoura de Miguel
de Cervantes. O mundo como idéia (entre nós Bruno Tolentino nos legou obra
imortal sob o mesmo prisma, em poesia) é o objeto de quem quer entender o que
se passa. Isso é a modernidade, isso é o homem moderno. E é toda a loucura da
jornada que nós próprios fazemos em nossa geração. A modernidade
é essa construção social do homem que busca, a só
tempo, a perfeição em vida, pelo uso da lei estatal, e a afirmação do homem
como ente descolado de qualquer elemento transcendente, dono de seu próprio
destino, senhor do mundo. Todas as grandes obras de arte, de uma maneira ou
de outra, relatam esse fenômeno, que contrasta com a mente dos homens que antecederam
as grandes revoluções européias. A confusão no âmbito do Estado começa na
confusão mental das pessoas individuais. Cervantes confirmou Platão. Esse é o tema
principal do curso, que consistirá também de uma leitura pública da obra,
apoiada pelos elementos biográficos de Cervantes. Tudo que de relevante foi
escrito sobre o autor e a obra, desde Unamuno e
Ortega y Gasset, passando por Harold Bloom e Mario
Vargas Llosa, orientará a leitura. Dom Quixote
não se esgota, todavia, nesse plano da filosofia política. Ele é também um
livro de iniciação, que relata a agonia do autor em busca do elemento
transcendente. Esse é um dos aspectos fundamentais da obra e aqui o uso da
psicologia junguiana é um guia útil para a
descrição de pontos obscuros e complexos dos relatos. Dom Quixote tem vários
planos de narrativas e, sem se perder, envereda por histórias singulares
aparentemente desconectadas do fluxo principal. Na edição
comemorativa do Quarto Centenário Mario Vargas Llosa escreveu um prefácio, no
qual teve a brilhante intuição de dizer que o Dom
Quixote é um romance para o século XXI. Tem toda razão, mas o peruano não
soube bem dizer o porquê dessa atualidade. Digo-lhe, caro leitor: é que o
mundo é mais moderno do que jamais foi, mais louco, mais perigoso. Só o
gigantismo da pena mágica de Cervantes para nos conduzir na compreensão das
maluquices atuais e nos fazer retornar ao real. Nisso consiste sua
atualidade; essa é a razão de eu propor o tema para o curso. De te fabula narratur!
Dom Quixote é um enigma e um destino, uma alegoria
da verdade que se esconde sob a máscara da Segunda Realidade. Ninguém que
queira encontrar-se a si mesmo pode prescindir de um mergulho sério e
sistemático na história do fidalgo herói da Mancha. |
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