NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

ONDE EU ESTAVA

10/09/2006

 

Em 11 de setembro de 2001, pouco depois das 9:00 da manhã desci as escadas do escritório da livraria que administrava no Shopping Market Place, em São Paulo. Passei pelo aparelho de TV, ligado, e um funcionário me chamou a atenção para as imagens então exibidas, de um avião que acabara de se chocar (na verdade, penetrar) em uma das torres gêmeas de Nova York. Exclamei: “- Mas que piloto ‘barbeiro”, só poderia ser um teco-teco”. Ledo engano. Pedi um café e fiquei a ver as imagens quando, inesperadamente, o segundo avião colidiu com a segunda torre. Dei-me conta de que estava diante de um fato histórico sobranceiro, sensacional. Fui testemunha ocular dos atentados em tempo real, mesmo situado a milhares de quilômetros de distância.

 

Foi um dia de infâmia para a humanidade e, claro, especialmente para os EUA, apenas comparável ao ataque a Pearl Harbour, em 1941. Aquilo me enojou de um tanto que me doía nos dias que se seguiram a demora da reação do governo norte-americano, que sensatamente esperou reunir provas para não responsabilizar inocentes.

 

Tenho lido muitas críticas negativas, à direita e à esquerda, às reações do governo liderado por George W. Bush aos atentados. Pois eu penso o contrário. Se critico Bush o faço por entender que sua reação foi moderada, em face da ousadia e da covardia dos atentados, em face do grande número de inocentes mortos. Fez o certo com os talebans do Afeganistão e com a gang de Saddam Husssein, no Iraque, livrando seu povo da ditadura sanguinária. Só acho que vacilou no enfrentamento da ditadura xiita da Pérsia. Teria que ter sido feito esforço equivalente para livrar aquele simpático país da gang sacerdotal que o controla. Por não tê-lo feito no tempo certo hoje o mundo se depara com a possibilidade de um governo de gangsteres, enriquecido pelas altas dos preços do petróleo, dominar a tecnologia de explosão nuclear e a de vetores de lançamento, armas de valor apocalíptico e que farão do feito de Osama Bin Laden um filminho de terror da seção das tardes de domingo exibido para crianças menores.

 

A vida do Ocidente mudou para pior, e de forma permanente. Viajar transformou-se em um transtorno. Eu, que tanto admiro os EUA, me recuso a me submeter ao ritual de obtenção de vistos para fazer turismo àquele país. Mas viagens são apenas um dos pontos de um rosário de problemas práticos que a longa mão do terror islâmico impôs ao Ocidente. Qualquer ajuntamento de pessoas pode ser um alvo, tanto na Europa quanto nos EUA. Vimos o que houve na Espanha, na França, na Rússia, na Inglaterra. A Europa dorme e acorda sobressaltada com a possibilidade de um ataque terrorista em grande escala. É uma questão de tempo que o mesmo aconteça.

 

Entendo que estamos vivendo mesmo a tal guerra de civilizações. O mundo islâmico recusa o modo de vida do Ocidente, que é visivelmente superior ao seu. Aqui há liberdade, que consiste precisamente na liberdade que usufruem nossas mulheres para realizarem suas potencialidades, sejam profissionais, sejam acadêmicas, sejam familiares ou de qualquer natureza. O Islã não pode tolerar essa liberdade, pois vampiriza suas energias da escravidão, sobretudo da feminina. Essa é a fonte de todo o ódio, agravado pelo sentimento de inferioridade em relação à tecnologia ocidental, à prosperidade ocidental e – por derradeiro e não menos importante – ao sucesso militar e social do Estado de Israel.

 

O Ocidente está condenado não apenas a conviver com o terrorismo, mas também com a necessidade de combatê-lo, sobretudo em seu próprio terreno, que são os Estados facínoras que lhe financiam e lhe dão os meios técnicos e operacionais para alcançarem seus objetivos. Gostemos ou não, o Ocidente como um todo foi tornado alvo e quando falo Ocidente refiro-me a todos os países caudatários da civilização cristã. Estamos em guerra e, como qualquer guerra, terá um vencedor. Parece-me evidente que o Ocidente haverá de triunfar, ainda uma vez, como tem feito com o Islã desde a Guerra da Reconquista.

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CHORANDO POR TI, AMÉRICA

11/09/2001

 

Escrevo sob o impacto da emoção. Quão terrível é ver toneladas e mais toneladas de concreto desabarem, em chamas, sobre um sem número de homens e mulheres; quão estúpida é uma ação que, se não tem resultados políticos nulos, colhem resultados negativos; o mal está em todo lugar, até no interior das organizações mais poderosas, de nada valendo aparatos militares caríssimos e sofisticados contra aqueles que desistiram de viver e partem para vinganças irracionais. Terrível, terrível, mil vezes terrível! Malditos os que matam inocentes sem aviso prévio, sem chances de defesa. Que a ira da Grande Nação do Norte cobre o preço do sangue derramado!

 

Pouco importa quem são os autores do atentado. Duvido que uma ação dessa envergadura tenha partido exclusivamente de fora dos EUA. Nem aqueles malucos destruidores de estátuas indefesas de Budas poderiam realizar um feito tão espetacular quanto colocar por terra o World Trade Center e atingir o Pentágono. Uma coisa é destruir uma estátua desprotegida no meio do deserto, com a qual ninguém se importa; outra, atingir grandes símbolos norte-americanos, protegido por todos os lados, no coração urbano da América. Coordenar ações militares dentro dos EUA, mobilizar recursos técnicos aeronáuticos, surpreender todo o aparato de segurança em pouco espaço de tempo é tarefa demasiado complexa para quem é de fora, com treinamento militar limitado.

 

É precipitada, portanto, qualquer conclusão sem provas, qualquer retaliação apressada. Lembremo-nos de Oklahoma. O terrorista executado ainda está quente em sua tumba.

 

A estupidez é tamanha que nenhuma palavra é capaz de sintetizar a repulsa e nojo de quem viu o acontecido. A sensação de impotência diante da morte, da execução pura e simples das pessoas, coloca-nos uma grande interrogação sobre o sentido da vida. É o horror puro e simples, o Inferno na Terra.

 

Resta apenas rezar pelos mortos, ainda que uma breve singela oração. Que o Senhor Deus dos Exércitos se apiede da alma dos morreram e também dos criminosos, que não podem ficar impunes. "Minha será a vingança, eu é que retribuirei": são palavras divinas que jamais devemos esquecer, muito menos os praticantes de crimes hediondos.

 

 

ORAÇÃO AOS MORTOS

08/09/2002

 

O primeiro aniversário dos atentados de 11 de setembro me leva a pensar nos que morreram, nos milhares de inocentes que pereceram pelo fogo e pelo esmagamento, no mais infame ataque terrorista em muitas décadas. Foram vítimas da maldade humana, a mais nefanda. Qualquer razão cala diante desse holocausto. Qualquer palavra fora do lugar rompe a sacralidade da sua memória. Que Deus os tenha!

 

Considero uma ofensa à memória dos mortos artigos como o de Octávio Frias Filho, publicado na última quinta feira na “Folha de São Paulo” (“Depois de um ano”), que procura dar uma visão minimalista dos acontecimentos, como se aquela hecatombe não tivesse tido maior importância histórica. É uma visão errada. Da mesma forma, mais ofensivas ainda são as declarações de Susan Sontag, em sua entrevista dada à “Folha de São Paulo” e publicada ontem. A entrevistada, além de desrespeitar os compatriotas mortos, denigre as autoridades que têm sob a sua responsabilidade prevenir para que tais eventos não aconteçam novamente. Igualmente, artigos como o de Noam Chomsky, publicado hoje em “O Globo” (“Lições não aprendidas de 11 de setembro”) enxovalham a memória dos que morreram por pura cegueira ideológica.

 

Acho até que há um novo critério para definir quem é de esquerda: os que comemoram a façanha macabra dos terroristas como algo bom e heróico, contrapostos aos que consideram os atentados atos de suprema covardia. Na mesma lógica, de esquerda são aqueles que pensam como se os atentados tivessem sido culpa exclusiva dos EUA, e não o que de fato foram, uma ação infame e traiçoeira. A execução dos milhares de inocentes foi, para os arautos das esquerdas, uma espécie de suicídio, algo realmente inaceitável, contrário à realidade dos fatos.

 

Que lições tirar daqueles tristes acontecimentos? Em primeiro lugar, eles revelam que estamos longe do Fim da História, como alguns teóricos mais apressados tentaram definir. Há uma ebulição no  mundo, que compreende dois pólos. De um lado, a luta entre o que, grosso modo, chama-se de direta e de esquerda. Não podemos esquecer que, para além do Islã, vemos a apropriação da civilização muçulmana pelo marxismo-leninismo. É a revolução comunista em marcha sob os homens de turbante.

 

Em segundo lugar, a luta entre as civilizações. Não adianta esconder o problema real: os crentes de Alá não toleram o Ocidente e tudo que é ocidental. Eles estão movendo uma guerra de vida e de morte contra a nossa civilização, que é também uma guerra de conquista. Essa luta, todavia, não poderá ser ganha apenas no plano militar. Trazer as civilizações muçulmanas de seu estágio tribal para o avanço civilizacional alcançado no Ocidente será tarefa que envolverá a questão religiosa. De alguma maneira o caráter evangelizador do Cristianismo, em cada uma das suas ramificações, terá que ser retomado, como forma de contrapor um padrão superior às populações cujos costumes estão paralisados desde o século VII . Enquanto isso não ocorrer, choques civilizacionais acontecerão de maneira inevitável e uma vitória final será impossível.

 

E que me perdoem os admiradores do Islã: o mundo judaico-cristão conseguiu fazer realizações  e construir uma ética de convivência dentro da tolerância incomparavelmente superior à intolerância que vemos nas sociedades corânicas. O abismo só tende a crescer. Questões fundamentais, para nós e para eles, como o papel feminino na sociedade, colocam uma barreira abissal na convivência pacífica entre os povos.

 

A sociedade aberta, o triunfo da liberdade individual, é a obra máxima do Ocidente; o obscurantismo, ao contrário, tem sido a marca dos países regidos pelo Corão.

 

Não adianta ter ilusão. Os países islâmicos só não movem a guerra mais letal contra o Ocidente porque não dispõem dos meios operacionais para isso. Israel e os EUA hesitam até o último instante em usar meios de destruição de massa contra seus inimigos. Estes, no entanto, não hesitariam um único segundo se deles dispusessem. É uma questão de tempo que artefatos nucleares rústicos, que alguns desses países dispõem, sejam explodidos contra alvos ocidentais. Será esse o momento da guerra total.

 

Então é preciso concluir que os acontecimentos de 11 de setembro marcaram uma época: revelaram  que o Ocidente não está a salvo dos bárbaros além fronteira. Isso impõe novas doutrinas militares, novas formas de fazer a guerra e nova forma de fazer a diplomacia. Vivemos os tempos de horror total, da impiedade mais absurda. Viveremos nos próximos decênios o desenrolar de uma avalanche de acontecimentos que, em ondas, serão propagados a partir do epicentro de 11 de setembro.

 

Os mortos cobram a responsabilidade dos vivos, assim como as gerações futuras cobrarão a responsabilidade de quem hoje tem o poder de decisão e de formação de opinião. Não há como se colocar à parte, omissões não serão toleradas. Quem é ocidental e sabe que a sua civilização tem algo a contribuir com o mundo, tem que fazer a sua parte. Aqueles que, mesmo nascido no Ocidente e aqui vivendo, se não abraçarem a sua raiz, deverão ser visto como inimigos, o que de fato são.

 

 

POBREZA E TERRORISMO

09/10/2001

 

O megaburocrata James D. Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, publicou na Folha de São Paulo de hoje (09/10) artigo intitulado “Pobreza merece coalizão mundial”. Sempre que burocratas, grandes e pequenos, falam em pobreza, é preciso ter cuidado com a carteira. Quase sempre eles estão mesmo é preocupados com o seu poder e a sua influência. Pobreza é um mero instrumento de afirmação do seu próprio poder e um ótimo instrumento de discurso legitimador. Daí porque sempre enxergarem que a superação da pobreza é tarefa do poder público, ou seja, deles mesmos, e não do mercado e da ação de cada indivíduo. Se governos e seus burocratas fossem eficazes contra a pobreza, esta há muito teria sido erradicada do planeta. A realidade mostra que isso é simplesmente falso.

 

Mas eu falava do artigo do burocratão. Considero espúria e completamente falsa a associação entre pobreza e terrorismo. Essa tese é um eco das teorias marxistas, que vêem na questão econômica a razão e o motivo dos fenômenos políticos. Isso também é falso. E mais falso ainda é associar o niilismo moral, que se traduz no terrorismo, à miséria de quem quer que seja.

 

A prova mais óbvia de que o terrorismo não se alimenta da miséria está no fato de que os chamados países ricos sofrem do flagelo do terrorismo desde sempre. Quem não se lembra de McVeigh nos EUA, ou do IRA na Irlanda e Grã Bretanha, ou do ETA na Espanha e os mais antigos movimentos, como as Brigadas Vermelhas na Itália e o grupo Baader-Meihoff na Alemanha? E dos recentes atentados no metrô de Tóquio? Essas evidências simplesmente nos revelam que não se sustenta a tese da miséria como causa etiológica do terror, uma vez que ele está em todo lugar, é bem distribuído por todo o mundo.

 

Então qual é a raiz do terrorismo? Em primeiro lugar, a degenerescência moral de indivíduos inescrupulosos, que fazem qualquer coisa para estar no centro do poder. É esse fascínio que está na raiz de tudo e mostra que os ensinamentos milenares das tradições religiosas enfraqueceram para aquelas pessoas, eliminando qualquer sombra das virtudes superiores. Em segundo lugar, a pregação das teorias revolucionárias, que prometem o paraíso na terra (e no céu, no caso dos muçulmanos) aos que se engajarem na sua violência política. E aqui está claro: os manuais marxista-leninistas são a base teórica e o instrumento de doutrinação da juventude, o catecismo para a formação dos futuros terroristas. Em terceiro lugar, o fanatismo religioso, mais das vezes combinado com a pregação marxista-leninista, cujo propósito é arregimentar militantes para algum lunático aventureiro, a la Lênin, que se proponha a tomar o poder pela força, atropelando o próprio destino. Aqui tradição e religião não passam de meros discursos para a elaboração de apelos emocionais, de grande ressonância em populações onde há homogeneidade de uma tradição e um enraizado conservadorismo.

 

Vendo as poéticas e tristes fotos publicadas na mesma edição da Folha de São Paulo, dos afegãos em fuga, com seus burricos carregados com suas mulheres e seus pertences, fica difícil imaginá-los jogando bombas em Nova York. Até mesmo o conceito de riqueza muda para essas pessoas: talvez se traduza no seu pequeno rebanho, nas suas poucas terras, na fartura de mesa para si e para os seus nos tempos do rigoroso inverno. Sim, o conceito de riqueza é também relativo e depende de cada cultura. O homem do burrico certamente se sentiria infeliz vivendo em alguma mansão de na Europa e no EUA, mas certamente estaria muito feliz fazendo a sua própria colheita e cuidando do seu pequeno rebanho, sentindo-se um homem rico. Da mesma forma, para torná-lo um terrorista é preciso, antes, cortá-lo de suas raízes.

 

Propor uma coalizão mundial contra a pobreza é mera retórica vazia de burocrata arrumando o que fazer. Só se combate a miséria com trabalho organizado, sem a ingerência de governos e burocratas, que são uma praga a devorar os recursos duramente produzidos pelas pessoas. São verdadeiros parasitas. A ação do Estado e da burocracia só diminui a riqueza, jamais contribuindo para aumentá-la. É óbvio que o burocrata-mor jamais reconheceria essa verdade auto-evidente. E claro que a ação dos burocratas tem efeitos nulos sobre as causas reais do terrorismo

 

 

BIN LADEM NÃO É O CONSELHEIRO

11/10/2001

 

Um dos comentários mais mendazes que li sobre Osama Bin Ladem está na Folha de São Paulo de hoje (11/10), escrito por Márcio Aith ("Cabul e Canudos evocam luta do bem contra o mal"). Esse autor tenta traçar um paralelo entre Bin Ladem e o nosso Antônio Conselheiro, personagem central do nosso infausto Canudos.

 

E por que não procede o paralelo? Por que em Canudos houve uma guerra civil, se é que podemos chamar assim. Foi um conjunto de mal entendidos de parte a parte que deu na grande tragédia. Tudo que o Conselheiro e seus adeptos queriam era viver em paz a sua vidinha camponesa, paroquial, mas quis o destino que as coisas dessem no que deu. Canudos era um fim-de-mundo esquecido e seus habitantes jamais quiseram agredir ninguém, desde que lhes deixassem em paz e respeitassem a sua crença. E, em hipótese alguma, alguém poderia colocar sobre ele a pecha de terrorista.

 

Já o saudita é o oposto de tudo isso. Tem o projeto de estabelecer um Estado islâmico mundial; tem força e determinação para combater a própria civilização ocidental. Não obstante ser oriundo de um fim-de-mundo é, paradoxalmente, um globalista, que tenta construir um império. E ele acredita que o terror é uma arma que deve ser usada em todos os lugares e por todos os meios, sem qualquer restrição moral.

 

O Conselheiro e seu povo apenas defenderam-se quando invadiram o seu pequeno mundo. Osama Bin Ladem, ao contrário, agrediu sensacionalmente o coração da América, em um ato covarde planejado com muita antecedência, usando de conhecimentos militares requintados que o povo de Canudos nunca teve. Um ato de guerra.

 

Esse é um exemplo de comentário que busca equiparar os diferentes. Todos sabemos que a epopéia de Canudos é algo que os brasileiros vêem com muita simpatia e piedade. Será que o autor tenta produzir esse efeito para os terroristas muçulmanos junto à opinião pública? Espero que não, pois seria de uma indignidade sem tamanho. Espero que o texto tenha sido apenas um equivoco.

 

 

O INIMIGO DE WALL STREET

12/10/2001

 

Para quem gosta de escrever artigos definir o título é um momento importante do processo. Eu às vezes faço-o e depois deixo fluir o texto. Quase nunca tenho que mudá-lo. Às vezes, faço o texto e depois defino o título. E, mais raro, faço o texto, defino um título provisório e fico me roendo, insatisfeito, pois acho que poderia ser melhor, mais fiel ao texto.

 

Para as linhas que abaixo foram escritas, o título que ficou definido foi uma das muitas possibilidades que me ocorreram. Pensei em "O Mentiroso"; outro foi "Uma Ode ao deus-Estado"; outro foi "O Estatista"; Outro, "O Lucrofóbico"; Outro, ainda, "O Bin Laden da Economia". Por último, "Um Candidato ao Prêmio IgNobel". Os leitores podem, à sua escolha, substituir o que está acima por um desses, porque, penso, até que todos refletem, em maior ou menor proporção, a idéia central deste comentário.

 

Refiro-me ao artigo publicado na Folha de São Paulo de hoje (12/10), da lavra do recém ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz. O título do artigo é mais do que sugestivo: "EUA têm de rechaçar fundamentalismo de mercado". Havia muito tempo que eu não lia algo de um economista de renome tão anti-mercado e tão pró estatista. É claro que para conseguir essa proeza ele teve que cometer grandes absurdos de lógica e falsificar a verdade dos fatos.

 

Fundamentalismo de mercado: é como se dissesse que as explosões dos aviões que fizeram desaparecer o World Trade Center tivessem como causa primeira a sociedade capitalista, a própria vítima, no caso. E que Bin Ladem fosse uma agente da transformação social, um gajo vingador das forças submersas dos estatistas. A luta de vida e de morte que travam os partidários da livre iniciativa e os socialistas (essa é a palavra técnica para definir a posição política de Stiglitz) teve na eleição de Bush um instante vitorioso para os primeiros, ficando os segundos na cômoda posição de franco-atiradores contra a nova estrutura de poder.

 

Stiglitz, todavia, e não obstante o laurel obtido, no curto artigo conjuga um amontoado de bobagens, dignas de ganhadores do IgNobel. Começa com uma pérola impagável: "Há um sentimento crescente de que talvez nos tenhamos equivocado ao dar ênfase demais aos interesses materiais egoístas, esquecendo um pouco de compartilhar". O autor não percebe e não quer perceber que as empresas capitalistas só o que fazem é compartilhar, que as trocas do livre mercado são a essência do compartilhamento da produção social e que sem esse compartilhamento as empresas simplesmente quebram. Se o distinto consumidor se recusar a compartilhar a produção de alguma empresa, uma abraço, é caixão e vela preta para ela, quebra. Basta ver o dramático exemplo que está a acontecer com a indústria de aviação civil e com o setor hoteleiro nos EUA. Sem compartilhar é quebrar. O consumidor tem o poder de vida e de morte sobre as empresas. Para elas, compartilhar é sobreviver.

 

O que o distinto IgNobel entende por compartilhar é que aqueles que trabalham, dão duro e coisa e tal devem pagar mais impostos para que burocratas com Stiglitz possam gastá-los de acordo com os seus preconceitos. Isso é na verdade uma injustiça, castiga quem faz a sua parte no processo e premia aqueles que não querem nada com o batente (menos) e os burocratas intermediários das benesses do Estado (mais).

 

O homem bate duro contra a privatização da segurança dos aeroportos, acusando-a, entre outras coisas, de ser culpada pelos atentados dos terroristas muçulmanos. Nas suas palavra: "Não faz sentido privatizar uma área de vitral interesse público como a segurança dos aeroportos. Os baixos salários pagos aos agentes privados de segurança geraram grandes lucros. Linhas aéreas e aeroportos ganharam, a curto prazo, mas tanto elas quanto o povo dos Estados Unidos terminaram perdendo – e muito – como hoje sabemos, horrorizados".

 

Vamos analisar a citação por partes. 1- Afirma que os atentados e suas dramáticas conseqüência para a indústria de aviação civil foram causados pela privatização da segurança dos aeroportos; 2- Os baixos salários são também um elemento etiológico da tragédia, tendo como vítima os infelizes trabalhadores que os ganham; 3- Os grande lucros também são os culpados, agentes ativos que beneficiam os desalmados capitalistas; e 4- O povo americano foi a vítima inocente desse processo de privatização.

 

Até a pequena Maria, minha filha de quatro anos, sabe que a luta contra o terror é difícil e que esse se vale sempre e sempre do elemento surpresa, de difícil prevenção. Foi isso que aconteceu, numa ação muito bem planejada, com muito tempo de antecedência, que ninguém e, sobretudo os órgãos de Estado, a quem caberia antecipar-se, pôde prever. A responsabilidade sobre os acontecidos é, antes, da CIA, do FBI e das forças de inteligência como um todo, não dos coitados dos seguranças dos aeroportos, que cumpriram à risca as determinações emanadas do Estado, supostamente capazes de prevenir ações do tipo. Se houve falha, foi do Estado e não das empresas privadas de segurança. E até acho que não houve falha, os EUA estavam vivendo em paz, sem ameaça ostensiva e dentro de uma relativa segurança, mas isso não retira a falta de antecipação e de planejamento dos órgãos de inteligência do Estado, que são pagos para isso. Fosse eu um funcionário das empresas de segurança dos aeroportos, entraria na Justiça contra Stiglitz, por calúnia e difamação. O homem é, de fato, um mentiroso.

 

Ora, dizer que há baixos salários é como se fosse uma arbitrariedade das empresas praticá-los, e não uma realidade de mercado. Salários não podem ser descolados da sua produtividade. Por definição, sem a interferência do governo e dos sindicatos os salários praticados refletem o seu valor. É provável que a taxa de salários vigente nesse mercado fosse compatível com a necessidade de manter as tarifas dos bilhetes aéreos a um preço razoável, permitindo a prosperidade de toda a indústria, significando o bem-estar dos consumidores usuários desse serviço. O sujeito que escreve uma opinião dessa, com um diploma de economista laureado, só pode ser considerado um agente da mais pura má fé, pois supostamente não é um ignorante. Que diabos tem a ver os supostos baixos salários com a vontade criminosa da terroristas? Simplesmente nada.

 

Falar dos lucros das empresas é apenas a expressão verbal do preconceito com que essa grandeza econômica é tratada pelos socialistas. É uma acusação gratuita, típica de engajados na guerra gramsciana de desinformação. Também nada tem a ver com o ímpeto homicida dos terroristas.

 

Americanos vítima da privatização? A realidade é exatamente o contrário. São, os americanos, o povo do mundo que melhor se beneficia da falta de presença do Estado na produção de bens e serviços. Stiglitz está tão obcecado com seu ódio ao mercado que não enxerga o óbvio: que os americanos foram vítima da vontade criminosa de tresloucados, que foram fazer a guerra em pleno solo americano. Essa é a causa primeira e derradeira do processo, todo o resto são quimeras das cabeças espumantes do ódio de classe. É o mesmo que dizer que o ataque dos japoneses na Segunda Guerra teve como causa a privatização de algum serviço. Só um doido varrido para fazer uma afirmação dessa.

 

Ele faz uma pausa para escrever alguns parágrafos contra os chamados "paraísos fiscais". Tudo que burocratas estatistas como Stiglitz querem é garrotear a livre circulação de capitais pelo mundo, objetivando taxar os seus ganhos, o seu estoque (confiscá-los com algum tributo sobre a riqueza) e definir a sua alocação. Querem a implantação do socialismo mundial. Nem vou discutir essas sandices, que são tão óbvias que não pagam o tempo. Fica o recado aqui que criminosos são os banqueiros e investidores de Wall Street, que só pensam naquilo, ou seja, no lucro e reduzem o Estado, prejudicando a segurança. O homem é, de fato, um lucrofóbico, com a licenaça do neologismo.

 

Na seqüência ele acusa uma outra ação de privatização nos EUA, para uma empresa que faz enriquecimento de urânio (United States Enrichment CorporationUsec). Nas entrelinha deixa claro que se algum artefato atômico explodir pela mão dos loucos de Alá será responsabilidade dessa empresa privada. Ele afirma: "Como pôde o governo levar adiante essa privatização absurda sob qualquer ponto de vista? Ainda que a ideologia da privatização seja parte do motivo, os interesses financeiros influenciaram o caso: a empresa de Wall Street encarregada da privatização pressionou e lucrou, muito". Alguém pode imaginar crime maior que esse, lucrar muito?

 

Penso que nem os mais xiitas dos economistas do PT produziriam um artigo tão absurdo, tão cego em relação aos fatos e tão ideológico, no pior sentido da expressão. Uma verdadeira peça de propaganda socialista.

 

O artigo do homem é, de fato, ignóbil, no sentido dado pelos dicionários de língua portuguesa à palavra. Alguns deles, a escolher: 1- Baixo, vil, desprezível; 2-Que não tem honra, vergonhoso, torpe; 3- Que possui pouco ou nenhum valor. Acho que qualquer das definições dão muito bem a medida do conteúdo do texto.

 

 

SOBRE A QUESTÃO PALESTINA

06/11/2001

 

 

"Pensem nas crianças, mudas, telepáticas..."

(Vinícius de Moraes).

 

Tive a oportunidade de rever a trilogia do filme The Godfather, de Coppola, que acabou de sair em DVD, aproveitando o último feriado do Dia de Finados. É sempre um prazer renovado e uma redescoberta ver essa fita, uma obra-prima. Quero aqui sublinhar uma cena das mais emocionantes, quando Vitor Corleone (Marlon Brando) manda reunir todos os chefes de famiglias e propõe a paz dos bravos. Acabara de ter um filho cruelmente assassinado e renunciou à vingança, não porque fosse fraco e tivesse perdido o ímpeto guerreiro, mas porque queria proteger o filho mais novo. Um gesto de grandeza do qual só os fortes são capazes.

 

Esse linda imagem me veio a propósito dos conflitos do Oriente Médio. Quantas fotos de crianças trucidadas de parte a parte, quanto horror, quanta violência insana e inútil temos visto na imprensa nacional e internacional. Poderíamos dizer aos líderes políticos: Pensem nas crianças, mudas, telepáticas, como escreveu Vinícius de Moraes a propósito da bomba de Hiroshima. Será menos letal um canhão, um fuzil, um homem-bomba explodindo criancinhas indefesas? Não, para os que morrem. Para os que sobrevivem, só resta a mudez diante dos atos nefandos.

 

O artigo publicado por Edward Said na Folha de São Paulo em 05/11 ("Crise mostra importância da questão palestina") é uma peça tocante. Faz uma análise, com agudeza e sensibilidade, do conflito árabe-israelense, do ponto de vista de um engajado que procura se distanciar do conflito para enxergá-lo melhor. Critica duramente os líderes políticos de ambos os lados, os que acreditam na violência, critica os países ocidentais por apoiarem incondicionalmente Israel, especialmente os EUA, mas critica também os árabes e a estrutura da sociedade palestina, seu sistema educacional, sua pobreza, seu abandono, a reunião de todos os elementos para o obscurecimento da razão e, como conseqüência, a geração de agentes terroristas. Clama por uma paz honrosa para os palestinos e para os judeus, exorta as lideranças a pôr fim ao morticínio e também às seqüelas da guerras, muito mais duras para seu povo por causa da pobreza e por falta de apoio internacional.

 

Em um ponto preciso concordar com ele: sem um apoio internacional amplo, liderado pelos EUA, não é possível haver paz. Mas para construir esse apoio, algumas condições têm que ser preenchidas. 1- A liderança das diversas facções palestinas precisam renunciar aos meios violentos para tomar terras e estabelecer um Estado. Esse caminho já se mostrou inviável, fracassou. O movimento terrorista pode causar mortes e dor, mas não pode vencer a guerra contra Israel e seus aliados. Sem aceitar a sua fraqueza relativa, a inviabilidade do movimento de força, não será possível dar o primeiro passo em direção à paz; 2- Israel precisa ser flexível com a expansão das colônias e aceitar um Estado palestino em termos razoáveis para ambos os lados. Nada que ameace Israel, mas que também não humilhe os palestinos, que não seja um Estado de faz-de-conta; 3- Que os países árabes percam o caráter intolerante e beligerante contra os judeus e o Ocidente. A retórica guerreira não leva a lugar algum e, de uma vez por todas, é preciso aceitar que não podem derrotar militarmente Israel e seus aliados ocidentais. É preciso criar as condições para uma coexistência pacífica, com respeito recíproco; e 4- É preciso uma campanha internacional para a reconstrução da Palestina, a fim de erradicar o mais rápido possível a miséria e o desemprego da juventude, que modernize o sistema educacional, que torne possível o aggiornamento de toda a região.

 

É necessário criar a paz dos fortes e o primeiro passo é a renúncia à vingança pelo sangue derramado, pois só assim as crianças, símbolos das novas gerações de ambos os lados, serão protegidas do horror e da morte. Enquanto houver o ativismo intolerante dos terroristas do lado palestino não é possível exigir que o Estado judeu tenha um comportamento diferente do que tem tido, pois ele tem a obrigação moral de proteger os seus.

 

É preciso ter a grandeza de um forte de verdade para renunciar à força, para renunciar à vingança, para perdoar os inimigos. Fora disso será a perpetuação dos atentados inúteis, seguidos das inevitáveis retaliações. Os líderes do terror devem, primeiro, pensar nas suas crianças. Não haverá nenhum futuro em meio à violência.

 

A lição dada pela obra-prima de Coppola deve servir para que todos nós meditemos sobre a paz.

 

 

BIN LADEN VENCEDOR?

02/12/2001

 

Um balanço dos atentados de 11 de setembro e da retaliação da aliança ocidental contra os terroristas mostra que Bin Laden e seu grupo perderam feio. A destruição da estrutura de poder do Taleban e da sua rede terrorista já está praticamente consumada. E, para piorar as coisas, os demais países que apoiavam o terrorismo islâmico não mais deverão se arriscar a cutucar a onça com vara curta, ou seja, Bin Laden não tem nem para onde correr. Só lhe resta se entregar ou morrer. Sua derrota é total e irreversível.

 

Entendo que a maior derrota do terrorista saudita é de outra ordem, todavia. Os atentados de 11 de setembro foram um marco na psicologia do governo e do povo dos Estados Unidos da América, que desde a Guerra do Vietnã vinham carregando um complexo de culpa que lhes tolhiam a capacidade de reação às inúmeras agressões que vinham sofrendo. A gravidade e a grandiosidade do 11 de setembro uniram Estado e Nação, como há muito não se via. É de se salientar que essa união contra o inimigo não retirou os limites morais impostos a si próprio pelos EUA: travaram a guerra com serenidade e proporcionalidade dos meios, empreendendo um amplo esforço diplomático entre as nações árabes e ocidentais, deixando claro que não era nem uma guerra de conquista e nem contra o povo afegão. Do ponto de vista moral, a ação militar até agora não merece retoque algum.

 

A derrota é ainda mais significativa porque as imagens chocantes dos atentados impuseram apoio imediato das potências européias aos EUA. Com esse apoio, a sua ação pôde ser mais eficaz e legítima aos olhos do mundo.

 

Uma análise do papel da mídia na cobertura do episódio levará à conclusão de que a cobertura – aliada à natureza dos acontecimentos – provocou um choque emocional tão profundo que selou a sorte dos agressores, aos cimentar a solidariedade dos cidadãos americanos e da opinião pública mundial. Ao contrário do que seria de se esperar, os acontecimentos chocantes levaram os meios de comunicação a desempenhar um papel que talvez tenha um paralelo apenas com aquele desempenhado durante a Segunda Guerra.

 

Digo isso a propósito do artigo publicado – o terceiro sobre o qual me debruço – por Umberto Eco na Folha de São Paulo de hoje ( "Mídia foi o melhor aliado de Bin Laden"). A começar pelo título, o artigo é um equívoco do começo ao fim. Analisando os artigos anteriores, pude sublinhar que o autor responsabilizava a vítima pelos ataques e que não queria enxergar o choque de civilizações tão bem expresso pelos atos terroristas.

 

Embora enfocando o problema por outro ângulo, Eco novamente erra na sua análise, porque julga Bin Landen vitorioso pelo simples fato de ver a sua obra hedionda ser noticiada em destaque por todos os meios de comunicação. Afirma ele que "cada ato terrorista (e essa é uma história conhecida) tem como objetivo divulgar uma mensagem", comparando os atos do saudita com os das Brigadas Vermelhas. Erra duas vezes. Primeiro porque a simples exibição não é, em si, vitória ou derrota, podendo ser uma ou outra, dependendo do impacto emocional que causar e dos efeitos por ele provocados. Vimos nos parágrafos acima que nesse caso o atacante sofreu uma derrota instantânea, ao unir o povo americano e também os seus aliados em todos os continentes. Em segundo lugar, o tipo de terrorismo praticado não se compara com o terrorismo tradicional, no interior de um Estado, objetivando a tomada de poder. Bin Laden não queria fazer o sucessor de George W. Bush, ele queria simplesmente matar o maior número possível de "infiéis" e da forma mais espetacular possível. Isso muda tudo.

 

Esses erros de análise levaram Eco a uma conclusão ridícula, a de que "a mídia deu a Bin Laden publicidade gratuita no valor de bilhões de dólares". Simplesmente essa conclusão é absurda, pois o que a mídia fez foi construir a vontade política dos cidadãos e dos chefes de Estado do Ocidente para mobilizar uma máquina de guerra que iria destruir os sonhos de uma hegemonia islâmica dos lunáticos, em especial de Bin Laden.

 

Só alguém completamente descolado da realidade objetiva para imaginar que Bin Laden colheu alguma vitória nesse embate. Ou então cheio de más intenções. Não sei em que caso classificar o indigitado autor.

 

 

LIÇÕES DA GUERRA

03/04/2002

 

Um dos comentários mais brilhantes e corretos que li sobre a guerra em curso no Afeganistão foi publicado pelo professor Mendo Castro Enriques no jornal Euronotícias e que também está disponível no site do professor Ricardo Bergamini (www.rberga.hpg.ig.com.br). É uma aguda percepção psicológica das contradições que residem na alma do Ocidente diante do Outro e diante da guerra. Dois pontos ele levanta que são da maior relevância: a necessidade de o Ocidente encontrar-se a si mesmo e a ambigüidade ocidental diante do conflito. Comecemos pelo primeiro ponto.

 

"Enquanto procura Bin Laden nos montes e vales do Afeganistão, é importante que o Ocidente se encontre a si mesmo. Se o não fizer, qualquer vitória no terreno acabará abafada pelas ambigüidades da missão ocidental", afirma corretamente o professor Mendo.

 

Encontrar-se a si mesmo: sim, é essa a essência. Mas não é mesmo essa a missão por excelência de um cristão, de um ocidental? O professor Mendo reforça ainda uma vez a sua tese: "Os problemas estratégicos da campanha militar no Afeganistão mostram à saciedade que não existirá uma solução ‘lá fora’ para o mal-estar ‘cá dentro’. Apanhar OBL não eliminará milhares de outros terroristas. Quando os Talibãs forem expulsos, a Loya Jirga do Afeganistão dificilmente porá fim a uma guerra civil já com vinte anos. Enquanto Afeganistão e Cachemira não tiverem paz, é impossível que Paquistão e Índia se entendam; e mesmo que tudo corresse bem no Oceano Índico, lá estariam os vizinhos de Israel a ulcerarem um mundo que assenta no petróleo bem octanado do Golfo Pérsico".

 

Essa intuição do ilustre professor da Universidade Católica Portuguesa leva-nos a algo das lições essenciais da nossa tradição. O encontrar-se a si mesmo é a busca solitária de cada um dos indivíduos, idéia que andou meio perdida nos dois últimos séculos. As guerras vividas, por exemplo, no século XX, embora acabassem sendo a expressão da vitória dos valores ocidentais contra o perigo ameaçador, levaram não ao reforçar da tradição e dos valores superiores, mas justamente ao contrário: nunca a degenerescência dos valores e dos costumes, a descrença generalizada, a negação do Deus dos nosso pais foi tão forte.

 

Um paradoxo: enquanto a sociedade ocidental se enriquecia, enquanto chegava no seu apogeu de poder, as suas bases mais profundas foram minadas de dentro para fora. A força vital do Ocidente enfraqueceu, permitindo que todo tipo de patologia moral e psíquica brotasse, advindo daí a invasão das culturas exóticas, que tanto encanto causou em nosso meio, em prejuízo do que temos de mais sagrado.

 

Penso que a guerra em curso poderá reverter esse processo. Encontrar-se a si mesmo significará um olhar crítico ao espelho em busca do próprio rosto. Significará um aumento da coesão interna entre os povos do Ocidente. Poderá significar também um remédio contra as desordens psíquicas tão visíveis em vastas parcelas da população, expressas inclusive na sua dimensão política, em partidos que são a expressão acabada da negação dos valores ocidentais e que eventualmente estão no poder.

 

Encontrar-se a si mesmo significará a busca da essência religiosa, não aquela que fez da Igreja de Cristo numa paródia do palácio de César, não aquela pregada nos púlpitos de sacerdotes vestidos de vermelhos da cabeça aos pés. Mas, sim, um voltar-se para o requinte das coisas da espirituais trazidas pelo Cristianismo. De novo a Verdade deverá ser expressada por toda a gente.

 

A outra intuição do professor Mendo não é menos valiosa:

 

"Ora, a guerra do Afeganistão foi até agora uma campanha de ambigüidades. Num cenário clássico, os governos fariam propaganda para justificar esforços militares. Na operação ‘Liberdade Duradoura’, a campanha militar serve uma propaganda para consumo doméstico e para intimidação moderada de aliados duvidosos... Esta ambigüidade é característica do novo imperialismo relutante americano, tão perigoso quanto o velho imperialismo britânico: afinal o Afeganistão está a ser bombardeado, e as conseqüências destabilisadoras na região circunvizinha são evidentes. E enquanto se amontoam os escombros em Cabul e Candahar, fica a pergunta: qual é a missão?"

 

Pergunta impertinente essa: qual é a missão? O autor responde com muita maestria: "Ora, a guerra contra o terror é uma guerra cultural em que cada sociedade tem que contar consigo mesma e acreditar que os valores políticos, económicos e culturais do humanismo universal são superiores porque são os únicos capazes de se auto-corrigirem. Para isso, é preciso paciência, razoabilidade, coragem e justiça e todas as demais virtudes que carecem de tempo e firmeza para darem fruto. Para isso, é preciso acabar com as ambigüidades.. A verdade é que, na guerra cultural em curso, a superioridade dos valores ocidentais assenta na capacidade de se auto-criticar e de se aperfeiçoar. Esse, creio eu, é o nosso fundamentalismo, que nos permite discernir o bom e o mau nas nossas sociedades. A missão, creio eu, é não o perdermos de vista.

 

Acabar com as ambigüidades não é apenas construir a unidade de propósitos de todo o Ocidente. É acreditar que a guerra em curso é não apenas uma guerra defensiva e inevitável, que não foi buscada, mas que veio, e que do lado de cá das trincheiras se encontra o elemento civilizador que poderá inclusive beneficiar quem está do lado de lá. É acreditar na justiça da campanha militar, dada não apenas pelo seu caráter defensivo, mas porque os soldados carregam na ponta de suas baionetas a certeza de que estão a fazer a pacificação, que do contrário só se estabelecerá pela vitória do caos e do retrocesso, representados pelo revanchismo dos adversários.

 

Sim, o Ocidente tem consciência de sua superioridade tecnológica e militar e tem também a grandeza moral de não executar uma guerra em larga escala, que redundaria fatalmente no extermínio puro e simples de quem está lá. Nossos valores e nossa consciência não permitiriam isso. É preciso vencer, separando claramente aqueles que são agentes da agressão e membros da estrutura política agressora, de todo o povo. O Ocidente não quis a guerra e não que cristianizar o islã. Mas tem o dever de vencer e de exportar aquilo que é neutro do ponto de vista cultural e que poderá ajudar os muçulmanos, sem prejuízo de sua fé, ao necessário aggiornamento, com o propósito definido de colocar aquelas sociedades no mesmo pé de igualdade que o nosso. Numa palavra, torná-las democráticas, como foi possível com o Japão, com os nazistas e, porque não dizer, com os países da Cortina de Ferro.

 

Sem ambigüidades: que venha a vitória e que a consciência do Ocidente realize a sua missão mais que nobre, nessa guerra justa. Que triunfe o nosso fundamentalismo: é essa a missão.

 

 

ROMA E MECA

07/04/2002

 

Um certo Sr. Garçon, residente em Minas Gerais, fez algumas observações equivocadas sobre os meus escritos dos últimos dias, enfocando a temática do Oriente Médio, tendo-as recebido através de um amigo mineiro. Tomo as observações como mote porque elas espelham a ignorância que grassa em meio à intelectuária ocidental, mormente aqui na terra de Santa Cruz. E a palavra intelectuária aqui tem o sentido atribuído pelo mestre Meira Penna, que a cunhou: aqueles pseudos que usam da arte de escrever para propagar mentiras e se colocar a serviço das causas mais demoníacas e assassinas, vinculadas aos movimentos de revolucionários de inspiração marxista.

 

O Sr. Garçon conseguiu, em poucas linhas, resumir toda a ignorância que passa por conhecimento de História, especialmente naqueles capítulos que enfocam o Cristianismo. E não apenas a ignorância, mas a rejeição à nossa tradição, à formidável herança da qual hoje usufruímos, seja em termos de consciência moral, seja em termos de liberdades políticas, seja em termos de presença no mundo. Sim, há uma hierarquia de culturas, por mais que os politicamente corretos venham a negar e, sem dúvida alguma, o Cristianismo é um dos cumes éticos da conquista do espírito humano. Por menos que gostem os Garçons e tutti quanti. Até mesmo os ideais esquerdista são projeções mal feitas dos fundamentos sociais da herança judaico-cristã. Eles não existiriam se Cristo não tivesse andado pela Terra.

 

Taxa-me de fundamentalista cristão, o que de fato sou. Não no sentido pejorativo que ele atribui à expressão, mas no sentido de que os fundamentos da minha psique – da minha alma – são cristãos. Orgulho-me da minha tradição, da conquista ética e humanista que ele construiu e acredito piamente que há um Deus e que Cristo veio ao Mundo para fazer a remissão dos pecados e para permitir a ressurreição dos mortos. Orgulho-me de passar a meus filhos a crença no Deus dos nossos pais. dois milênios de história cristã e pelo menos mais um milênio de história judaica anterior, da qual o Ocidente é o legítimo legatário. Isso sem falar da tradição clássica, da qual o cristianismo é também tributário.

 

Garçon escreveu: “Falar que o islamismo é eminentemente imperialista e expansionista em contraposição a um ocidente acolhedor e tolerante é esquecer e ignorar a  nossa história. Difícil olhar para o próprio espelho? Quem deflagrou as Cruzadas? O que foi a Inquisição por acaso? Quem abençoou a colonização da América e genocídio nela praticado? Quem atestou a ausência de alma entre os africanos escravizados? Nas duas guerras mundiais o "Deus" cristão estava do lado de quase todas as potências assassinas. Aliás, que religião professavam os executores do holocausto? "Seja o que Deus quiser", disse o piloto do Enola Gay depois despejar a bomba atômica em Hiroshima”.

 

Ora, é claro que no passado as sociedades cristãs (e não o Cristianismo) praticaram o imperialismo. Mas o fizeram exatamente porque essas sociedades ainda não estavam suficientemente cristianizadas. Houve uma ampliação contínua  da consciência cristã ao longo dos séculos no Ocidente, a custa de muito sangue e muitas lágrimas. A história dos cristãos está recheada de martírios. Se foi assim no passado, não é mais no presente. Falar das Cruzadas e da Inquisição em pleno século XXI para tachar o Cristianismo de imperialista é de uma falta de senso espantosa, é uma mentira travestida de explicação histórica. Garçon esquece que uma das maiores conquistas da Humanidade foi a separação entre a Igreja e o Estado – entre a esfera política e religiosa - algo que só ocorreu no Ocidente, ao custo de muitas vidas. O Islamismo, seu ídolo no momento, está muito longe disso. Os Estados islâmicos são, em regra, teocráticos. Estão ainda nos tempos das Cruzadas, nos dois sentidos: estão vivendo uma espécie de Idade Média e fazendo algo equivalente às Cruzadas, através da Jihad que está em curso. Não podemos esquecer jamais dos nefandos acontecimentos de 11 de setembro!

 

Quanto à Segunda Guerra Mundial, não foi uma guerra entre cristãos. Foi um combate entre cristãos e pagãos. Hitler e seus aliados professavam o ressurgir do paganismo, do deus Wotan/Dionísio, e tinham como objetivo último precisamente erradicar o Cristianismo da face da Terra. E o cristianismo venceu. A Luz venceu as Trevas. Recomendo a leitura dos ensaios de Jung sobre o assunto; são bastante elucidativos. Leia também o romance Dr. Fausto, de Thomas Mann, um fantático relato dos acontecimentos alemães pela ótica da arte literária. O Holocauto judaico não pode ser atribuído aos cristãos, isso seria uma falsificação histórica, uma infâmia. Aliás, foram os cristãos que impediram que aquela obra hedionda tivesse prosseguimento e patrocinaram a criação do Estado de Israel, onde os judeus puderam ter finalmente a sua sonhada unidade política.

 

Quanto à conquista da América, Garçon chama a isso de genocídio. Eu a chamo de empreendimento civilizador. Os europeus trouxeram para a América o requinte da civilização, permitindo assim que as comunidades neolíticas que viviam aqui, praticando formas variadas de genocídio, inclusive com a prática de sacrifícios humanos e antropofagia, pulasse diretamente para a modernidade européia. Só olhos preconceituosos e engajados em enlamear o glorioso passado dos ibéricos aqui no Hemisfério Ocidental, ao arrepio da verdade dos fatos, para falar besteiras nessa proporção.

 

E não podemos esquecer que foram os ibéricos que fizeram a Reconquista, expulsando na ponta da lança os imperialistas muçulmanos que invadiram a Europa. Lutaram e venceram e, desde então, houve o triunfo da Civilização Ocidental. O fato de terem sido derrotados – seja militarmente, seja no campo científico, seja no campo filosófico – não torna os muçulmanos menos imperialistas e mais simpáticos.

 

Infelizmente, o Ocidente padece do que eu chamaria da estultícia dos compassivos. A compassividade só é virtuosa de acompanhada do respectivo senso de proporção, fundado na realidade dos fatos. Não é possível ser compassivo com terroristas que não têm nenhum apego à vida humana, que praticam o suicídio com o único propósito de matar (vide o 11 de setembro!), que são movidos pelo ódio mais cruel, que não se detêm diante de nada, que seqüestram, que matam, que se acobertam da escuridão para perpetrar os atos mais ignominiosos. Tudo isso em nome da suposta recompensa eterna, nos luxurioso braços das muitas virgens.

 

É preciso lembrar que em Roma foram autorizados a construção e o funcionamento de mesquitas, que são respeitadas. Isso jamais seria autorizado em Meca, onde sequer os crentes cristãos podem pisar. Quem são os intolerantes? Quem são os imperialistas?