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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ANOS DE FREUD 07/05/2006 Pode-se
questionar a obra de Freud de muitas formas, a começar pela discutível
obtenção de resultados terapêuticos da psicanálise aplicada, pelos métodos de
pesquisa que não resistem a um exame poperiano,
pelo reducionismo absurdo à questão da sexualidade enquanto gênese do “mal-estar da civilização”. Endosso
todas essas críticas. Pode-se inclusive alargá-las na abordagem que ele fez
do problema das religiões, algo inaceitável sob todos os aspectos, errada. Ele tem,
todavia grandes méritos. Além do notável escritor, Freud contribuiu
decisivamente para a ciência da psicologia, trazendo-a para o centro dos
debates. Entendo que Freud, o freudismo e as diversas psicologias dele derivadas refletem uma necessidade dos tempos. Freud foi a resposta da razão aos problemas da unilateralidade que o
Ego alcançou com a modernidade, especialmente na sua dimensão filosófica. Com
o trio Descarte, Kant e Nietzsche o Ego foi elevado ao centro criador da
própria realidade, assassinando-se Deus no processo. No âmbito da ciência, as
conquistas da astronomia, da física, da matemática e a teoria da evolução em
biologia pareciam dar a certeza de que a mente era o centro de tudo e que a
“hipótese de Deus” era uma relíquia bárbara de povos incultos. Destruiu-se
assim a metafísica, todo o saber acumulado por milênios por homens
extraordinários foi declarado falso. O Filho do
Homem passou a ser o demiurgo solitário a comandar a própria realidade, a
literalmente criá-la. O despertar de cada dia passou a ser uma recriação
contínua das coisas na cabeça desses homens arrogantes, para quem o Universo
era mental. Penso, logo tudo existe foi o reducionismo
absurdo contra o qual Freud sublevou-se. Do suposto Universo mental adveio o
relativismo moral, a falsificação do direto natural, a contra-cultura
da Nova Era, o relativismo do próprio saber. Afinal, o saber científico é,
por definição, provisório e destinado a ser superado. E, pior, surgiu o
projeto de aperfeiçoar a natureza humana pela engenharia social, de triste e
macabra memória. A sua
abordagem propondo levar a sério a interpretação dos sonhos, à moda do Antigo
Testamento, fez desmoronar as certezas todas. O Filho do Homem, por Freud,
descobriu que não era senhor de sua própria casa, que havia uma falha
essencial ao alcance da observação direta de cada um, que ninguém havia
levado em conta entre os modernos: o inconsciente. Mas Freud o postula
tentando manter uma abordagem racionalista e cientificista e não notou que
lutava precisamente contra essa unilateralidade dos tempos modernos. A
palavra inconsciente (ou subconsciente, o que é ainda pior) é, ela mesma, uma forma de depreciar o desconhecido mais
conhecido de todas os tempos, o elemento transcendente. Freud “descobriu” que boa parte da nossa vida
é passada a dormir e os processos psíquicos continuam nesse estágio da vida,
a despeito da morte aparente do Ego, que ressurge ao despertar. Provocou uma
revolução epistemológica. Mas há uma
segunda coisa importante na obra de Freud. Ele descobriu que o Ego inflado
precisava de terapia, que o filho do Homem estava mentalmente doente e era
uma doença de toda a civilização. Também pudera, com
a inflação desmedida a equipará-lo a Deus, fez-se necessário que alguém de
gênio viesse dizer que havia algo escuro, elementar, irracional sobre o qual
se assentava o Ego, de um lado, e, do outro, que havia a necessidade de se
buscar um equilíbrio, uma ordem psíquica e que, para tal, o demiurgo
orgulhoso deveria fazer uma confissão das suas faltas, deitar-se frágil no
divã, entregar a alma – o Ego ele mesmo – a outrem para trazê-la de volta à
realidade. Deitar-se no divã equivale a uma genuflexão dos tempos medievos no
confessionário. É preciso dizer que Freud foi sensacional nesse intento e nos
legou um caminho para a prática da mais difícil das virtudes, a humildade.
Desde então as cabeças coroadas, os homens de ciência, as personalidades
célebres tiveram um meio de descer de suas falsas alturas e enfrentar a
pequeneza própria dos seres criados, sem necessitar fazer o sacrifício de
entrar em um templo religioso. Mas foi um
homem do seu tempo, tentando falar em linguagem científica para os
cientistas. Vivia-se a plena ditadura dos laboratórios. A metafísica havia
sido suplantada pela física, morreu. Filósofos haviam se rebaixado à condição
de epistemólogos dos pesquisadores, especialmente dos físicos. Seu grande
mérito não foi maior porque, voltando aos tempos dos profetas com as suas
interpretações de sonhos, desconheceu o que é sabedoria imemorial, que esse é
um dos caminhos pelo qual o Criador “conversa” com a criatura. Seu
materialismo, seu desprezo ao religioso, seu repúdio ao judaísmo e às
religiões em geral mostram a mais viva contradição que um homem de gênio
poderia enfrentar. Deve ter sofrido muito, pois o abismo em que viveu deve
ter sido insuportável. Ele fez o diagnóstico, apontou a falha essencial,
soube retornar nos próprios passos da humanidade em
busca do caminho. Mas, infelizmente, ficou prisioneiro dos preconceitos do
seu tempo, que ajudou a combater, em paradoxo formidável. Hoje é um dia
especial. Que Deus o tenha. |
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