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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ONDE EU ESTAVA 10/09/2006 Em 11 de
setembro de 2001, pouco depois das 9:00 da manhã
desci as escadas do escritório da livraria que administrava no Shopping Market Place, em São Paulo.
Passei pelo aparelho de TV, ligado, e um funcionário me chamou a atenção para
as imagens então exibidas, de um avião que acabara de se chocar (na verdade,
penetrar) em uma das torres gêmeas de Nova York. Exclamei: “- Mas que piloto ‘barbeiro”, só poderia ser um teco-teco”.
Ledo engano. Pedi um café e fiquei a ver as imagens quando, inesperadamente,
o segundo avião colidiu com a segunda torre. Dei-me conta de que estava
diante de um fato histórico sobranceiro, sensacional. Fui testemunha ocular
dos atentados em tempo real, mesmo situado a milhares de quilômetros de
distância. Foi um dia
de infâmia para a humanidade e, claro, especialmente para os EUA, apenas
comparável ao ataque a Pearl Harbour,
em 1941. Aquilo me enojou de um tanto que me doía nos dias que se seguiram a
demora da reação do governo norte-americano, que sensatamente esperou reunir
provas para não responsabilizar inocentes. Tenho lido
muitas críticas negativas, à direita e à esquerda, às reações do governo
liderado por George W. Bush aos atentados. Pois eu penso o contrário. Se critico Bush o faço por entender que sua reação foi
moderada, em face da ousadia e da covardia dos atentados, em face do grande
número de inocentes mortos. Fez o certo com os talebans
do Afeganistão e com a gang de Saddam Husssein, no
Iraque, livrando seu povo da ditadura sanguinária. Só acho que vacilou no
enfrentamento da ditadura xiita da Pérsia. Teria que ter sido feito esforço
equivalente para livrar aquele simpático país da gang sacerdotal que o
controla. Por não tê-lo feito no tempo certo hoje o mundo
se depara com a possibilidade de um governo de gangsteres, enriquecido pelas
altas dos preços do petróleo, dominar a tecnologia de explosão nuclear e a de
vetores de lançamento, armas de valor apocalíptico e que farão do feito de Osama Bin Laden
um filminho de terror da seção das tardes de domingo exibido para crianças
menores. A vida do
Ocidente mudou para pior, e de forma permanente. Viajar transformou-se em um
transtorno. Eu, que tanto admiro os EUA, me recuso a me submeter ao ritual de
obtenção de vistos para fazer turismo àquele país. Mas viagens são apenas um
dos pontos de um rosário de problemas práticos que a longa mão do terror
islâmico impôs ao Ocidente. Qualquer ajuntamento de pessoas pode ser um alvo,
tanto na Europa quanto nos EUA. Vimos o que houve na Espanha, na França, na Rússia,
na Inglaterra. A Europa dorme e acorda sobressaltada com a possibilidade de
um ataque terrorista em grande escala. É uma questão de tempo que o mesmo
aconteça. Entendo
que estamos vivendo mesmo a tal guerra de civilizações. O mundo islâmico
recusa o modo de vida do Ocidente, que é visivelmente superior ao seu. Aqui
há liberdade, que consiste precisamente na liberdade que usufruem nossas
mulheres para realizarem suas potencialidades, sejam profissionais, sejam
acadêmicas, sejam familiares ou de qualquer natureza. O Islã não pode tolerar
essa liberdade, pois vampiriza suas energias da
escravidão, sobretudo da feminina. Essa é a fonte de todo o ódio, agravado
pelo sentimento de inferioridade em relação à tecnologia ocidental, à
prosperidade ocidental e – por derradeiro e não menos importante – ao sucesso
militar e social do Estado de Israel. O Ocidente
está condenado não apenas a conviver com o terrorismo, mas também com a
necessidade de combatê-lo, sobretudo em seu próprio terreno, que são os
Estados facínoras que lhe financiam e lhe dão os meios técnicos e
operacionais para alcançarem seus objetivos. Gostemos ou não, o Ocidente como
um todo foi tornado alvo e quando falo Ocidente refiro-me a todos os países
caudatários da civilização cristã. Estamos em guerra e, como qualquer guerra,
terá um vencedor. Parece-me evidente que o Ocidente haverá de triunfar, ainda
uma vez, como tem feito com o Islã desde a Guerra da Reconquista. ------------------------------------------------------------------------------ CHORANDO POR TI, AMÉRICA 11/09/2001 Escrevo
sob o impacto da emoção. Quão terrível é ver toneladas e mais toneladas de
concreto desabarem, em chamas, sobre um sem número
de homens e mulheres; quão estúpida é uma ação que, se não tem resultados
políticos nulos, colhem resultados negativos; o mal está em todo lugar, até
no interior das organizações mais poderosas, de nada valendo aparatos
militares caríssimos e sofisticados contra aqueles que desistiram de viver e
partem para vinganças irracionais. Terrível, terrível, mil vezes terrível!
Malditos os que matam inocentes sem aviso prévio, sem chances de defesa. Que
a ira da Grande Nação do Norte cobre o preço do sangue derramado! Pouco
importa quem são os autores do atentado. Duvido que uma ação dessa envergadura
tenha partido exclusivamente de fora dos EUA. Nem aqueles malucos
destruidores de estátuas indefesas de Budas
poderiam realizar um feito tão espetacular quanto colocar por terra o World Trade Center
e atingir o Pentágono. Uma coisa é destruir uma estátua desprotegida no meio
do deserto, com a qual ninguém se importa; outra, atingir grandes símbolos
norte-americanos, protegido por todos os lados, no coração urbano da América.
Coordenar ações militares dentro dos EUA, mobilizar recursos técnicos aeronáuticos,
surpreender todo o aparato de segurança em pouco espaço de tempo é tarefa
demasiado complexa para quem é de fora, com treinamento militar limitado. É
precipitada, portanto, qualquer conclusão sem provas, qualquer retaliação
apressada. Lembremo-nos de Oklahoma. O terrorista executado ainda está quente
em sua tumba. A
estupidez é tamanha que nenhuma palavra é capaz de sintetizar a repulsa e
nojo de quem viu o acontecido. A sensação de impotência diante da morte, da
execução pura e simples das pessoas, coloca-nos uma grande interrogação sobre
o sentido da vida. É o horror puro e simples, o Inferno na Terra. Resta
apenas rezar pelos mortos, ainda que uma breve singela oração. Que o Senhor
Deus dos Exércitos se apiede da alma dos morreram e também dos criminosos,
que não podem ficar impunes. "Minha será a vingança, eu é que
retribuirei": são palavras divinas que jamais devemos esquecer,
muito menos os praticantes de crimes hediondos. ORAÇÃO AOS MORTOS 08/09/2002 O primeiro
aniversário dos atentados de 11 de setembro me leva a pensar
nos que morreram, nos milhares de inocentes que pereceram pelo fogo e
pelo esmagamento, no mais infame ataque terrorista em muitas décadas. Foram vítimas da maldade humana, a mais nefanda. Qualquer
razão cala diante desse holocausto. Qualquer palavra fora do lugar rompe a sacralidade da sua memória. Que Deus os tenha! Considero
uma ofensa à memória dos mortos artigos como o de Octávio Frias Filho,
publicado na última quinta feira na “Folha de São Paulo” (“Depois de um
ano”), que procura dar uma visão minimalista dos acontecimentos, como se
aquela hecatombe não tivesse tido maior importância histórica. É uma visão
errada. Da mesma forma, mais ofensivas ainda são as declarações de Susan Sontag, em sua entrevista dada à “Folha de São Paulo” e
publicada ontem. A entrevistada, além de desrespeitar os compatriotas mortos,
denigre as autoridades que têm sob a sua responsabilidade prevenir para que
tais eventos não aconteçam novamente. Igualmente, artigos como o de Noam
Chomsky, publicado hoje em “O Globo” (“Lições não aprendidas de 11 de
setembro”) enxovalham a memória dos que morreram por
pura cegueira ideológica. Acho até
que há um novo critério para definir quem é de esquerda: os que comemoram a
façanha macabra dos terroristas como algo bom e heróico, contrapostos aos que
consideram os atentados atos de suprema covardia. Na
mesma lógica, de esquerda são aqueles que pensam como se os atentados
tivessem sido culpa exclusiva dos EUA, e não o que de fato foram,
uma ação infame e traiçoeira. A execução dos milhares de inocentes foi, para
os arautos das esquerdas, uma espécie de suicídio, algo realmente
inaceitável, contrário à realidade dos fatos. Que lições
tirar daqueles tristes acontecimentos? Em primeiro lugar, eles revelam que
estamos longe do Fim da História, como alguns teóricos mais apressados
tentaram definir. Há uma ebulição no
mundo, que compreende dois pólos. De um lado, a luta entre o que,
grosso modo, chama-se de direta e de esquerda. Não podemos esquecer que, para
além do Islã, vemos a apropriação da civilização muçulmana pelo
marxismo-leninismo. É a revolução comunista em marcha sob os homens de
turbante. Em segundo
lugar, a luta entre as civilizações. Não adianta esconder o problema real: os
crentes de Alá não toleram o Ocidente e tudo que é ocidental. Eles estão
movendo uma guerra de vida e de morte contra a nossa civilização, que é
também uma guerra de conquista. Essa luta, todavia, não poderá ser ganha
apenas no plano militar. Trazer as civilizações muçulmanas de seu estágio
tribal para o avanço civilizacional alcançado no
Ocidente será tarefa que envolverá a questão religiosa. De alguma maneira o
caráter evangelizador do Cristianismo, em cada uma das suas ramificações,
terá que ser retomado, como forma de contrapor um padrão superior às
populações cujos costumes estão paralisados desde o século VII
. Enquanto isso não ocorrer, choques civilizacionais
acontecerão de maneira inevitável e uma vitória final será impossível. E que me
perdoem os admiradores do Islã: o mundo judaico-cristão conseguiu fazer
realizações e construir uma ética de
convivência dentro da tolerância incomparavelmente superior à intolerância
que vemos nas sociedades corânicas. O abismo só tende
a crescer. Questões fundamentais, para nós e para eles, como o papel feminino
na sociedade, colocam uma barreira abissal na convivência pacífica entre os
povos. A
sociedade aberta, o triunfo da liberdade individual, é a obra máxima do
Ocidente; o obscurantismo, ao contrário, tem sido a marca dos países regidos
pelo Corão. Não
adianta ter ilusão. Os países islâmicos só não movem a
guerra mais letal contra o Ocidente porque não dispõem dos meios operacionais
para isso. Israel e os EUA hesitam até o último instante em usar meios de
destruição de massa contra seus inimigos. Estes, no entanto, não hesitariam
um único segundo se deles dispusessem. É uma questão de tempo que artefatos
nucleares rústicos, que alguns desses países dispõem, sejam explodidos contra
alvos ocidentais. Será esse o momento da guerra total. Então é
preciso concluir que os acontecimentos de 11 de setembro marcaram uma época:
revelaram que o Ocidente não está a
salvo dos bárbaros além fronteira. Isso impõe novas
doutrinas militares, novas formas de fazer a guerra e nova forma de fazer a
diplomacia. Vivemos os tempos de horror total, da impiedade mais absurda.
Viveremos nos próximos decênios o desenrolar de uma avalanche de
acontecimentos que, em ondas, serão propagados a partir do epicentro de 11 de
setembro. Os mortos
cobram a responsabilidade dos vivos, assim como as gerações futuras cobrarão
a responsabilidade de quem hoje tem o poder de decisão e de formação de
opinião. Não há como se colocar à parte, omissões não serão toleradas. Quem é
ocidental e sabe que a sua civilização tem algo a contribuir com o mundo, tem
que fazer a sua parte. Aqueles que, mesmo nascido no Ocidente e aqui vivendo,
se não abraçarem a sua raiz, deverão ser visto como inimigos, o que de fato
são. POBREZA E TERRORISMO 09/10/2001 O megaburocrata James D. Wolfensohn,
presidente do Banco Mundial, publicou na Folha de São Paulo de hoje (09/10)
artigo intitulado “Pobreza merece coalizão mundial”. Sempre que burocratas,
grandes e pequenos, falam em pobreza, é preciso ter cuidado com a carteira.
Quase sempre eles estão mesmo é preocupados com o
seu poder e a sua influência. Pobreza é um mero instrumento de afirmação do seu próprio poder e um ótimo instrumento de discurso
legitimador. Daí porque sempre enxergarem que a superação da pobreza é tarefa
do poder público, ou seja, deles mesmos, e não do mercado e da ação de cada
indivíduo. Se governos e seus burocratas fossem eficazes contra a pobreza,
esta há muito teria sido erradicada do planeta. A realidade mostra que isso é
simplesmente falso. Mas eu
falava do artigo do burocratão. Considero espúria e
completamente falsa a associação entre pobreza e terrorismo. Essa tese é um
eco das teorias marxistas, que vêem na questão econômica a razão e o motivo
dos fenômenos políticos. Isso também é falso. E mais falso ainda é associar o
niilismo moral, que se traduz no terrorismo, à miséria de quem quer que seja. A prova
mais óbvia de que o terrorismo não se alimenta da miséria está no fato de que
os chamados países ricos sofrem do flagelo do terrorismo desde sempre. Quem
não se lembra de McVeigh nos EUA, ou do IRA na Irlanda e Grã Bretanha, ou do ETA na Espanha e
os mais antigos movimentos, como as Brigadas Vermelhas na Itália e o grupo Baader-Meihoff na Alemanha? E dos recentes atentados no
metrô de Tóquio? Essas evidências simplesmente nos revelam que não se
sustenta a tese da miséria como causa etiológica do
terror, uma vez que ele está em todo lugar, é bem distribuído por todo o
mundo. Então qual
é a raiz do terrorismo? Em primeiro lugar, a degenerescência moral de
indivíduos inescrupulosos, que fazem qualquer coisa para estar no centro do
poder. É esse fascínio que está na raiz de tudo e mostra que os ensinamentos
milenares das tradições religiosas enfraqueceram para aquelas pessoas,
eliminando qualquer sombra das virtudes superiores. Em segundo lugar, a
pregação das teorias revolucionárias, que prometem o paraíso na terra (e no
céu, no caso dos muçulmanos) aos que se engajarem na sua violência política.
E aqui está claro: os manuais marxista-leninistas são a
base teórica e o instrumento de doutrinação da juventude, o catecismo
para a formação dos futuros terroristas. Em terceiro lugar, o fanatismo
religioso, mais das vezes combinado com a pregação marxista-leninista, cujo
propósito é arregimentar militantes para algum lunático aventureiro, a la Lênin, que se proponha a tomar o poder pela força,
atropelando o próprio destino. Aqui tradição e religião não passam de meros
discursos para a elaboração de apelos emocionais, de grande ressonância em
populações onde há homogeneidade de uma tradição e um enraizado
conservadorismo. Vendo as
poéticas e tristes fotos publicadas na mesma edição da Folha de São Paulo,
dos afegãos em fuga, com seus burricos carregados com suas mulheres e seus
pertences, fica difícil imaginá-los jogando bombas em Nova York. Até mesmo o
conceito de riqueza muda para essas pessoas: talvez se traduza no seu pequeno
rebanho, nas suas poucas terras, na fartura de mesa para si e para os seus
nos tempos do rigoroso inverno. Sim, o conceito de riqueza é também relativo
e depende de cada cultura. O homem do burrico certamente se sentiria infeliz
vivendo em alguma mansão de na Europa e no EUA, mas certamente estaria muito
feliz fazendo a sua própria colheita e cuidando do seu pequeno rebanho,
sentindo-se um homem rico. Da mesma forma, para torná-lo um terrorista é
preciso, antes, cortá-lo de suas raízes. Propor uma
coalizão mundial contra a pobreza é mera retórica
vazia de burocrata arrumando o que fazer. Só se combate a miséria com
trabalho organizado, sem a ingerência de governos e burocratas, que são uma
praga a devorar os recursos duramente produzidos pelas pessoas. São
verdadeiros parasitas. A ação do Estado e da burocracia só diminui a riqueza,
jamais contribuindo para aumentá-la. É óbvio que o burocrata-mor jamais
reconheceria essa verdade auto-evidente. E claro que a ação dos burocratas
tem efeitos nulos sobre as causas reais do terrorismo BIN LADEM NÃO É O CONSELHEIRO 11/10/2001 Um dos
comentários mais mendazes que li sobre Osama Bin Ladem está na Folha de São
Paulo de hoje (11/10), escrito por Márcio Aith
("Cabul e Canudos evocam luta do bem contra o mal"). Esse autor
tenta traçar um paralelo entre Bin Ladem e o nosso Antônio Conselheiro, personagem central
do nosso infausto Canudos. E por que
não procede o paralelo? Por que em Canudos houve uma
guerra civil, se é que podemos chamar assim. Foi um conjunto de mal entendidos
de parte a parte que deu na grande tragédia. Tudo que o Conselheiro e seus
adeptos queriam era viver em paz a sua vidinha camponesa, paroquial, mas quis
o destino que as coisas dessem no que deu. Canudos era um fim-de-mundo
esquecido e seus habitantes jamais quiseram agredir ninguém, desde que lhes
deixassem em paz e respeitassem a sua crença. E, em hipótese alguma, alguém
poderia colocar sobre ele a pecha de terrorista. Já o
saudita é o oposto de tudo isso. Tem o projeto de estabelecer um Estado
islâmico mundial; tem força e determinação para combater a própria
civilização ocidental. Não obstante ser oriundo de um fim-de-mundo
é, paradoxalmente, um globalista, que tenta
construir um império. E ele acredita que o terror é uma arma que deve ser usada
em todos os lugares e por todos os meios, sem qualquer restrição moral. O
Conselheiro e seu povo apenas defenderam-se quando invadiram o seu pequeno
mundo. Osama Bin Ladem, ao contrário, agrediu sensacionalmente o coração
da América, em um ato covarde planejado com muita antecedência, usando de
conhecimentos militares requintados que o povo de Canudos nunca teve. Um ato
de guerra. Esse é um
exemplo de comentário que busca equiparar os diferentes. Todos
sabemos que a epopéia de Canudos é algo que os brasileiros vêem com
muita simpatia e piedade. Será que o autor tenta produzir esse efeito para os
terroristas muçulmanos junto à opinião pública? Espero que não, pois seria de
uma indignidade sem tamanho. Espero que o texto tenha sido apenas um
equivoco. O INIMIGO DE WALL STREET 12/10/2001 Para quem
gosta de escrever artigos definir o título é um momento importante do
processo. Eu às vezes faço-o e depois deixo fluir o texto. Quase nunca tenho
que mudá-lo. Às vezes, faço o texto e depois defino o título. E, mais raro,
faço o texto, defino um título provisório e fico me roendo, insatisfeito,
pois acho que poderia ser melhor, mais fiel ao texto. Para as
linhas que abaixo foram escritas, o título que ficou definido foi uma das
muitas possibilidades que me ocorreram. Pensei em "O Mentiroso";
outro foi "Uma Ode ao deus-Estado"; outro foi "O Estatista"; Outro, "O Lucrofóbico";
Outro, ainda, "O Bin Laden
da Economia". Por último, "Um Candidato ao Prêmio IgNobel". Os leitores
podem, à sua escolha, substituir o que está acima por um desses, porque,
penso, até que todos refletem, em maior ou menor proporção, a idéia central
deste comentário. Refiro-me
ao artigo publicado na Folha de São Paulo de hoje (12/10), da lavra do recém
ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz.
O título do artigo é mais do que sugestivo: "EUA têm de rechaçar
fundamentalismo de mercado". Havia muito tempo que eu não lia algo de um
economista de renome tão anti-mercado e tão pró estatista. É claro que para conseguir essa proeza ele
teve que cometer grandes absurdos de lógica e falsificar a verdade dos fatos. Fundamentalismo
de mercado: é como se dissesse que as explosões dos aviões que fizeram
desaparecer o World Trade
Center tivessem como causa primeira a sociedade
capitalista, a própria vítima, no caso. E que Bin Ladem fosse uma agente da transformação social, um gajo
vingador das forças submersas dos estatistas. A luta de vida e de morte que travam os partidários da livre
iniciativa e os socialistas (essa é a palavra técnica para definir a posição
política de Stiglitz) teve na eleição de Bush um
instante vitorioso para os primeiros, ficando os segundos na cômoda posição
de franco-atiradores contra a nova estrutura de poder. Stiglitz, todavia, e não obstante o laurel obtido, no curto artigo
conjuga um amontoado de bobagens, dignas de ganhadores do IgNobel. Começa com uma pérola impagável: "Há
um sentimento crescente de que talvez nos tenhamos equivocado ao dar ênfase
demais aos interesses materiais egoístas, esquecendo um pouco de
compartilhar". O autor não percebe e não quer perceber que as empresas
capitalistas só o que fazem é compartilhar, que as trocas do livre mercado são a essência do compartilhamento da produção social e
que sem esse compartilhamento as empresas simplesmente quebram. Se o distinto
consumidor se recusar a compartilhar a produção de alguma empresa, uma abraço, é caixão e vela preta para ela, quebra. Basta
ver o dramático exemplo que está a acontecer com a indústria de aviação civil
e com o setor hoteleiro nos EUA. Sem compartilhar é quebrar. O consumidor tem
o poder de vida e de morte sobre as empresas. Para elas, compartilhar é
sobreviver. O que o
distinto IgNobel entende
por compartilhar é que aqueles que trabalham, dão duro e coisa e tal devem
pagar mais impostos para que burocratas com Stiglitz
possam gastá-los de acordo com os seus preconceitos. Isso é na verdade uma
injustiça, castiga quem faz a sua parte no processo
e premia aqueles que não querem nada com o batente (menos) e os burocratas
intermediários das benesses do Estado (mais). O homem
bate duro contra a privatização da segurança dos aeroportos, acusando-a,
entre outras coisas, de ser culpada pelos atentados dos terroristas
muçulmanos. Nas suas palavra: "Não faz sentido privatizar uma área de
vitral interesse público como a segurança dos aeroportos. Os baixos salários
pagos aos agentes privados de segurança geraram grandes lucros. Linhas aéreas
e aeroportos ganharam, a curto prazo, mas tanto elas
quanto o povo dos Estados Unidos terminaram perdendo – e muito – como hoje
sabemos, horrorizados". Vamos
analisar a citação por partes. 1- Afirma que os atentados e suas dramáticas conseqüência para a indústria de aviação
civil foram causados pela privatização da segurança dos aeroportos; 2- Os
baixos salários são também um elemento etiológico da tragédia, tendo como
vítima os infelizes trabalhadores que os ganham; 3- Os grande lucros também
são os culpados, agentes ativos que beneficiam os desalmados capitalistas; e
4- O povo americano foi a vítima inocente desse processo de privatização. Até a
pequena Maria, minha filha de quatro anos, sabe que a luta contra o terror é
difícil e que esse se vale sempre e sempre do elemento surpresa, de difícil
prevenção. Foi isso que aconteceu, numa ação muito bem planejada, com muito
tempo de antecedência, que ninguém e, sobretudo os órgãos de Estado, a quem
caberia antecipar-se, pôde prever. A responsabilidade sobre os acontecidos é,
antes, da CIA, do FBI e das forças de inteligência como um todo, não dos
coitados dos seguranças dos aeroportos, que cumpriram à risca as
determinações emanadas do Estado, supostamente capazes de prevenir ações do
tipo. Se houve falha, foi do Estado e não das empresas privadas de segurança.
E até acho que não houve falha, os EUA estavam vivendo em paz, sem ameaça
ostensiva e dentro de uma relativa segurança, mas isso não retira a falta de
antecipação e de planejamento dos órgãos de inteligência do Estado, que são
pagos para isso. Fosse eu um funcionário das empresas de segurança dos
aeroportos, entraria na Justiça contra Stiglitz,
por calúnia e difamação. O homem é, de fato, um mentiroso. Ora, dizer
que há baixos salários é como se fosse uma arbitrariedade das empresas praticá-los, e não uma realidade de mercado. Salários não
podem ser descolados da sua produtividade. Por definição, sem a interferência
do governo e dos sindicatos os salários praticados refletem o seu valor. É
provável que a taxa de salários vigente nesse mercado fosse compatível com a
necessidade de manter as tarifas dos bilhetes aéreos a um preço razoável,
permitindo a prosperidade de toda a indústria, significando o bem-estar dos
consumidores usuários desse serviço. O sujeito que escreve uma opinião dessa, com um diploma de economista laureado, só pode ser
considerado um agente da mais pura má fé, pois supostamente não é um
ignorante. Que diabos tem a ver os supostos baixos salários com a vontade
criminosa da terroristas? Simplesmente nada. Falar dos
lucros das empresas é apenas a expressão verbal do preconceito com que essa
grandeza econômica é tratada pelos socialistas. É uma acusação gratuita,
típica de engajados na guerra gramsciana de
desinformação. Também nada tem a ver com o ímpeto homicida dos terroristas. Americanos vítima da privatização? A realidade é exatamente o contrário. São, os americanos, o povo do mundo que melhor se
beneficia da falta de presença do Estado na produção de bens e serviços. Stiglitz está tão obcecado com seu ódio ao mercado que
não enxerga o óbvio: que os americanos foram vítima da vontade criminosa de
tresloucados, que foram fazer a guerra em pleno solo americano. Essa é a
causa primeira e derradeira do processo, todo o resto são quimeras das
cabeças espumantes do ódio de classe. É o mesmo que dizer que o ataque dos
japoneses na Segunda Guerra teve como causa a privatização de algum serviço.
Só um doido varrido para fazer uma afirmação dessa. Ele faz
uma pausa para escrever alguns parágrafos contra os chamados "paraísos
fiscais". Tudo que burocratas estatistas como Stiglitz querem é garrotear a livre circulação de
capitais pelo mundo, objetivando taxar os seus ganhos, o seu estoque
(confiscá-los com algum tributo sobre a riqueza) e definir a sua alocação.
Querem a implantação do socialismo mundial. Nem vou discutir essas sandices,
que são tão óbvias que não pagam o tempo. Fica o recado aqui que criminosos
são os banqueiros e investidores de Wall Street, que só pensam naquilo, ou seja, no lucro e
reduzem o Estado, prejudicando a segurança. O homem é, de fato, um lucrofóbico, com a licenaça do
neologismo. Na
seqüência ele acusa uma outra ação de privatização nos EUA, para uma empresa
que faz enriquecimento de urânio (United States Enrichment Corporation – Usec). Nas entrelinha deixa
claro que se algum artefato atômico explodir pela mão dos loucos de Alá será
responsabilidade dessa empresa privada. Ele afirma: "Como pôde o governo
levar adiante essa privatização absurda sob qualquer ponto de vista? Ainda
que a ideologia da privatização seja parte do motivo, os interesses
financeiros influenciaram o caso: a empresa de Wall
Street encarregada da privatização pressionou e
lucrou, muito". Alguém pode imaginar crime maior que esse, lucrar muito? Penso que
nem os mais xiitas dos economistas do PT produziriam um artigo tão absurdo,
tão cego em relação aos fatos e tão ideológico, no pior sentido da expressão.
Uma verdadeira peça de propaganda socialista. O artigo
do homem é, de fato, ignóbil, no sentido dado pelos dicionários de língua
portuguesa à palavra. Alguns deles, a escolher: 1- Baixo, vil, desprezível;
2-Que não tem honra, vergonhoso, torpe; 3- Que
possui pouco ou nenhum valor. Acho que qualquer das
definições dão muito bem a medida do conteúdo do texto. SOBRE A QUESTÃO PALESTINA 06/11/2001 "Pensem nas crianças, mudas, telepáticas..."
(Vinícius de Moraes). Tive a
oportunidade de rever a trilogia do filme The Godfather, de Coppola, que
acabou de sair em DVD, aproveitando o último feriado do Dia de Finados. É
sempre um prazer renovado e uma redescoberta ver essa fita, uma obra-prima.
Quero aqui sublinhar uma cena das mais emocionantes, quando Vitor Corleone (Marlon Brando) manda
reunir todos os chefes de famiglias e propõe a paz
dos bravos. Acabara de ter um filho cruelmente assassinado e renunciou à
vingança, não porque fosse fraco e tivesse perdido o ímpeto guerreiro, mas
porque queria proteger o filho mais novo. Um gesto de grandeza do qual só os
fortes são capazes. Esse linda imagem me veio a propósito dos conflitos do Oriente Médio.
Quantas fotos de crianças trucidadas de parte a parte, quanto horror, quanta
violência insana e inútil temos visto na imprensa nacional e internacional.
Poderíamos dizer aos líderes políticos: Pensem nas
crianças, mudas, telepáticas, como escreveu Vinícius de Moraes a propósito da
bomba de Hiroshima. Será menos letal um canhão, um fuzil, um homem-bomba
explodindo criancinhas indefesas? Não, para os que morrem. Para os que
sobrevivem, só resta a mudez diante dos atos nefandos. O artigo
publicado por Edward Said na Folha de São Paulo em 05/11 ("Crise mostra
importância da questão palestina") é uma peça tocante. Faz uma análise,
com agudeza e sensibilidade, do conflito árabe-israelense, do ponto de vista
de um engajado que procura se distanciar do conflito para enxergá-lo melhor. Critica duramente os líderes políticos de ambos os lados, os que
acreditam na violência, critica os países ocidentais por apoiarem
incondicionalmente Israel, especialmente os EUA, mas critica também os árabes
e a estrutura da sociedade palestina, seu sistema educacional, sua pobreza,
seu abandono, a reunião de todos os elementos para o obscurecimento da razão
e, como conseqüência, a geração de agentes terroristas. Clama por uma
paz honrosa para os palestinos e para os judeus, exorta as lideranças a pôr
fim ao morticínio e também às seqüelas da guerras,
muito mais duras para seu povo por causa da pobreza e por falta de apoio
internacional. Em um
ponto preciso concordar com ele: sem um apoio internacional amplo, liderado
pelos EUA, não é possível haver paz. Mas para construir esse apoio, algumas
condições têm que ser preenchidas. 1- A liderança das
diversas facções palestinas precisam renunciar aos meios violentos
para tomar terras e estabelecer um Estado. Esse caminho já se mostrou
inviável, fracassou. O movimento terrorista pode causar mortes e dor, mas não
pode vencer a guerra contra Israel e seus aliados. Sem aceitar a sua fraqueza
relativa, a inviabilidade do movimento de força, não será possível dar o
primeiro passo em direção à paz; 2- Israel precisa ser flexível com a
expansão das colônias e aceitar um Estado palestino em termos razoáveis para
ambos os lados. Nada que ameace Israel, mas que também não humilhe os
palestinos, que não seja um Estado de faz-de-conta; 3- Que os países árabes
percam o caráter intolerante e beligerante contra os judeus e o Ocidente. A
retórica guerreira não leva a lugar algum e, de uma
vez por todas, é preciso aceitar que não podem derrotar militarmente Israel e
seus aliados ocidentais. É preciso criar as condições para uma coexistência
pacífica, com respeito recíproco; e 4- É preciso uma
campanha internacional para a reconstrução da Palestina, a fim de erradicar o
mais rápido possível a miséria e o desemprego da juventude, que modernize o
sistema educacional, que torne possível o aggiornamento
de toda a região. É
necessário criar a paz dos fortes e o primeiro passo é a renúncia à vingança
pelo sangue derramado, pois só assim as crianças, símbolos das novas gerações
de ambos os lados, serão protegidas do horror e da morte. Enquanto houver o
ativismo intolerante dos terroristas do lado palestino não é possível exigir
que o Estado judeu tenha um comportamento diferente do que tem tido, pois ele
tem a obrigação moral de proteger os seus. É preciso
ter a grandeza de um forte de verdade para renunciar à força, para renunciar
à vingança, para perdoar os inimigos. Fora disso será a perpetuação dos
atentados inúteis, seguidos das inevitáveis retaliações. Os líderes do terror
devem, primeiro, pensar nas suas crianças. Não
haverá nenhum futuro em meio à violência. A lição
dada pela obra-prima de Coppola deve servir para
que todos nós meditemos sobre a paz. BIN LADEN VENCEDOR? 02/12/2001 Um balanço
dos atentados de 11 de setembro e da retaliação da aliança ocidental contra
os terroristas mostra que Bin Laden
e seu grupo perderam feio. A destruição da estrutura de poder do Taleban e da sua rede terrorista já está praticamente
consumada. E, para piorar as coisas, os demais países que apoiavam o
terrorismo islâmico não mais deverão se arriscar a cutucar a onça com vara
curta, ou seja, Bin Laden
não tem nem para onde correr. Só lhe resta se entregar ou morrer. Sua derrota
é total e irreversível. Entendo
que a maior derrota do terrorista saudita é de outra ordem, todavia. Os
atentados de 11 de setembro foram um marco na
psicologia do governo e do povo dos Estados Unidos da América, que desde a
Guerra do Vietnã vinham carregando um complexo de culpa que lhes tolhiam a
capacidade de reação às inúmeras agressões que vinham sofrendo. A gravidade e
a grandiosidade do 11 de setembro uniram Estado e
Nação, como há muito não se via. É de se salientar que essa união contra o
inimigo não retirou os limites morais impostos a si próprio
pelos EUA: travaram a guerra com serenidade e proporcionalidade dos
meios, empreendendo um amplo esforço diplomático entre as nações árabes e
ocidentais, deixando claro que não era nem uma guerra de conquista e nem
contra o povo afegão. Do ponto de vista moral, a ação militar até agora não
merece retoque algum. A derrota
é ainda mais significativa porque as imagens chocantes dos atentados
impuseram apoio imediato das potências européias aos EUA. Com esse apoio, a
sua ação pôde ser mais eficaz e legítima aos olhos do mundo. Uma
análise do papel da mídia na cobertura do episódio levará à conclusão de que
a cobertura – aliada à natureza dos acontecimentos – provocou um choque
emocional tão profundo que selou a sorte dos agressores, aos cimentar a solidariedade
dos cidadãos americanos e da opinião pública mundial. Ao contrário do que
seria de se esperar, os acontecimentos chocantes levaram os meios de
comunicação a desempenhar um papel que talvez tenha um paralelo apenas com
aquele desempenhado durante a Segunda Guerra. Digo isso
a propósito do artigo publicado – o terceiro sobre o qual me debruço – por
Umberto Eco na Folha de São Paulo de hoje ( "Mídia foi o melhor aliado
de Bin Laden"). A
começar pelo título, o artigo é um equívoco do começo ao fim. Analisando os
artigos anteriores, pude sublinhar que o autor responsabilizava a vítima
pelos ataques e que não queria enxergar o choque de civilizações tão bem
expresso pelos atos terroristas. Embora
enfocando o problema por outro ângulo, Eco novamente erra na sua análise,
porque julga Bin Landen
vitorioso pelo simples fato de ver a sua obra hedionda ser noticiada em
destaque por todos os meios de comunicação. Afirma ele que "cada ato
terrorista (e essa é uma história conhecida) tem como objetivo divulgar uma
mensagem", comparando os atos do saudita com os das Brigadas Vermelhas.
Erra duas vezes. Primeiro porque a simples exibição não é, em si, vitória ou
derrota, podendo ser uma ou outra, dependendo do impacto emocional que causar
e dos efeitos por ele provocados. Vimos nos parágrafos acima que nesse caso o
atacante sofreu uma derrota instantânea, ao unir o povo americano e também os
seus aliados em todos os continentes. Em segundo lugar, o tipo de terrorismo
praticado não se compara com o terrorismo tradicional, no interior de um
Estado, objetivando a tomada de poder. Bin Laden não queria fazer o sucessor de George W. Bush, ele
queria simplesmente matar o maior número possível de "infiéis" e da
forma mais espetacular possível. Isso muda tudo. Esses
erros de análise levaram Eco a uma conclusão ridícula, a de que "a mídia
deu a Bin Laden
publicidade gratuita no valor de bilhões de dólares". Simplesmente essa
conclusão é absurda, pois o que a mídia fez foi construir a vontade política
dos cidadãos e dos chefes de Estado do Ocidente para mobilizar uma máquina de
guerra que iria destruir os sonhos de uma hegemonia islâmica dos lunáticos,
em especial de Bin Laden. Só alguém
completamente descolado da realidade objetiva para imaginar que Bin Laden colheu alguma vitória
nesse embate. Ou então cheio de más intenções. Não sei em que caso
classificar o indigitado autor. LIÇÕES DA GUERRA 03/04/2002 Um dos
comentários mais brilhantes e corretos que li sobre a guerra em curso no
Afeganistão foi publicado pelo professor Mendo
Castro Enriques no jornal Euronotícias
e que também está disponível no site do professor Ricardo Bergamini
(www.rberga.hpg.ig.com.br). É uma aguda percepção psicológica das
contradições que residem na alma do Ocidente diante do Outro e diante da
guerra. Dois pontos ele levanta que são da maior relevância: a necessidade de
o Ocidente encontrar-se a si mesmo e a ambigüidade ocidental diante do
conflito. Comecemos pelo primeiro ponto. "Enquanto
procura Bin Laden nos
montes e vales do Afeganistão, é importante que o Ocidente se encontre a si
mesmo. Se o não fizer, qualquer vitória no terreno acabará abafada pelas
ambigüidades da missão ocidental", afirma corretamente o professor Mendo. Encontrar-se
a si mesmo: sim, é essa a essência. Mas não é mesmo essa a missão por
excelência de um cristão, de um ocidental? O professor Mendo
reforça ainda uma vez a sua tese: "Os problemas estratégicos da campanha
militar no Afeganistão mostram à saciedade que não existirá uma solução ‘lá
fora’ para o mal-estar ‘cá dentro’. Apanhar OBL não eliminará milhares de
outros terroristas. Quando os Talibãs forem
expulsos, a Loya Jirga do
Afeganistão dificilmente porá fim a uma guerra civil já com vinte anos.
Enquanto Afeganistão e Cachemira não tiverem paz, é
impossível que Paquistão e Índia se entendam; e mesmo que tudo corresse bem
no Oceano Índico, lá estariam os vizinhos de Israel a ulcerarem um mundo que
assenta no petróleo bem octanado do Golfo
Pérsico". Essa
intuição do ilustre professor da Universidade Católica Portuguesa leva-nos a
algo das lições essenciais da nossa tradição. O encontrar-se a si mesmo é a
busca solitária de cada um dos indivíduos, idéia que andou meio perdida nos
dois últimos séculos. As guerras vividas, por exemplo, no século XX, embora
acabassem sendo a expressão da vitória dos valores ocidentais contra o perigo
ameaçador, levaram não ao reforçar da tradição e dos valores superiores, mas
justamente ao contrário: nunca a degenerescência dos valores e dos costumes,
a descrença generalizada, a negação do Deus dos nosso
pais foi tão forte. Um
paradoxo: enquanto a sociedade ocidental se enriquecia, enquanto chegava no seu apogeu de poder, as suas bases mais profundas foram
minadas de dentro para fora. A força vital do Ocidente enfraqueceu,
permitindo que todo tipo de patologia moral e psíquica brotasse, advindo daí
a invasão das culturas exóticas, que tanto encanto causou em nosso meio, em
prejuízo do que temos de mais sagrado. Penso que
a guerra em curso poderá reverter esse processo. Encontrar-se a si mesmo
significará um olhar crítico ao espelho em busca do próprio rosto.
Significará um aumento da coesão interna entre os povos do Ocidente. Poderá
significar também um remédio contra as desordens psíquicas tão visíveis em
vastas parcelas da população, expressas inclusive na sua dimensão política,
em partidos que são a expressão acabada da negação dos valores ocidentais e
que eventualmente estão no poder. Encontrar-se
a si mesmo significará a busca da essência religiosa, não aquela
que fez da Igreja de Cristo numa paródia do palácio de César, não aquela
pregada nos púlpitos de sacerdotes vestidos de vermelhos da cabeça aos pés.
Mas, sim, um voltar-se para o requinte das coisas da
espirituais trazidas pelo Cristianismo. De novo a Verdade deverá ser expressada por toda a gente. A outra
intuição do professor Mendo não é menos valiosa: "Ora,
a guerra do Afeganistão foi até agora uma campanha de ambigüidades. Num
cenário clássico, os governos fariam propaganda para justificar esforços
militares. Na operação ‘Liberdade Duradoura’, a campanha militar serve uma
propaganda para consumo doméstico e para intimidação moderada de aliados
duvidosos... Esta ambigüidade é característica do novo imperialismo relutante
americano, tão perigoso quanto o velho imperialismo britânico: afinal o
Afeganistão está a ser bombardeado, e as conseqüências destabilisadoras
na região circunvizinha são evidentes. E enquanto se amontoam os escombros em
Cabul e Candahar, fica a pergunta: qual é a missão?" Pergunta
impertinente essa: qual é a missão? O autor responde com muita maestria:
"Ora, a guerra contra o terror é uma guerra cultural em que cada
sociedade tem que contar consigo mesma e acreditar que os valores políticos, económicos e culturais do humanismo universal são
superiores porque são os únicos capazes de se auto-corrigirem. Para isso, é
preciso paciência, razoabilidade, coragem e justiça e todas as demais
virtudes que carecem de tempo e firmeza para darem fruto. Para isso, é
preciso acabar com as ambigüidades.. A verdade é
que, na guerra cultural em curso, a superioridade dos valores ocidentais
assenta na capacidade de se auto-criticar e de se aperfeiçoar. Esse, creio
eu, é o nosso fundamentalismo, que nos permite discernir o bom e o mau nas nossas
sociedades. A missão, creio eu, é não o perdermos de vista. Acabar com
as ambigüidades não é apenas construir a unidade de propósitos de todo o
Ocidente. É acreditar que a guerra em curso é não apenas uma guerra defensiva
e inevitável, que não foi buscada, mas que veio, e que do
lado de cá das trincheiras se encontra o elemento civilizador que
poderá inclusive beneficiar quem está do lado de lá. É acreditar na justiça
da campanha militar, dada não apenas pelo seu caráter defensivo, mas porque
os soldados carregam na ponta de suas baionetas a certeza de que estão a
fazer a pacificação, que do contrário só se estabelecerá pela vitória do caos
e do retrocesso, representados pelo revanchismo dos adversários. Sim, o
Ocidente tem consciência de sua superioridade tecnológica e militar e tem
também a grandeza moral de não executar uma guerra em larga escala, que
redundaria fatalmente no extermínio puro e simples de quem está lá. Nossos
valores e nossa consciência não permitiriam isso. É preciso vencer, separando
claramente aqueles que são agentes da agressão e membros da estrutura
política agressora, de todo o povo. O Ocidente não quis a guerra e não que
cristianizar o islã. Mas tem o dever de vencer e de exportar aquilo que é
neutro do ponto de vista cultural e que poderá ajudar os muçulmanos, sem
prejuízo de sua fé, ao necessário aggiornamento,
com o propósito definido de colocar aquelas sociedades no mesmo pé de
igualdade que o nosso. Numa palavra, torná-las democráticas, como foi
possível com o Japão, com os nazistas e, porque não dizer, com os países da
Cortina de Ferro. Sem
ambigüidades: que venha a vitória e que a consciência do Ocidente realize a
sua missão mais que nobre, nessa guerra justa. Que triunfe o nosso
fundamentalismo: é essa a missão. ROMA E MECA 07/04/2002 Um certo Sr. Garçon, residente em Minas
Gerais, fez algumas observações equivocadas sobre os meus escritos dos
últimos dias, enfocando a temática do Oriente Médio, tendo-as recebido
através de um amigo mineiro. Tomo as observações como mote porque elas
espelham a ignorância que grassa em meio à intelectuária
ocidental, mormente aqui na terra de Santa Cruz. E a palavra intelectuária aqui tem o sentido atribuído pelo mestre
Meira Penna, que a cunhou: aqueles pseudos que usam da arte de escrever para propagar
mentiras e se colocar a serviço das causas mais demoníacas e assassinas,
vinculadas aos movimentos de revolucionários de inspiração marxista. O Sr. Garçon conseguiu, em poucas linhas, resumir toda a ignorância
que passa por conhecimento de História, especialmente naqueles capítulos que
enfocam o Cristianismo. E não apenas a ignorância, mas a
rejeição à nossa tradição, à formidável herança da qual hoje usufruímos,
seja em termos de consciência moral, seja em termos de liberdades políticas,
seja em termos de presença no mundo. Sim, há uma hierarquia de culturas, por
mais que os politicamente corretos venham a negar e, sem dúvida alguma, o
Cristianismo é um dos cumes éticos da conquista do espírito humano. Por menos
que gostem os Garçons e tutti quanti. Até mesmo os ideais esquerdista são projeções mal feitas dos
fundamentos sociais da herança judaico-cristã. Eles não existiriam se Cristo
não tivesse andado pela Terra. Taxa-me de
fundamentalista cristão, o que de fato sou. Não no sentido pejorativo que ele
atribui à expressão, mas no sentido de que os fundamentos da minha psique –
da minha alma – são cristãos. Orgulho-me da minha tradição, da conquista
ética e humanista que ele construiu e acredito piamente que há um Deus e que
Cristo veio ao Mundo para fazer a remissão dos pecados e para permitir a
ressurreição dos mortos. Orgulho-me de passar a meus filhos a crença no Deus
dos nossos pais. Há dois milênios de história cristã
e pelo menos mais um milênio de história judaica anterior, da qual o Ocidente
é o legítimo legatário. Isso sem falar da tradição clássica, da qual o
cristianismo é também tributário. Garçon escreveu: “Falar que o islamismo é
eminentemente imperialista e expansionista em contraposição a um
ocidente acolhedor e tolerante é esquecer e ignorar a nossa história. Difícil olhar para o
próprio espelho? Quem deflagrou as Cruzadas? O que foi a Inquisição por
acaso? Quem abençoou a colonização da América e genocídio nela praticado?
Quem atestou a ausência de alma entre os africanos escravizados? Nas duas
guerras mundiais o "Deus" cristão estava do lado de quase todas as
potências assassinas. Aliás, que religião professavam os executores do
holocausto? "Seja o que Deus quiser", disse o piloto do Enola Gay depois despejar a bomba atômica em Hiroshima”. Ora, é claro que no passado as sociedades cristãs (e não o
Cristianismo) praticaram o imperialismo. Mas o fizeram exatamente porque
essas sociedades ainda não estavam suficientemente cristianizadas. Houve uma
ampliação contínua da consciência
cristã ao longo dos séculos no Ocidente, a custa de muito sangue e muitas
lágrimas. A história dos cristãos está recheada de martírios. Se foi assim no passado, não é mais no presente. Falar das
Cruzadas e da Inquisição em pleno século XXI para tachar o Cristianismo de
imperialista é de uma falta de senso espantosa, é uma mentira travestida de
explicação histórica. Garçon esquece que uma das
maiores conquistas da Humanidade foi a separação
entre a Igreja e o Estado – entre a esfera política e religiosa - algo que só
ocorreu no Ocidente, ao custo de muitas vidas. O Islamismo, seu ídolo no
momento, está muito longe disso. Os Estados islâmicos são, em regra,
teocráticos. Estão ainda nos tempos das Cruzadas, nos dois sentidos: estão
vivendo uma espécie de Idade Média e fazendo algo equivalente às Cruzadas,
através da Jihad que está em curso. Não podemos
esquecer jamais dos nefandos acontecimentos de 11 de setembro! Quanto à
Segunda Guerra Mundial, não foi uma guerra entre cristãos. Foi um combate
entre cristãos e pagãos. Hitler e seus aliados professavam o ressurgir do
paganismo, do deus Wotan/Dionísio, e tinham como
objetivo último precisamente erradicar o Cristianismo da face da Terra. E o
cristianismo venceu. A Luz venceu as Trevas. Recomendo a leitura dos ensaios
de Jung sobre o assunto; são bastante elucidativos. Leia também o romance Dr.
Fausto, de Thomas Mann, um fantático relato dos
acontecimentos alemães pela ótica da arte literária. O Holocauto
judaico não pode ser atribuído aos cristãos, isso seria uma falsificação
histórica, uma infâmia. Aliás, foram os cristãos que impediram que aquela
obra hedionda tivesse prosseguimento e patrocinaram a criação do Estado de
Israel, onde os judeus puderam ter finalmente a sua sonhada unidade política. Quanto à
conquista da América, Garçon chama a isso de
genocídio. Eu a chamo de empreendimento civilizador. Os europeus trouxeram
para a América o requinte da civilização, permitindo assim que as comunidades
neolíticas que viviam aqui, praticando formas variadas de genocídio,
inclusive com a prática de sacrifícios humanos e antropofagia, pulasse diretamente para a modernidade européia. Só olhos
preconceituosos e engajados em enlamear o glorioso passado dos ibéricos aqui
no Hemisfério Ocidental, ao arrepio da verdade dos fatos, para falar
besteiras nessa proporção. E não
podemos esquecer que foram os ibéricos que fizeram a Reconquista, expulsando
na ponta da lança os imperialistas muçulmanos que invadiram a Europa. Lutaram
e venceram e, desde então, houve o triunfo da Civilização Ocidental. O fato
de terem sido derrotados – seja militarmente, seja no campo científico, seja
no campo filosófico – não torna os muçulmanos menos imperialistas e mais
simpáticos. Infelizmente,
o Ocidente padece do que eu chamaria da estultícia dos compassivos. A compassividade só é virtuosa de acompanhada do respectivo
senso de proporção, fundado na realidade dos fatos. Não é possível ser
compassivo com terroristas que não têm nenhum apego à vida humana, que
praticam o suicídio com o único propósito de matar (vide o 11 de setembro!),
que são movidos pelo ódio mais cruel, que não se detêm diante de nada, que
seqüestram, que matam, que se acobertam da escuridão
para perpetrar os atos mais ignominiosos. Tudo isso em nome da suposta
recompensa eterna, nos luxurioso braços das muitas
virgens. É preciso
lembrar que em Roma foram autorizados a construção e o funcionamento de
mesquitas, que são respeitadas. Isso jamais seria autorizado em Meca, onde
sequer os crentes cristãos podem pisar. Quem são os intolerantes? Quem são os
imperialistas? |
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