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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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AMEAÇA TOTALITÁRIA 15 de setembro de 2009 “Nós assim o
compreendíamos, porque assim o queríamos compreender”. Pero Vaz de Caminha Tenho escrito
reiteradamente sobre os perigos que vejo nos tempos presentes, no que tenho
chamado de Estado Total. O Estado contemporâneo, não obstante sua aparência
democrática, e talvez até mesmo por causa dela, da democracia no estilo
proposto por Rousseau, está cada vez mais parecido com os
Estados totalitários que floresceram na primeira metade do século XX e
redundaram no nazismo e no comunismo. Veja você, caro leitor, que estamos
falando de formas democráticas que descambaram para a supressão do regime de
propriedade privada, das liberdades pessoais, do controle permanente da educação
dos jovens, mediante a estatização dos cuidados com as crianças, desde tenra
idade, a vigilância permanente sobre as pessoa. Aqui
me refiro aos países da Europa Ocidental, os EUA e Brasil. Não será
casual que as teses racistas tenham ganhado terreno, assim como aquelas que
enxergam os fenômenos pela lógica da luta de classe. As mesmas teses de
outrora, os mesmo métodos? Peguemos a
questão da propriedade privada. Pelo menos 40% do PIB (exceto os EUA, que
terão que enfrentar seus déficits proximamente mediante brutal elevação nos
impostos) está sendo recolhido na forma de impostos;
da mesma forma, a propriedade das grandes empresas, notadamente bancos nos
últimos tempos, está passado ao controle direto do Estado; a emissão de moeda
é monopólio estatal desde o final dos anos Trinta; devemos lembrar que parte
considerável da força de trabalho é composta por funcionários públicos e por
empregados de fornecedores do Estado (e por “tercerizados”),
e que a Previdência Social é estatal, assim como a Assistência Social na
maior parte dos países. Quem, de alguma forma, não se ligar economicamente ao
Estado está condenado á miséria econômica e, se cair nesta, virará cliente
automático do Estado. Se partir para a delinqüência cairá no sistema
prisional e os prisioneiros são os mais perfeitos clientes do Estado na
atualidade. Eu estou dizendo que a sociedade que está aí já é uma sociedade
totalitária, se vista pelo lado da Economia. Se olharmos
pelo lado da representação política, também. A hegemonia das forças de
esquerdas alcançou tal grau que a democracia é agora, na melhor das hipóteses,
uma comédia de mau gosto. O que se chama de “direita” na Europa não passa de
uma variação de uma facção política que não tem menor interesse em mexer nos
interesses estabelecidos, isto é, no sistema sindical e de Previdência
Social, a verdadeira fonte de poder e de legitimidade nesses países. Os
eleitores, amealhados em torno dos trabalhadores sindicalizados e dos
aposentados é que escolhem a elite governante. Nos EUA a crise trouxe à tona
a mesma realidade política que se vê na Europa e por aqui. Mesmo os políticos
nominalmente de “direita” só o são naqueles itens que não contrariam o
sistema corporativo vigente. O caso da GM foi emblemático: a empresa, há anos
controlada por sindicalista, é pagadora de vultosos salários e benefícios,
não capazes de serem cobertos por sua atividade produtiva. Na hora de quebrar,
o Tesouro lhe foi em socorro, precisamente para manter inalterados os
privilégios imorais dessa elite sindical. E o respectivo curral eleitoral. A questão dos
fundos de pensão é séria. Têm aparência de coisa privada, mas na prática não
passam de fundos gigantescos, controlados politicamente por sindicalistas,
avalizados, em última instância, pelo poder de Estado. Nos EUA, na Europa e
no Brasil. Em toda a parte. São à prova de quebra, tanto quanto os grandes
bancos e as grandes corporações. Os elos que ligam ao Tesouro esses fundos
ficaram agora bem visíveis. De novo, estamos diante de uma realidade
político-econômica típica de Estado totalitário, em que uma elite de
políticos e sindicalistas comanda a economia e as instituições, dentro de sua
lógica de guilda. A crise
econômica fez soar o alarme dos perigos que aguardam a humanidade se o poder
estabelecido for posto em xeque. No primeiro momento, valeram-se da emissão
de moeda e da estatização para manter o status quo.
Bem sabemos que o equilíbrio econômico não pode jamais ser obtido por essa
via, pois seria admitir a abolição das leis econômicas, algo deveras
estúpido. Então penso que os bailouts e os rescues apenas adiaram o enfrentamento que precisará
ocorrer: como tornar sã uma sociedade que ficou gravemente doente? Como
escapar à Segunda Realidade que foi criada pelo agigantamento do Estado,
literalmente caindo no real? A
falha na administração da superação da crise pelos métodos ditos keynesianos poderá colocar a atual elite dirigente diante
da tentação totalitária. Será o esgotamento da Terceira Via e, com ela, a
ameaça do totalitarismo. Ainda outra vez. As forças da
Terceira Via estão usando a última carta na manga para superar a crise
sistêmica: a construção do Governo Mundial. Claro, é uma falsa solução, na
verdade, o caminho do agravamento. E da destruição da liberdade. É um atalho
para o totalitarismo em escala planetária. A “fuga para a
frente” do delírio político mais maluco. O mundo está sob uma ameaça
equivalente àquela que viveu sob Hitler e Stalin, só que a ameaça agora tem
nomes mais populares, como Obama e Lula e os atuais
governantes europeus. Eu realmente estou preocupado com o futuro imediato,
porque não enxergo nenhuma alternativa política a essa gente que está no
poder. Então é
preciso ter uma resposta teórica adequada à ameaça totalitária que paira
sobre o mundo, até para se poder construir um caminho alternativo ao
totalitarismo. Um mundo são terá que resgatar os
valores do liberalismo clássico, mas este só pôde vigorar plenamente enquanto
a mentalidade vigente era a moral cristã. O que vimos ao longo do século XX
foi a destruição paulatina dessa moral, de tal forma
que só mesmo uma contra-revolução conservadora, em termos cristãos, terá
força para enfrentar o poder de destruição que se aproxima. Filósofos
importantes debruçaram-se sobre o que houve na primeira metade do século XX,
para entender a tempestade totalitária que assolou o mundo. Ortega y Gasset deu algumas respostas, na verdade foi uma espécie
de profeta do Apocalipse ao publicar, em 1930, seu famoso livro A REBELIÃO
DAS MASSAS. Nesta obra ele via que as massas estupidificadas estavam sem
condutores, elas que tomaram os freios nos dentes e
elegeram os piores para o governo (ou chegaram ao poder por golpe de
Estado). O monstro estatal, detentor das modernas técnicas, foi colocado a
serviço do apetite mais feroz das massas. O morticínio foi imenso. Depois da
guerra tivermos várias obras analisando o fenômeno. De um lado, o famoso
livro de Karl Popper – A SOCIEDADE ABERTA E SEUS INIMIGOS – que atribuiu nada
menos ao platonismo a responsabilidade pelos acontecidos. Essa vertente,
embora largamente difundida, é claramente uma explicação ligeira e
falsificada, que coloca Platão e mesmo Aristóteles como fundadores do historicismo. Sim, Popper acertou em ligar a tragédia ao historicismo, mas cometeu um erro colossal em enxergar
suas raízes na filosofia clássica. A via política liberal, seguidora de
Popper, bastou-se com essa explicação e baixou a guarda no campo político, de
forma que, na segunda metade do século XX a chamada Terceira Via (ou o
marxismo ocidental) pôde ocupar todos os espaços e refazer desde dentro a sua
revolução, sem ameaçar diretamente a ordem do mercado e os poderes
constituídos. O processo de estatização foi lento, gradual e seguro. Os
liberais viram cada uma das suas fortalezas doutrinárias e institucionais
serem tomadas pelos inimigos da civilização sem reagir, pois as aparências
enganosas da estabilidade estavam mantidas, de forma deliberada, pelos
inimigos. A outra linha
teórica de explicação da origem do totalitarismo vem da dupla de filósofos
germânicos Voegelin e Strauss, fugidos do nazismo e
estabelecidos nos EUA. Quero aqui sublinhar a obra deste último, DIREITO
NATURAL E HISTÓRIA, que acabou de ser traduzida em Portugal por Miguel Morgado. Neste livro Strauss mostrou que o monstro
totalitário nasceu de um outro grego, Epicuro, que é justamente o filósofo que moldou a
modernidade e enterrou a tradição clássica. Não apenas o Direito, mas a
filosofia política, foram tomados pelo epicurismo.
Não casualmente Marx fará a sua tese de douramento sobre o pai do
utilitarismo. Para Strauss,
Epicuro, o filósofo da “felicidade”, é uma variante
dos sofistas e ao analisar sua influência concluiu: “A aparência de justiça combinada com a injustiça efetiva conduziria ao auge da felicidade... Para ser rigoros,
o auge da felicidade (para Epicuro) é a vida do
tirano, do homem que conseguiu cometer o maior de todos os crimes ao
subordinar a cidade como um todo ao seu bem particular, e que se pode dar ao ao luxo de abandonar a aparência de justiça ou de
legalidade”. Epicuro é o pai
do totalitarismo e o avô de Maquiavel. Strauss vai
mostrar que a superação das loucuras da modernidade só poderá acontecer pelo
resgate do Direito Natural, basicamente o resgate de Platão e Aristóteles.
Fica mais do que evidente que o livro de Popper, apesar de sua retórica
envolvente, é pura tolice filosófica. Popper provavelmente morreu sem se dar
conta das besteiras que escreveu, levando legião de leitores a mal
compreender os fatos e, ao assim fazer, objetivamente ajudando os inimigos da
civilização a tomarem todos os espaços de poder. O primeiro
passo para combater a ameaça totalitária é ter uma correta teoria
sobre a realidade política. |
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